25 de dezembro de 2010

AMOR, TUA VOZ CARREGA



Amor, tua imagem vem
E presta se revela
Eu te distingo, enfim,
Em corpo, voz, semblante:
A carnadura rija
O olho que interroga
O cenho levantado
A mão pequena
O dedo inquieto, o lábio
O som da bota, o riso
Alto, o rio, a mágoa
O eco em meus ouvidos

Amor, tua imagem vem
Na voz antes sonhada
Distingo o cão fiel
Dos dias tristes, flor
Na árvore, maçã
Cativa, a implacável
Ternura, a solidão
De lágrimas e espelho
Amor, estou feliz
Porque és imaginada
E, concebida, amo-te
Ainda mais e sempre

Contudo, sei que vens
Na hora combinada
No mais belo dos dias
Amor, sei que virás
Estrela branca, tátil,
Única, revelada
Opala que me vê
Onde nada se move
Chama na noite, onda
D´água desintegrando
A terra, aurora azul,
Chuva que alaga a seca

Amor, tua imagem vem
E se desfaz aos poucos
Eu te distingo enfim
Em corpo, voz, semblante
Eu te descubro, amor,
Em mim - és minha falta
Meu atol, minha amante
Minha fenda, meu traço
Amor, tua voz carrega
Um som de eternidade

Manoel Olavo

21 de dezembro de 2010

QUANDO CHEGAR A HORA



Passarei. Passará o que vier:
O dia, a face, o amor sonhado, o filho
Nada vai deter o corte da navalha
Nada vai fluir no leito deserto
Do regato, na paisagem que mata
Memórias, brotando metáforas.
Mas, porque nasci entre homens, hei
De dar espaço, arauto, à palavra
Encantada, ao corpo novo, à ode
Atada a vida – volúpia de tê-la
Quando chegar a hora e eu for nada

Manoel Olavo

19 de dezembro de 2010

NO PAÍS DA ELEGÂNCIA PERDIDA

Tudo bem
Existe a miséria, a violência
O sonho de transformação
                           [perdido

Mas o pior
É a vulgaridade

Manoel Olavo

17 de dezembro de 2010

SÃO SEUS OLHOS

São seus olhos: você me vê atrás das aparências
Entende meus sonhos, meus silêncios
Minha dor calada, meu fingir-que-eu-posso

Quero de você essa virtude rara
De me fazer maior do que eu sou
De me levar além do que mereço

Por isso te amo e ajo como se não houvesse
O mundo à nossa volta; e só vejo você
Seu olhar, meu guia, estrela polar, Órion

Seu corpo de marfim, toque de calor
Que me incandesce. Em suas mãos, em sua
Pele clara, eu voo entrecortado de gaivotas

Viajo na maré de luz, na revoada.
Me sinto como um rei num madrigal
De carícias e posso ser feliz porque te amo.

Manoel Olavo

16 de dezembro de 2010

ANDARILHO



Um erro ancestral
Prende os meus pés à terra

Andarilho
À cata do que não vê

Adiante
O sol poente
O preço da modernidade
E o peso das palavras
Com que tento me salvar

Manoel Olavo

14 de dezembro de 2010

METAMORFOSE



A brisa vem, nos envolve e é bem-vinda

Eu nem fingi saber de onde tu vinhas

De que perdido jardim tinhas chegado

O vento te conduz e eu vi que eram muitas

As sementes de mulher, os dons da graça

Os olhos todos germinando enquanto te abres

Um prisma te desfaz por entre os elementos

E, de mulher que eras, viraste brisa, sumo, água, lira

Flor de Adônis, fonte germinal e tudo foste um dia

Tudo, mulher, já foste um dia, assim oculta

Tão colossal que ainda me conforta e ama

Pois como vou viver sem essa brisa úmida?

Sem a tua metamorfose?


Manoel Olavo

13 de dezembro de 2010

NÃO ERAM AS PALAVRAS

Com você
Eu estava inteiro
Mesmo a sós.

Algo seu
Me tocava
E não eram palavras.

Mas fico sem você
Sem o caminho
Que me pertencia.

Não há mistério
Em estar sozinho.

Reluz a fração
Que ama a vida
Nada me dói se
Amor fatiga as lágrimas.

Mas a alma
Atingida por você
Jamais será a mesma.

Manoel Olavo

VENTO



Como um vento
A roçar de leve
Ouço teu nome
Me dizer assombros

Como um sinal
Um súbito raiar
De claro-escuro

O espanto de
Se ver lá fora
Que é de manhã

Estive demais
Em tudo, saltei
No coração das coisas

Agora é silêncio
Outono de amor
E espelhos quebrados

O resto é luz, fendas
Cansaço de viver
E uma imensa
Obscuridade
Branca


Manoel Olavo

9 de dezembro de 2010

NÃO SOU, HELENA, UM LEGÍTIMO PASTOR

Eu não sou, Helena, um legítimo pastor
De tanger ovelhas e enfrentar tempestades.

É teu esse pastoreio e a beleza amena
De dares relva a um rebanho dependente.

Eu cá vivo, Helena, numa cidade imensa
E fiz minha Arcádia com mitos e palavras.

Porém sei que és real e tens o dom das musas.
A queda no abismo. O coro da vida. A fúria.

Pastora, és sangue derramado sobre a flor.
Eu faço minha parte, amando-te em silêncio.

Manoel Olavo

5 de dezembro de 2010

FONTE



Enfim pôde brotar a água limpa
Da fonte comum que banha nossos corpos

E almas; e esfrega-os, afaga-os a sós;
Une restos de luz a cores renascidas.

Oh celebrado sentimento de sentir-se amado!
Da destruição, nós estamos fartos.

Sabemos bem que gemidos sussurrados
Não bastam para vencê-la.

Restou porém uma pedra e uma árvore
E com elas fizeste um universo inteiro.

Restou porém uma vigília atenta
E a ânsia de nascer entre os destroços.

Tu e eu sofremos tanto, braços dados
Com o vazio, vendo partir quem não podia.

Tu e eu rondamos a face do terror,
Densidade negra da vida desprezada,

Na hora de chumbo em que nada soa.
(Mas celebrar a perda pode ser retê-la)

Começar de novo, sempre e à própria sorte,
A jornada em que o fragor não é vencido.

Poder sorrir da vida que é martírio e enlevo.
Em seu dossel dormir, quedar-se aflito

Pedir alívio pra dor, novos amores,
Imprevistos desejos, acenos de madrugada.

Estranho é pedir amor empunhando letras!
Estranho é querer gritar e guardar no peito.

Estranho é chegar quase morto ao fim do dia.
De onde, afinal, jorra da fonte o nascedouro?

Não estará entre lençóis macios o breve
Gesto de amor que um dia me negaste?

Manoel Olavo

4 de dezembro de 2010

UMA CANÇÃO DE AMOR

Eu sei que entre nós dois existe gente à beça.

Velhos casos de amor, encontros adiados.

Sonhos de salvação, medos, expectativas.

Desejos comuns se arrastando pelas valas.

E valores diferentes! Sim, nós dois os temos.

Somos produtos sociais de tempos de crise.

Filhos de gente não recomendável, seres fronteiriços. 

O ódio e a ilusão são o alimento farto de nossas vidas,

Da dor de existir e querer gozar em dobro.

Pois haverá choro e ranger de dentes.

Nossa língua falará sem dizer nada,

Sem se mostrar de fato.

Um arqueiro cairá morto sobre a casa.

Os deuses se cobrirão de ouro, com luvas de pelica.

Nós dois seremos despedaçados.

Há uma avenida de corações partidos entre nós

E muita gente feliz vivendo junta.

Há bem mais do que isso, mas a verborragia romântica

Às vezes cansa. E não é lícito comparar paixões,

Odores, climas, mucosas.

Não é lícito forjar mentalidades.

Tantas noites eu saí por aí, 

Se você soubesse, e mendiguei afagos.

Tantas noites eu fui doido, feroz, autoindulgente.

Agora, não, eu canto de madrugada.

E o meu lamento soa no terreiro

Enquanto não brilham as luzes da Broadway.


Manoel Olavo

2 de dezembro de 2010

EDITO

Por ordem dum
Nobre caduceu
Senhor de terras
E de astros
Fica estipulada
A quantia
Destinada
À libertação
Da sua alma
Atormentada.
Aos herdeiros,
Legítimos ou
Admitidos,
Nada. Que
Vivam como
Puderem.

Manoel Olavo

1 de dezembro de 2010

ALCMENE

Poucos poderiam saber
O que nos reserva
O fim deste labirinto:
Um alento, um missal de
Gestos, uma estrela suspensa?
Ou uma impressão de céus,
Um par de mãos crispadas,
Atropelos, azuis em fuga,
Animais, letras, espumas,
Soldados, filosofia em círculos,
Numa súbita explosão
Que vem de longe?
Move-se a terra, ergue-se
O mar, uma nova
Substância deposita-se
No fundo das crateras.
Ruiu, ruiu, assim todos se calam.
Acima do chão, há cacos de tempo,
Vasos quebrados e Alcmene,
Seu olho de prata, vivo, parado
Em grumos desiguais de cor
E severidade. Da fortaleza, nada.
O olho que outrora revelou
Vem nos dizer que não podia.
Esse olho, agora, lê.
Mata o mar que antes prometia,
Fere o chão que antes fecundava.
A medida de cada um
Para sempre capturada.
Vasto céu de noite e medo
Sobre rutilante esfera, vento,
Ameaça, a lei da servidão em gotas,
Tudo em asas se avoluma e vive.
A fábula se antecipa, pressente seu fim,
Mas não!, devemos todos cantar,
Fingir felicidade, desfrutar
Do passatempo enquanto
O mar inunda a nossa sala.
Será esse maremoto nossa última poesia?


Manoel Olavo

TORRES DA MEMÓRIA



Não sei de onde eles vieram. Apenas sei que chegaram, e eram muitos. Ocuparam pacientemente todas as ruas, todas as casas, todas as almas, a cidade parou de circular em paz. Nenhuma fresta ficou livre. Nada arejava, nada respirava entre os interstícios.
Era da natureza deles agir assim, preenchendo todos os vazios, obstruindo a luz. Não deu tempo de gritar, ninguém se insurgiu. Todos se calaram. Eles vieram, displicentes, entraram nos espaços, achataram reentrâncias, nivelaram tudo e o vazio se desfez.
Sinto falta do vazio. Também sinto saudades do silêncio. Do que não é, nem está ainda. Parece que tudo quer brilhar, tudo quer sair da sombra. Tudo precisa estar pronto, corrigido, provado, há uma agitação confusa nisso tudo, e eles querem que seja assim. Mas nem tudo pode ser assim, tanto. Eu lhes garanto. Por isso, deu no que deu: não há mais vazio.
Eu vou morar no vazio. Nos meus vazios. Decidi me recolher para sempre. Vou me isolar em meu pequeno apartamento, um quarto, a cama, uma saleta mínima, banheiro, cozinha. Tudo precário e mal cuidado. Móveis antigos, poucos, madeira escura, o teto tão alto que não dá pra alcançar. Vou viver do que me falta.
Não saio mais à luz do dia. Nem de noite. Não volto à cidade. Dá pra pedir tudo pelo telefone. Pagar pelo computador. Vou fechar portas e janelas. Ficarei aqui, tentando refazer o meu caminho, tudo o que eu já vi. Tentando sentir o que me forma. Tenho todo o tempo do mundo pra isso. Vou me lembrar de cada momento, de cada encontro, de cada pessoa, de cada palavra dita ou ouvida, de cada acontecimento, de cada verdade morta e renascida.
Vou recolher em folhas de papel almaço, milhares delas, minhas lembranças perdidas. Pacientemente, vou escrever cada uma delas a mão. Depois, vou reunir as lembranças em blocos, e amarrar cada bloco com uma fita colorida. Com esses blocos vou erguer torres de memórias dentro de casa. Ainda vou decidir mais adiante, mas cada fita terá uma cor especial, cada época diferente do meu passado vai ter uma cor que a identifique.
Aqui devo ficar em silêncio, escrevendo, lembrando, coligindo dias e anos, seguindo o ritmo de um tempo só meu, alheio às coisas, alheio à ansiosa solicitude da vida. Acima de tudo, estarei livre deles. Livre do seu insuportável preenchimento. Voltarei a ser, depois que eles vieram...
Dormirei, acordarei, tomarei banho, farei comida e sonharei feliz, entre torres dessa memória reerguida, organizadas por cor e por cronologia, volumes métricos contendo relatos de minha existência. Parece pouco, eu sei, mas, pelo menos, vou estar livre deles. Não sei se me salvo. Mas, por um tempo, não me contamino.

Manoel Olavo

27 de novembro de 2010

TARDE DEMAIS

I

Tarde demais
Eu lhe disse:
Não te amo
Não te quero mais!

Vou partir em meio à multidão
desconsolada
Na estreita e vaga luz que me constrange os órgãos

Eu pedirei reforços
Queimarei meus pés em betume e versos brancos
O prédio
O mar azul
Seu sorriso nunca antes adiado

Fatiarei as nuvens
Fritarei em óleo
Sua carne tenra

Convidarei velhos amigos
O olho estreito a rua lotada
A multidão à nossa volta
Gente revirando os restos

A face noturna do real
Sempre pedindo mais


II


Ainda penso em você
No calor desta calçada antiga

O dia passa
Vem o ocaso do desejo
Traz mais uma vez
Memórias sem notícia

A noite vela
O corpo dela tão inocentemente
Um vidro fumê na alma
Os segredos
Em momentânea suspensão

Ah eu poderia ver
Como se fosse
A primeira vez
O que me importa

Poderia ver
Em lâminas
O acontecido
A hora impossível
O eclipse lunar

Tão logo o sinal
De novo se fechasse
A multidão
Se detivesse

Tão logo a lua
Com cores indistintas
Acelerasse a melodia
A trilha fugaz aonde caminho

Tão logo despertasse
A besta-fera
Que há em nós


III


Vestígios:
Agora tudo deu errado
Agora
Inês é morta

E a manhã segue como um féretro

Eu me calo
À beira da velha calçada

Tento achar
a solução do enigma
a resposta

Tarde demais
Ela me deixa

O verbo encarnado
A face sem contorno
Assim como veio
Parte

Silêncio comum
De retas paralelas

IV

Entreaberto o peito
Restam as lágrimas
E outros fluidos corporais

Súbita estiagem
Na alma em chamas

Breve será reconstrução

V

Liberto das coisas
De sua constante antevisão
Desço ao fundo de mim
E me lembro

Da medida avessa e crua
Porém minha

Do pintor das ruas
Do eleito dos ares
Do bravo lutador

Um romance cheio de alegorias

Desço ao fundo de mim
E me contemplo
Me revejo largo
desfile

Há pele suor corpo pelos
Escotilhas que se fecham

Há uma medida avessa
e crua
Porém minha

Nascida de turbulentas fundações
Matéria agridoce
Delírio verbal
Agonia

Sei disso como sei dos
Passos de uma pequena teodicéia
Que faz um novo acordo
E segue à beira do infinito


Manoel Olavo

TUDO O QUE EU QUIS DIZER


Tudo o que eu quis dizer
Pode ser sonho pois essa
Dor no peito mesmo assim
Eu sigo dividido entre
Palavras ouço frases
Caminho por dizeres
Sem presságio a luz
Do sol irrompe pela fresta
Me decompõe me multiplica
Em silêncio
É inútil ficar 
A sós

Manoel Olavo

23 de novembro de 2010

ESTAVAS AQUI

Vi em teu olhar
O mesmo brilho.
Faísca, fato adiado.
Fagulha do amor
Suspenso no céu
À espera de nós.
Chamar-te, agora,
Amor!, enfim dá nome
Às coisas. Faz-te real,
Não mais fugaz nem
Adiada. Pois eu te sabia:
Moravas em mim, saber
Secreto, recôndito desvão
Na alma. Estavas sobre
A cama solta, nas entranhas
Da dor, no tempo que
Passava te esperando.
Eras andar de sonho,
Presença conhecida,
Sopro de luz e palavras.
Estavas aqui, Amor.
Éramos um. Espelhos.

Manoel Olavo

ILHA



Tivéssemos
Chegado
À ilha
Que se
Afasta

Veríamos
A face
Da palavra
Na folha
De papel

Lugar onde os
Mitos estão
De pé
Num chão
Das letras

Manoel Olavo

13 de novembro de 2010

NEM QUE ME MANDASSEM



 Nem que me mandassem pra longe dali, pra depois da curva dessa rua, pra depois do rabo da Quinta Avenida, aonde o asfalto termina, e é só lixo e sangue e tosse e gente rodeada de lama, nem que me mandassem pra depois do limite do mundo, pro fim da linha, pro outro lado da fronteira das eras e, no entanto, é ali do lado;
Nem que eu fosse até ali, até o alto do morro espetado de antenas, de casebres, na penumbra da viela mal-iluminada, e desse as costas à rua que, bem ou mal, eu já conheço, e  faço questão que esteja comigo, pois meu coração só vai até os confins do bairro, só vai até onde está o reflexo, o eco, o eito, passou dali é tudo maldição, é senda, é outro território, passou dali o trem desanda sobre os trilhos, se enche de gente que não foi convidada;
Nem que me mandassem pra depois da estação aonde eu desço, nem que me mandassem pra depois da piscina, do banquete de restos, pro lado de lá dos quintos dos infernos, eu juro que não ia, ah não ia , eu fugia, pois, passou dali, é tudo gente má, chinfrim, cheirada, possuída, gente matando por cigarro, gente tirando o rim das criancinhas, roubando bebês no shopping, bolinando filhos, gente vil, x-9;
Nem que eu me embrenhasse na floresta, voltasse pro meio do mato, quando éramos bons, colhíamos frutos e raízes, voávamos como aves e vivíamos embriagados de bálsamo, malgrado algum canibalismo e o gosto do moquém dos vencidos, mas antes tivéssemos continuado assim, contentes com tudo, autênticos, invioláveis, unidos num tempo anterior à deflagração, anterior ao fim da rua, antes de bater toco por aí, sem mapa nem território.

Manoel Olavo

GUARDIÃO

Sou guardião
Dos versos que cintilas.
Recolho-os nas mãos
E no pensamento.

Sou náufrago
Cruzando o caos.
Ulisses sem Ítaca.

E tu, amada
Ao derramar cristais de sonho
És a ilha prometida.

És musa-aedo
Nereida em mar sombrio
Ninfa Epimélide.

Ao Rochedo do Sono
Peço que conceda
Voragem de amor
E vida, embora
A dor e o tempo.

Só há, bem sei, Helena
- És a mais bonita -
E olhos assombrados
Piscam se tu passas.

Quando tudo terminar
Ao fim da Teogonia
Ainda te guardo e velo
No rastro de galáxias extintas.

Manoel Olavo

6 de novembro de 2010

FOME

Fome: fome de ver a forma bronzeada
Fruí-la redonda, virginal ou seminua
Na maciez dos altos e baixos exibidos.
Nem fartura nem aridez: eis teu apogeu.

Fome: fome de ver a forma eviscerada
Rasgar o manto que recobre as aparências
Pois o olhar, na avidez das visões extintas,
Quer devorar o cerne-luz da matéria exausta.

Fome: sílfide, vestal ou deusa, és a vinha.
A baga nua guarda o sumo, ateia o fogo.
Teu volume-cor dissipa-se na retina
Desfeito em véus de luz e de prazer suposto.

Fome: a que ousa chegar sem aquiescência.
Dado bruto, febril, de consumo imediato.
Dos fascínios coletivos, o mais premente.
Antiasceta por excelência – ou maldição?

Manoel Olavo

3 de novembro de 2010

AMO-TE PASTORA

Amo-te pastora
E neste enigma
Eu te desejo minha

Amo-te colossal
E tudo quanto há
Vem ao teu encontro
 
Pastora:
A face oculta
O lado avesso

Olhar que me espalha
Entre os espelhos

Sabia-te mais do que sonhara
Sabia-te mais do que pedira
Medida voraz de mil incêndios

Amo-te assim um amor maduro
Sem erros desnudo
E querendo-te demais te levo
Por dias de voar ao rés do sonho

Manoel Olavo

28 de outubro de 2010

A SERENIDADE É O DOM DAS PEDRAS



No chão
A vida abatida

Fingindo-me sereno
Pra escapar de mim

Alguém aí
No manto das palavras?

O que sobrou
Do salto do animal feroz
Da indecisão entre vida e morte?

Pedaços
A alma retorcida
E a serenidade:
Esse dom das pedras

Manoel Olavo

27 de outubro de 2010

HELENA

Algo de você
Me confunde
E arrebata

Vertigem

Espelho
Secular

Algo de você
Ecoa como
Tróia incendiada

Helena
A mais linda canção
Que já se ouviu
No mundo

Um dia
As margens se estenderão
E ouvirei seu nome
Bem de perto

Manoel Olavo

25 de outubro de 2010

TEU NOME



Pensava te inventar
Mas estavas pronta

Presença altiva
Na planura desenhada
De quem sempre rainha
Com palavras repentinas
Dissipa a sombra e fere
                          [à faca

Pensava te sonhar
Mas estavas viva

Lastro do corpo
Lonjura da alma
Nudez do rosto

Na alegria de te ver
E de saber-te cerca
Teu nome, amada, eu peço
Entre lençóis, cansaços,
                   [recomeços

Manoel Olavo

22 de outubro de 2010

SABER QUE TE AMO

É como um sonho desigual saber que te amo

Que, embora longe, minha alma desbrava a tua

É como um sonho singular de mãos dadas

Saber que me vejo em ti, és a medida

Que veio pra conter minha solidão.


Eu posso te sonhar além de espaço e tempo

Em brumas consentidas na luz de vidro

Em nuvens irreais de matéria minha e tua

E fazer amor como fazem os deuses...

E singrar-te como nau cortando a vaga...


Eu quero te beijar te tomar ao sol

Prometer amor à aurora levantada

Amar-te colossal enquanto o céu se enche

De gaivotas a mostrar para o universo

Um amor ao largo mas absoluto.


Manoel Olavo

17 de outubro de 2010

MONTANHA E MAR



Faz tempo
Eu vi o mar
Era da cor
Da sua poesia

Quis nela desaguar
Como a montanha
Encontra o mar
No abraço líquido
Das rochas

Como um verso
Riscado no ar
No dorso da
Melodia

Juntos, os dois,
Montanha e mar
Elementos desiguais
Porém pacificados

Manoel Olavo

NUM VOO NOTURNO

Num voo noturno
Vi seus olhos perfeitos
Mas medrosos

Um par de verde luz
Entrou pela janela

Os corações amantes vêm
E se consomem de noite

Tão seu e tão perdido
Eu me arrisco a
Cada encontro

Nosso amor
É um rumor
Em meus ouvidos

E o tempo é
Mera contingência


Manoel Olavo

9 de outubro de 2010

GAIVOTA

 
 
UM FUNDO AZUL


UM TRAÇO EM CURVA


UM OUTRO TRAÇO


ESPECULAR




NÓS DOIS UNIDOS


OU UMA GAIVOTA


NO AR?



Manoel Olavo

3 de outubro de 2010

OLHA-ME

Olha-me
Antes que eu parta
Para sempre
Como quer partir
O outro
Que anda
Ao pé de mim

Olha-me
Antes que acabe
A luz
Que havia
Nas palavras


Manoel Olavo

29 de setembro de 2010

CALMARIA


Sem ti eu trovejei
Por noites de cristal
Fiz bobagem à beça
Tomei veneno
Cortei os pulsos
Dei trabalho aos amigos
Perdi até as calças
Quis viver em claustros
Eliminar instintos
- O coração plantado sob a terra -

Bem feito, coração!
Quem mandou?

Agora, esse oceano Pacífico
Essa calmaria
Esse tom de mar
E nostalgia

Onde? Em seu olhar, é claro...

Em seu olhar:
Elemental como uma fada
Como um artefato, um alaúde
Que fica além além
Da breve bruma
Que tal brisa leve

Manoel Olavo

27 de setembro de 2010

MANHÃ DILACERADA

Aprende-se bastante vendo uma manhã dilacerada
Cortada em partes desiguais, a teus pés caída
Contei centenas de pedaços diminutos

Triste, doloroso espetáculo

Melhor ficar para sempre
Perdida entre os reinóis
Esta lembrança

Manoel Olavo

25 de setembro de 2010

ESCUTA


Ao teu redor
Eu venho voando
Como um pássaro
Em torno da lira
Como um vento
Que sopra à ilharga

Beleza demais
Da tua verde luz
Do teu verbo raro
Do beijo com sabor
De mares consagrados

Escuta:
Não há mistério algum
Há o segredo de te amar
E adormecer calado...

Manoel Olavo

1 de setembro de 2010

TUDO ESTÁ FEITO



Não faz sentido
A vertigem
Do poema

Tal feito
É impossível
Agora

A cornucópia de letras
Jorra
Em segredo

Um silêncio oculto
Dorme
Na sentença

Nada incorpora
Antes que lhe
Escape
Opala
Caos
Olho arregalado

A palavra vibra
Se mexe
Preci(o)sa rara

Suave demais
(O som)
A voz modula
E a palavra
Vaza

Será um Deus ex-machina?

Um silêncio oculto vem
Foge da sentença
Morre com ela
Na forma
Costumeira
De palavra

Não seja pétala
Mas teorema
Minha maneira
De obtê-la

Tudo está feito:

Ave!
Luz iridescente
Vestígio
Enlace

O poema alça voo
E lança-se nos ares

Manoel Olavo

18 de agosto de 2010

QUEM ME DIRIGE?

De onde falo
Quando estou ausente?

Quem bate à minha porta
Com tanta insistência?

Quem me dirige?
Quem me digere?

Alguma melodia
Uma frase qualquer

É melhor do que este silêncio
Fruto do escândalo

Manoel Olavo

17 de agosto de 2010

SILÊNCIO


Não há mapa. No entanto procurava
Em tudo um lar. Em tudo a lembrança
Da primeira casa.

Apolo em seu carro
Sonhava o engaste do ser, o céu de asa
Flamejante, o sol, a porta sem aldrava.

Queria união mas nada veio.
Luz excessiva na manhã.
Voo cego. Cristal partido.

Ouça-me: se existe um lar
Ele não está nas coisas.
Impossível romper esse
Véu que separa os seres.

Não é conceito
Nem condenação:
É apenas silêncio.

Manoel Olavo

10 de agosto de 2010

SONETO DO AMOR-ALÉM

Sou eu quem há vinte anos procuro
Algum vestígio seu mas não consigo
Encontrar em alguém o que persigo
De unicamente seu. Assim juro

Que lhe serei fiel e, persistente,
Seu rastro hei de seguir com todo empenho
Pois o prazer depois premia o engenho
De conquistá-la, ó minha parte ausente,

Sal do meu ser, definitivo cântico.
Sem ter você, eu menti. Imaginei
Um amor burguês, outro amor romântico,

Todos meros simulacros. Mas quem
Me traz o amor com que jamais sonhei
É apenas você, meu amor-além.


Manoel Olavo

8 de agosto de 2010

POETA

Poeta é o pouco
Que resta
Do que lemos

Poeta é perdigoto
De outras vozes
É quase outro

É pele, pétala,
Peçonha no
Osso das coisas

Poeta é poço sem
Fundo, sede de aedo

Lambendo a palavra:
Não a que sonhamos,
Mas a que dá medo.

Poeta é quem morre cedo

Manoel Olavo

5 de agosto de 2010

MÃOS E VERSOS






Nas mãos

O gesto mínimo



Adiante

O labirinto



Letras gotejando

Pelas fendas



E as mãos

Sob um céu

De versos


Manoel Olavo

31 de julho de 2010

ELA A INTOCADA

Jamais ele tocou
Mas bem conhece
O balcão das cinzas
A voragem das horas
O ouro em pó
Os fenômenos naturais desenfreados
As esculturas imóveis
O prumo que vai e volta
A poeira cobrindo os corpos petrificados

Ameias e colunas guardam a rua
Protegem os passos lentos
Dos arroubos juvenis durante a caminhada
Caem flechas parecendo gotas
A cabeça no cepo
O elmo o carrasco
No entanto
Ele se move

Por trás de tudo
O caminho
(Ritmo único)
Ubíquo signo
Que ele não imaginava
E sequer tocou
Jamais tocou
Mas bem conhece

Logo
Abaixo
Ela pende
E reverbera
Ela: a intocada

Manoel Olavo

25 de julho de 2010

PAISAGENS


São paisagens diante

Dos meus olhos

Paisagens móveis

Enquanto os sinos tocam


Paris Genebra

Meca Bogotá

Vida noturna

Num boulevard distante

E as pedras


Passam civilizações

Estátuas desossadas

O êxtase do sábio

Descobrindo a fórmula

O alfarrábio a seta

O glossário dos mitos


O lento caminhar

Por ruas de sal e vício

O sacrifício das virgens

Pilhas de corpos

Dizimados pela peste


A morte

Sempre faminta

Seu rugido surdo

A tudo sobreposto


Meu corpo frágil e nu

Estuário de maldições

Rolando entre as bestas

Que destroem monumentos



Meu corpo frágil e nu


Junto do seu

Ao arrepio da lei

E do tempo


Manoel Olavo

SILÊNCIO

 


Entrar na sala com o vento
Aprendiz do ensinamento

Ser um felino
Evitando brigas

O corpo não age
A voz se cala

Tudo ao seu redor
Se anula

Tudo alheio
No espelho transparente

Despir-se é mais
Do que se libertar

É ser fora de si
Conforme o silêncio vibra

Não importa onde te escondas:
Continuo te buscando

Manoel Olavo

24 de julho de 2010

AMORAS E GAIVOTAS


Poderia meu amor
Me livrar da morte.
Me aproximar
Da claridade.

Meu amor
Não vai passar.
Move-se.
Vai brotar em
Amoras e gaivotas.

Meu amor é sonho?
Desperto e
Sem você
Sou um lúcido nada.

Manoel Olavo

O QUE IMPORTA


De que vale o silêncio
A leveza o segredo
Se o que me importa
É ver-te?

Amada senhora
Fugidia sombra
Vênus do porão
Das letras

Hei de encontrar-te
Um dia a sós
Onde a terra acaba
E o amor começa

Manoel Olavo

22 de julho de 2010

20 de julho de 2010

ORFEU



Cansado de dormir e de acordar
Pensando-te, meu jugo e aspereza
Palpar a superfície da ferida
Colada entre a garganta e o sentimento
Criaste para mim a incerteza
Nos seios de marfim da escultura
Ornada em mil recônditos negrumes
Num verso similar ao que não trouxe
Um novo céu, um mar de fogo, a rosa
Que verso há de cantar o que perdemos?
Não pude te tocar, amor, não pude
Não pude ser nem pássaro nem pluma
Não pude ser nem sândalo nem chuva
Por que sopras assim, ó brisa ambígua?
Acostumada estás a fortaleza
A refletir a sós entre os pinheiros
A combater mastins sobre as escarpas
A ler no corredor no fim do dia
Difusas folhas brancas que tracejam
Escritas formas vagas de desejo
E modos de não-ser somente minha
Tu és embriaguez sobre meu dorso
Vinhedo em estação de sol e sombra
Cintila em mim a alma desdobrada
Um anjo há de pairar sobre a calçada
Saudade é despertar vendo-te morta
Se não fosse perder a protegida
Se não guardasse Orfeu a antiga forma
Perdíamos de vez a ave e a lira
Sonhar, mais que viver - eis o que somos

Manoel Olavo

11 de julho de 2010

AVE


Alta vai
No céu a ave.
Passa sobre mim
Por planícies de vento.

Estou só.
Meu lar e claustro
Encerra a seu modo
A lua incoerente.

Tempo, brisa,
Eternidade:
Nada disso está
Em mim ou no meu sonho.

Ou está?
Será que gira
Numa espiral
Movida de mistérios?

Ou flutua
Além de nós,
Além do último
Limite da razão?

Manoel Olavo

1 de julho de 2010

QUANDO CHEGAR A HORA



Passarei. Passará o que vier:
O dia, a face, o amor sonhado, o filho
Nada vai deter o corte da navalha
Nada vai fluir no leito deserto
Do regato, na paisagem que mata
Memórias, brotando metáforas.
Mas, porque nasci entre homens, hei
De dar espaço, arauto, à palavra
Encantada, ao corpo novo, à ode
Atada a vida – volúpia de tê-la
Quando chegar a hora e eu for nada

Manoel Olavo

29 de junho de 2010

MÉTODO


Amar o abissal
Amar o incriado

Buscar o perdido
O raro, o extinto

É um modo sutil
De deter a carne

De ficar a sós
No jardim das coisas

De tirar poesia
De dentro delas

De encontrar beleza
Onde nada havia

Manoel Olavo

24 de junho de 2010

ODALISCA

Odalisca, seus olhos pareciam tão cansados. Você não é quem eu pensava ser. Talvez nunca tenha sido. Era engano. Só tinha o peso enorme que você carregava. Tanta coisa pra dizer, tanta coisa pra mostrar, tanto cuidado com o que os outros pensavam. Tudo falso. Muita coisa aparente, mas nada por debaixo. Só fúria e silêncio.
Odalisca, você se perdeu. Ficou enterrada numa porção de coisas de que não precisava, perdida numa pilha de produtos. Sapatos demais. Tentou ser culta, jovem, glam, hype, fashion, clean, up-to-date, descolada, enfant terrible, emergente, marginal, viciada, fin-de-siècle, clubber, gata, je suis desolée, mas não, obrigado, é desespero demais, é mentira demais, essa noite não termina. Nada em você é de verdade, salvo o encanto das palavras e a imagem se movendo ávida. Pobre Odalisca, quis tanta coisa, mas se perdeu no caminho de volta. Pouco a lhe dizer. Odalisca, que fizeram com você?

Manoel Olavo

21 de junho de 2010

TEOREMA OCULTO

Acaso
Vem do céu
Uma resposta?

O corpo é meu
E a alma retorcida

A criação
Uma paródia submissa

Do limite do gozo
À herança da criatura
Faz-se a distinção
Entre o nada
E coisa nenhuma

Manoel Olavo

HORAS SUAVES


Em horas suaves
- Quantas?
Enfim a união
Entre o que foi
E o que se espera

O olhar liberto
Espalha-se em
Mil direções

A paixão morre
Mas breve
Renasce

A vida segue
Seu curso
Inapelavelmente

Há êxtase
Num largo deserto
Os mortos compõem
Sua paisagem

Ao seu redor
Silenciado o caos
Surge uma
Harmonia provisória

Na palavra
Isenta e sólida
No olhar
Que espreita
A impossível paz
Dos astros

Manoel Olavo

18 de junho de 2010

TOQUE



Um gesto de mão
Um toque bem leve

Nosso nome, a rima
Dura história de vida

Não consigo imaginar
Nada depois de você

Manoel Olavo

17 de junho de 2010

DORME AMADA


Dorme, amada
É cedo ainda
Seus olhos devem repousar

Dorme, amada
Enquanto velo
Para que não tenha medo
Para que seu corpo não encontre dor
E fique junto do meu corpo

Dorme, amada
É cedo ainda
A ternura nos embala
Um arremedo de sol
Entra pela fresta
Tudo está em nós
E brilha

Meus olhos semicerrados vêem
A luz se derramando em sua pele

Dorme amada
É cedo ainda
Antes dos dias maus
Das noites a sós, das palavras duras
Antes que as memórias sumam ou se calem

Dorme, amada
Pois zombamos
De que, um dia, algo nos desfaça

Pensos no céu
Aves azuis, nós dois
(um único ser
indiviso e ímpar)
Rodamos e seguimos juntos
Dentro da manhã que rompe a treva

Manoel Olavo

10 de junho de 2010

NOSSO SONHO JUNTO

Nosso sonho junto, permitido,
Na brisa do poema que sonhamos

Nosso sonho junto, traduzido,
No gosto deste verso que beijamos

Meu coração, pássaro encantado
Pelo vento sutil de tuas palavras

Meu coração triste, tão cansado
Sonha te amar no tempo que te afasta

Minha alma vai te encontrar
Seguindo a flor que nasce aonde andas

Minha alma, o lírio abraça o mar
Na curva de um beijo dado na varanda

Um dia os deuses vão louvar
Tua beleza inteira em verso e graça

E farão nosso sonho cantar
No tempo em que o tempo não passa


Manoel Olavo

8 de junho de 2010

A PALAVRA DE ELISA



Então, ela lhe respondeu que não o amava mais. E, como em outros momentos de sua vida, ele não sabia o que dizer. Talvez ela buscasse um triunfo surdo, um choque, usufruir da dor que nele agora eclodia. O impacto pode ser uma estratégia, ela queria desnorteá-lo. Ele ficou em silêncio, respirou. Lentamente, com passos comedidos, caminhou até a mesa e pôs água num copo. Bebeu. Eram segundos preciosos, precisava pensar antes de agir. De novo respirou. Entranhou-se em sua própria carne e desfolhou todas as camadas da sua alma em busca de uma frase, de uma palavra que servisse como resposta: a palavra para prender Elisa. Não encontrou nada. Não havia palavras, frases, fonemas, nem tolices sentimentais. Era apenas aquela mulher diante dele e sua infinita hesitação.
Tentou tornar-se sábio, prudente, cínico o bastante para sorrir, pedir perdão, gritar como um alucinado, atirar-se a seus pés, pular pela janela, enfim, fazer uma dessas coisas conforme manda o roteiro de um coração dilacerado, jorrando uma cascata de sangue e reminiscências. Conhecia tantos truques mas, naquela hora, não se lembrou de nenhum. Apenas rumorejava. Por vezes, se prometia. Naquela noite, em silêncio, se perdeu. Ela se foi e ele sequer tinha pensado em perdê-la.
Quando alguém se dá a conhecer? Primeiro, vêm os sinais: a dança ritual, aparição de indícios intrigantes; sorrir, sorrir bastante; trocar olhares, olhar fixamente; aproximar o corpo, um meio que debruçar-se sobre o outro; um tom de verdade e exaltação que percorre o rosto e a voz de quem fala; um frêmito, uma vibração difícil de descrever; um sussurro, como que dizendo: “me aceite, estou sendo o mais perto possível de mim para você”. Já tivera momentos assim, antes, mas, de fato, eles não lhe interessavam. Eram apenas um prelúdio para o verdadeiro encontro, para o que vinha depois, na cama, quando os corpos se refestelam após se amar, os rostos se aproximam, a voz se enche de ternura, o espírito promete mostrar sua definitiva intimidade e beleza. O instante em que as mãos se tocam, em que se ouve a matéria triunfante e a alma resfolegar. Nesta hora, assim despidos e capazes de delicadeza, eles eram homem e mulher enquanto a multidão desaparece e o momento se torna um calmo e morno regaço.
Olhando nos olhos de Elisa, ele lhe perguntou: “por que levamos tanto tempo para chegar até aqui?” Ela se lembra de como o ar mudava de cor e o sol dourava quando ela o via; e ele se lembra de como a visão da curva de seus lábios contra a luz do céu parecia cintilar. Declarava seu amor a ela: madressilva perdida, quanto tempo eu te esperei; mater dolorosa, nosso amor virá ao mundo entre torvelinho e brisa, dispersando as brumas da solidão. Encontro em você a medida certa para recostar minha cabeça cansada, o meu coração ferido. Vontade de entrar em você e me perder. Oxalá encontre um dia de repouso no azul de seus olhos baços.
Antes da cama, antes dos corpos se despirem, antes de qualquer coisa, tivera encontros fortuitos com Elisa, quando ainda mal a conhecia, e gostara de sua sedução envergonhada. Podia se fazer ouvir por uma mulher quase uma adolescente, e conseguia entendê-la excepcionalmente bem, apesar de nem sempre gostar do que ouvia - mas era tudo sempre muito sincero entre eles. Havia ternura e arrogância nela, feito mel e âmbar, e promessas de comunhão. Gostou dela, de seu jeito desengonçado de ser. Modos de menina. Vinte anos a menos que ele. Vestida como numa capa de revista Fashion. Um exagero. Um epítome da modernidade, bordada em cores cítricas, cabelos curtos e louros, olhos azuis e míopes, desejo louco de mostrar-se erudita e definitiva. Quase um incesto, ou um conto da carochinha: era só escolher.
Naquela noite, encontraram-se a sós e fugiram para um quarto nos fundos da festa que aquela hora quase terminava, conversaram e riram com a intimidade peculiar dos amantes que ainda não se possuíram, e quando Elisa lhe disse, após um instante de silêncio recíproco: “e agora?” – ele lhe respondeu, sem perder a deixa: “agora, nós nos beijamos e a cena escurece”. Desejo. Nesta noite, ele aprendeu o caminho até o seu quarto, no terceiro andar de um velho prédio sem elevador, perto de uma praça bucólica, meio desconhecida, atrás da Rua das Laranjeiras, onde crianças brincavam, aves zuniam, e velhos remoíam seus dias e dores em silêncio. Ela morava numa espécie de sótão, anexo à casa dos pais. Um quarto escuro e lúgubre, cheio de almofadas vermelhas, centenas de livros, discos de rock e várias bonecas e fotos da Betty Boop. Um mausoléu pop. Havia algo de transgressor naquilo, mas ele sequer desconfiava, nem saberia dizer o quê. Ela, certamente, o usufruía.
Qual é a medida do bom gozo? Era poder agarrá-la por trás, e ela pedia, e ficar olhando para sua nuca, para a linha incerta de seu curto cabelo louro, para seu corpo pálido e ossudo, que se arqueava e se contorcia, ia e voltava, para os seios pequenos, de mamilos rosados, e a curva suave de suas costas, seu olhar esgazeado, e o modo como ela arfava e gemia, e sorver o cheiro agridoce que se lhe escapava quando ela gozava, em meio a gritos de não mais poder. Qual é a medida do mistério? Era estar ali, sempre, de novo, todo dia, mesmo quando o tempo e a agenda não permitiam, inventando desculpas e pretextos, subindo as escadas como um condenado rumo ao cadafalso, por causa dela, ele tinha de voltar para encontrá-la, com seu sorriso adolescente e os olhos assustados de um profundo azul.
É dolente o som do desapego. Ela gostava de ficar perto dele. Deitava-se ao seu lado, após gozarem, pegava sua mão e passava sobre sua barriga magra, dizendo: “meu corpo é real”. Aceno. Ele podia quase auscultá-la, desvendava suas feridas e via quanto desespero havia em sua pretensão. Era mentira, tanta, que ela ia ficando mais distante à medida que ele a decifrava, a melodia da voz de Elisa se distanciava, os sons vindos da rua não mais entravam no quarto, eram refletidos feito cores decompostas por um prisma e era o silêncio decompondo as mentiras dela.
De novo, como sempre, e por hora, era tempo de acordar. Seus lábios ressecados pediam um gole d’água. Passar a mão pelos cabelos, lavar o rosto com água fria, tentar livrar-se do passado, que, àquela hora, ressurgia em imagens congeladas à sua frente, como nobres sentados em cadeiras de pinho, numa atmosfera solene de acerto de contas. Fuzilaria, acordes desafinados, verdades nunca ditas, distância, solidão, um movimento frenético de pernas e passos que iam e vinham, que murmuravam, choravam, riam, e a velha casa que ficava sempre aberta, atravessada por um largo e sujo corredor, onde passavam os personagens do filme mal decupado de sua memória.
Levantou-se e foi até a pia, lutando para despertar. As imagens da noite se dissipavam como orvalho na manhã. Voltou para a cama, onde Elisa permanecera, e viu que ela respirava com dificuldade enquanto dormia, aninhada como uma princesa que adormece após a foda. Cheiro de adolescente e desordem nos lençóis. Quente. Não resistiu, voltou para a cama, deitou-se um pouco mais junto às suas sardas, no calor do cobertor onde se enroscavam. Sua alma desprotegida se aqueceu no sono de Elisa. Numa mancha do teto embolorado, uma gota d’água insistia em se formar.
Ele a desejou muitas vezes mais. O tempo passou, mais e mais vezes com Elisa, de volta ao mausoléu, ela se mostrando mutável, única, encantadora, a murmurar tão suave e decidida, conhecimento, afagos, risos, ele enternecido, achando-a capaz de encontrar o argumento definitivo para aplacar a sua dor. Ele a possuiu, às vezes com ardor, às vezes com fastio, derreteu-se nela em dezenas de litros. Lembrou-se dela nos dias de distância. Sorveu e cheirou seu aroma, renovou o seu regaço, aprendeu seu agridoce sabor. Por fim, viu seu terno e baço olhar azul rasgar a cena noturna do quarto onde ele vazio ficava.
Um dia, ele percebeu que perdia a figura clara de Elisa. Qual era a palavra certa para prender Elisa? Desde então, ela se tornava muitas e ele a queria mais, então ele ficou sem saída dentro do labirinto. Vertigem implacável, que não podia acompanhar. As cenas eram dela, os urros eram dela, os silêncios eram maus, mas não havia palavras. “Eu a perdi”, ele pensava. “Ela está indo embora”. Qual era a palavra dela? A palavra de Elisa? A nave e os viajantes ficaram à deriva no mar dos sonhos de Elisa. Perdeu-se a chave e o rumo, a ilusão borbulhando, o tempo passando, e ele sequer sabia de onde falar com ela. Miríade de luz no espelho. Rastro. Elisa se multiplicando à sua frente, em trilhas que adornavam o infinito. Ele teve medo disso, tanto, ficou tão desatinado, que um dia se encheu de coragem, e perguntou se ela ainda o amava.

Manoel Olavo

7 de junho de 2010

PÁTRIA



Já se fez bastante
Um tipo de poema
Com cara de tese
De texto antropológico

Malefício semiótico
Que a língua não cala
Duro enclave
Na mesa dos signos

Debaixo dela um
Cão faminto gane

A pátria rejeita
A intenção de afago
Balança a pança
E despreza o processo civilizatório

Assim
Eu penso
Que as palavras escondem
Que um festim nos assola
Que não faz diferença
Que não houve catequese mas evisceração
Que até os mais espertos deviam ser iguais
Que é foda ser barroco tropical globalizado
Que um coração tresmalhado não acha rebanho
Que a mulata bossa nova caiu no hully gully
Que mélange não implica numa regra universal
Que precisa haver grandeza norma mérito castigo
Que o boi pasta montes capões vegetação rasteira
Que o mugido dele é santo obstinadamente boi
Que nos perdemos entre miséria e mistificação
Que é alegre a gente pobre ao arrepio da lei amontoada
Que o capitão do mato preto forro caça pretos fugidos
Que o índio conta histórias de missionário em perdidas Lisboas
Que dói a imperfeita geometria teatro de sombras rapina carnaval
Que o sangue jorra feito alicerce sinfonia de barbárie e civilização

Manoel Olavo

3 de junho de 2010

EMBORA

Seu rosto não é meu

Mas eu relevo. Seu

Corpo não vem

Mas pouco importa.

Embora seus olhos

Não me fitem único,

Os dias não sejam bons,

E você de fato não exista,

Nem eu possa tocar suas

Mãos sob a mesa,

Embora eu nem

Ao menos fale nisso,

Disfarce, cantarole,

Ignore sua ausência,

Embora essa gente nula,

Morna, incompetente,

Embora tudo esteja aqui

E não me baste, embora

O dia não traga a boa

Nova, que seria vê-la,

Eu respiro fundo, me calo,

Relativizo a dor e os fatos,

Pressinto a dádiva

E levo seu olhar adiante.


Manoel Olavo

1 de junho de 2010

POEMA VERMELHO



sangue da fruta vermelha

rubro canto de guerra

lábio coração amora

Carmen carmim boca de cena

dressed to kill rubi hemorragia

paixão falésia Roma extinta

na rubra cor

de carne e ira


Manoel Olavo

POEMA AZUL


Eu quero um poema azul
Azul das brumas do mar
Azul matizes do céu
Azul dos mares do sul

Azul da íris de alguns
Azul poeira estelar
Azul pincel de Monet
Dos fulgores na restinga

Eu quero um poema azul
Claro e fresco como a tinta
Da mão na caneta azul
Que escreve um azul-poema

Haverá poesia em mim
Sem passado ou influência?
Como no primeiro dia:
Azul, azul, azul, azul...?

Serei cantor das antigas
Ou um DJ com blue-tooth?
Ou o pobre trovador
Do azul que vem de você?

Manoel Olavo

POEMA BRANCO



Branco

Um

Infinito

Raio

De

Luz



Manoel Olavo

31 de maio de 2010

POEMA VERDE






VERDE:

VERDE POR COMPLETO


NA COR DE

VEGETAL E QUARTZO


VERDE: A ESMERALDA

PRENHE DE LUZ

BRILHA NO DESERTO


REFÉM DO ESPAÇO

E TEMPO, SEU ENCANTO

É PARA SEMPRE VERDE



Manoel Olavo

30 de maio de 2010

ELA SORRI SONHANDO MARES

Seu rosto contra a brisa

Doura-se ao sol

E o dia será nada.

Ventania.

Lentos madrigais.

Ao longe, uma melodia.

A sórdida manhã

Repousa nos lábios dela.

Ela sorri

Decerto sonhando mares.

O ciúme é o pior

Dos sentimentos

Mas todos comovidos

Choram.

Ainda cedo

Eles recomeçam.

Pouco irá sobrar

Para os saqueadores.


Manoel Olavo

27 de maio de 2010

CACHOEIRA




Sob um céu
Espesso e rude
Desfiz os olhos
E me lembrei
Da infância

Fiz mais:
Lembrei da
Cachoeira

Fonte do alto
Batendo o
Corpo duro
Das pedras

Azul e luz
Frio vapor
De água
Cobrindo
O sol

A coluna líquida como
Um mastro de cristal

Minha alma
Fluindo
Pelos séculos
Sob as águas

Cachoeira:
Eu quis tê-la
Mas só pude lembrá-la

Meu Deus: será que as memórias morrem?

Manoel Olavo

TALVEZ

Escuta. Deixa eu te dizer mais claramente. É verdade que te amo. Que penso em você todo o tempo. Que antes de você chegar, eu estava aflito, o mundo exibia o medo irreal dos pesadelos, daqueles em que a gente não consegue acordar, porque você não vinha. Você me vê como um farol ao longe, a luz que vem do teu olhar não me revela, me reúne. Mas talvez não seja isso. Talvez você não tenha vindo. Talvez eu te fantasie, te invente, e você pareça ser assim só nos meus sonhos. Eu te procurava e, por não te achar, acabei te inventando. Eu posso agir assim, sou um amador na rota dos amores. Talvez você seja banal, ressentida, igual às outras, mas eu não vejo assim, ah, meu amor, não me deixe ver assim, eu não posso, não quero ver o que meus medos insinuam, prefiro me atirar sobre teu corpo e mergulhar no mar azul e colossal que cerca nossos sonhos.

Manoel Olavo

9 de maio de 2010

POEIRA E ESFINGES

Por ora fica adiada a primavera
Fica suspenso o espetáculo

Não colherá jamais
Indestrutível rosa

Não suportará tanta
Balbúrdia e lágrimas

Que espera você das coisas
Se elas desmancham ao toque das mãos?

Se elas pendem indiferentes
E se quebram como vidro?

É preciso agir de outro jeito
Pensar numa nova ordem

A natureza tece tramas desiguais
E seus olhos vêem cores primárias

A mão do mal pousa do seu lado
Mas você nem ao menos percebe

Como um ser tão imperfeitamente formado
Deseja flutuar por nuvens à deriva?

Ah vida, que aqui desemboca
A sua dor entre coortes

Ah paz, caminho que deságua
A sua febre sem remorso

Seu mapa de ruínas
Seu juízo torto de atos cometidos

Ah você, que só vê
Poeira e esfinges

Qualquer instante de luz
Será inútil e indecifrável

Lúcifer disfarça
Ser o preferido de Deus


Manoel Olavo

A POESIA VEM



O desejo de amar em nós se esconde
E assume outras formas: fome, ódio,
Males, vícios, vontade de voar
Ou de ser ave. Dirá você:
A vida é breve e nada sabemos
Dos mistérios da alma, da natureza corporal
(a matéria tensa existe algum tempo
em alternância de sono e de vigília).
De nós irão restar palavras e edifícios
Pois tudo se desfaz, se reparte e morre,
Na escala infinita da qual você faz parte.
A poesia vem, no fim das contas,
Buscar azuis nas noites sem saída.

Manoel Olavo

A LINDA MULHER

A linda mulher
Percorre a aléia
Crivada de pedras

Em seu olhar
Ofício de lava
Fastio sensual

A mais bela
Figura viva
Ri-se ao voar

Não me iluda
Ó tela de sombras
É hora de acabar

De buscar aquela
Que ainda dança quando
Todos vão sonhar

Arranchada na aldeia
Cercada de árvores
A morte vencerá

Nada dirá
Despida e muda
Num mar de luz gelada

Magia de avistar
E beijar o selo de
Cetim em sua nuca

Manoel Olavo

2 de maio de 2010

JANELA DO AR




Janela do ar
Recinto fechado

O dia é a tela
Seu retrato é luz

Matriz que floresce
No chão sideral

Vinda de outro céu
Além do visível

Mantém-se um minuto
Claridade em mim

Sou fruto do sonho
De uma vida alheia

De um sopro distante
No escuro da noite

Aguardo o desfecho
Entre o sol e o caos


Manoel Olavo

29 de abril de 2010

HOJE MENOR DO QUE ANTES

Eu te vi partir e acho que era tarde.
Esse tormento contido, essa secura
Esse sorriso falso e desviante
Essa falta de escrúpulos morais.

Nova luta entre razão e desejo.
É preciso encarar, depois perdê-la.
A torneira goteja, sua face
Escorre nos canos do apartamento.

Será todo esse horror libertação?
Penso: por que fomos feitos assim?
Por que desse jeito? Esse desespero,
Esse afã, esse dom de habitar sonhos?

Corpo, alma, luz, sombra e a sensação
De estar dentro de mim à revelia,
Como um pássaro preso na armadilha,
Como um felino que perdeu as garras.

Louco de amor, prisioneiro da lógica
Atado a um mapa de repetições
Não sei porquê insisto em me mostrar:
Estou aqui, hoje menor do que antes.

Manoel Olavo

27 de abril de 2010

SONHO

Surreal, subtraída
A mente
Erra

Matéria flébil
Volúpia
Alada

O sonho conduz
Teu ser na
Brisa

Ao porto além
Do sonhador que
Vaga

Manoel Olavo

24 de abril de 2010

TEU OLHAR



Como ter-te? Se prender-te
Impedir teu vôo livre
É ferir-te e não amar-te?
És como vento: tu partes.

Na verdade, acho que danças.
Solta no ar, bailarina
Vais por aqui, por ali
Entre o mar e o espelho d´água.

Não prender teu riso claro
Nem roubar teu sonho leve.
Deixar-te ir simplesmente.
Teu rosto está sempre adiante.

Chegas intensa e irreal
Como uma ninfa, uma ave.
Borboleta no ar, que
Sobrevoa, pousa e parte.

Nua em pelo, tu és linda
Como uma gazela dourada.
A um só tempo, cavaleira
E montaria. Tu és livre.

Teu olhar: um verde mar
Faiscando azuis e cinzas.
Teu olhar meio de lado.
Teu olhar, eternamente.

Manoel Olavo

23 de abril de 2010

POESIA



Espalha no papel
A angústia originária.
Constrói um mar de frases
Um arroio, uma tela
Onde a letra cintila
Em fogo brando até
O pensamento achar.
Poesia deve vir
Como libertação:
Verbo denso, maneira
De sonhar, de parar
O tempo e o deus da morte.
Poesia que escrevi
Imaginariamente
Sem culto ou irrisão.
Há mais na vastidão
Do que podes mostrar.

Manoel Olavo

20 de abril de 2010

UTI POSSIDETIS


Nós dois
Seremos mar
Além das gôndolas

Nadamos por vergéis
Baías claras e marés-cheias

Risco no céu
Mar que rodopia
Dois corcéis n´água

Um toque a
Sua pele reluz

Olhar que destila
Incrédulas sereias

Emoção de náufrago
Diante do oceano

O amor à solta

Nós dois
Cobertos de mar
Engolfando espumas

O penhasco
Derruba corais
No fundo transparente

Nós dois
Seremos mar
Além das gôndolas

Manoel Olavo

ASSIM É SE LHE PARECE

De uma peça de L. Pirandello

Não, as coisas não são
Como parecem ser
Não vale a palavra impressa
Nem a imagem em movimento
Não vale a exibição pública
Nem o ato de protesto
Até o corpo, a mais íntima
Matéria, torna-se falso
O que vem logo se perde
O que fica cedo parte
O que se tem não denota
Tudo é farsa à nossa volta
É preciso manter
Cada um na sua concha
Deve-se estar vazio
Atrás de um sentido
O gesto de amor
O nicho de paz
Nada disso conta
Nada disso importa
Nada é como aparenta
Assim é se lhe parece

Manoel Olavo

ANATOMIA

Eu era um
Você o outro
Do contrário amor
Que não nos quis

Dois beijos loucos
O gosto grená
Da sua greta
Foi só

Há casos assim
Meu pior
Pelo avesso

Duas almas más
Os destroços
Das nossas vidas

Você selenita
Sem nome nem paz
Somente imaginada

Eu marciano
Sem hora pra dormir
Nem maturidade

Juntos fizemos
A anatomia
Da nossa danação

Manoel Olavo

17 de abril de 2010

SAUDADE

Saudade? De quê?
De alguém, de um dia?
Da emoção, palavra?
Da plenitude
Nunca obtida?

Saudade? De quê?
E o que fazer contigo?
Menino nu
De olhar aflito
No espelho em
Que me parto?

O mar é um
E nele flutuamos

Você a sós
Múltiplo finito
Denso vestido de luz
Bem-vindo à sua pele

Saiba que existe
Um mar lá fora
A água lambe
A areia os seixos
As rocas

O atol das aves
O último mistério

Saudade? De quê?
De mim? De ti?
De ser?

Do que virá
e havia?

Manoel Olavo

GAIVOTAS SOBRE O MAR



Os passos vão e vem como gaivotas sobre o mar
A vida passa devagar enquanto a memória vaga.

A mais pura das emoções: amar-te – que foi feito dela?
Que fizemos nós com a ternura que agora é desencanto?

Por onde fomos quando havia abundante luz e o dia era claro?
Não se trata de chorar, contar os erros, é a natureza finita das
                                                                                   [coisas.

As emoções no momento certo, a vida que dispensa imitações
O ritmo dos fatos, corpos e sonhos como gaivotas sobre o mar.

A ferida aberta, a dor de estar aqui e de te amar um dia
Estará em nós como um jardim de cinzas: o baile não pára.

Sequioso de espaço e tempo, eu parto em busca da aurora
De um novo amor, que seja a sombra de uma árvore num deserto
                                                                   [seco e impressentido

Manoel Olavo

4 de abril de 2010

SE TE SIGO

Se te sigo
(Isso eu faço
Há muito tempo)
É a mim que dispo
E defronto

Se te aguardo
É a mim
Que sigo
Enquanto sonho
Te despir

Sou quem anseia
Assim eu te vi
Perto de mim
Quando de longe
Te seguia

Manoel Olavo

TARDE DEMAIS



I

Tarde demais
Eu lhe disse
a verdade:
Não te amo
Não te quero mais!

Vou partir em meio à multidão
desconsolada
Na estreita e vaga luz que me constrange os órgãos

E pedirei reforços
Queimarei meus pés em betume e versos brancos
O prédio
O mar azul
Seu sorriso nunca antes adiado

Eu fatiarei as nuvens
Fritarei em óleo
a sua carne tenra

Convidarei velhos amigos
O olho estreito a rua lotada
A multidão à nossa volta
Gente revirando os restos

A face noturna do real
Sempre pedindo mais


II


Ainda penso em você
No calor dessa calçada antiga

O dia passa
Vem o ocaso do desejo
Traz mais uma vez
Memórias sem notícia

A noite vela
O corpo dela tão inocente
Um vidro fumê na alma
Os segredos
Em momentânea suspensão

Ah eu poderia ver
Como se fosse
Uma primeira vez
O que me importa

Poderia ver
Em lâminas
O acontecido
A hora impossível
O eclipse

Tão logo o sinal
De novo se fechasse
A multidão
Se detivesse

Tão logo a lua
Brilhando cores indistintas
Acelerasse a melodia
A trilha fugaz onde caminho

Tão logo despertasse
A besta-fera
Que há em nós


III


Vestígios:
Agora tudo deu errado
Agora
Inês é morta

A manhã segue como um féretro

Eu me calo
À beira da calçada antiga

Tento achar
a solução do enigma
a resposta

Tarde demais
Ela me deixa

O verbo encarnado
A face sem contorno
Assim como veio
Parte

IV

Entreaberto o peito
Restam as lágrimas
E outros fluidos corporais

Súbita estiagem
Na alma em chamas

Breve virá o construtor

V

Liberto das coisas
de sua constante antevisão
Desço ao fundo
de mim
e me recordo

Da medida avessa e crua
Porém minha

Do pintor das ruas
Do eleito dos ares
O bravo lutador

Um romance cheio de alegorias

Desço ao fundo de mim
me contemplo
me revejo ali
ao largo

Há pele suor corpo pêlos
Escotilhas que se fecham

Há uma medida avessa e crua
meio perdida
Porém minha

Nascida de turbulentas fundações
Matéria agridoce
Delírio verbal e agonia

Sei disso como sei dos
Passos duma pequena teodicéia
Que tece novo acordo
E segue à beira do infinito

Manoel Olavo

2 de abril de 2010

LARANJAIS

Peço licença para sentar do seu lado
E a cabeça reclinar suavemente
(O sonho está comigo, eu o carrego)
Meus olhos já viram morrer flor e Império
Meus olhos doem de dor e júbilo
Vêem cores cativantes, que partem...
Peço licença para lhe falar um pouco
Quem sabe ousar um canto, um tímido relato;
Eu quis andar a sós em nuvens de sono
E a argila do tempo veio e fez-se pedra.
Fez-se pedra viril, inconteste – e todos os amores
Vãos, os segredos inconfessáveis, todos eles...
Todos os enganos, os beijos negados...
As horas de adeus nunca previstas...
A ingratidão, o biscoito de polvilho
Sua alma, seu jardim, a inocência do pássaro
Os dias em que eu brincava de caubói
Os risos de manhã, os cabelos de franja
O gosto de jabuticaba, os seixos...
O rio, ah, o rio: engenho e artefato de tantas horas...
Muita coisa para lhe contar mas o dia já chega
Tudo está aqui, nosso coração secreto, uma paliçada
No entanto o tempo volta e nos carrega
E eu desabo hoje do seu lado, alheio
E vem este silêncio sobre laranjais ocultos.

Manoel Olavo

29 de março de 2010

OLHOS VERDES




Qual será o verde de seus olhos
Que eu conheci à luz noturna?
Faísca, cintilação do mar,
Esmeralda, palma, turmalina?

Não pensei tão cedo encontrar
Esse brilho solar, cor de limão,
Luz costeira, farol preciso, olho
De gato, íris ou gema preciosa?

As palavras que eu digo
Perdem-se em sua beleza.
Bóiam, brilham, renovadas.
São centelhas sobre a mesa:
Verdes certezas, como a de seu olhar
[aqui.

Manoel Olavo

POEMA DO RAIO DE LUZ

Um poema Feito de feixes De raio de luz No vidro encantado Única Maneira de ver A paixão silenciosa Atrás do segredo dela Pele Pe...