29 de março de 2010

OLHOS VERDES




Qual será o verde de seus olhos
Que eu conheci à luz noturna?
Faísca, cintilação do mar,
Esmeralda, palma, turmalina?

Não pensei tão cedo encontrar
Esse brilho solar, cor de limão,
Luz costeira, farol preciso, olho
De gato, íris ou gema preciosa?

As palavras que eu digo
Perdem-se em sua beleza.
Bóiam, brilham, renovadas.
São centelhas sobre a mesa:
Verdes certezas, como a de seu olhar
[aqui.

Manoel Olavo

28 de março de 2010

RIO DE JANEIRO




Migalhas de sol
Caem na zona sul

Emaranhado
De prédios e favelas

O dorso do morro
É negro, negro

A onda do mar
É miséria rala

Acima de nós
O ruído surdo

Essa gente é má
Ou desesperada?

Manoel Olavo

25 de março de 2010

PANDORA






Bastou ela chegar
Para ser minha
Suave murmurar
De rios e águas

Sua maciez
Líquida e morna
Vai tragar
A minha alma
Enlevá-la
Arrebatá-la

Na noite desmedida
Entre sombras
Me desfaço

Minha alma irá
Fluir no leito nu
Descer encostas
Encher vales
Fazer brotar um continente
Onde nada havia

Avistá-la
Ó fonte minha
Será também perdê-la

Jorro de
Pérolas aos mortais
Migalhas dum banquete
Sagrado
Manhã cálice portal
Caixa de Pandora

Eu feito água
Ela feito musa
A roer os ossos
Dissolver a carne
E chorar a lenta lágrima

Manoel Olavo

23 de março de 2010

REVELAÇÃO

Então, ele se recostou na montanha
Chorou os filhos que não nasceram
As sementes que não germinaram
As páginas e páginas escritas
Na linguagem maldita dos afetos
No ajuste de letras e palavras
Reunidas como sinais de mágoa.

Então, ele aceitou a longa espera
Se ambientou por entre os mortos
Umedeceu os lábios de pavor e sede
E se viu bailar aos rodopios nas
Entranhas consagradas ao último dia
Enquanto insetos e o luzir de astros
Tingiam de prata o arco celestial.

Então, como lhe restasse alguma sorte
Fingiu-se distraído e, de um só golpe,
Capturou as vozes que espreitavam o incerto
Que invocavam sonhos, manipulavam corpos
Ensinando um jeito novo de domar as trevas.
Longe demais, sem ele, a canção do tempo
Não se fez calada, nem expressa: apenas ruiu.

Então, num lampejo ele se pôs de rastros
Mero estilhaço das visões alheias
Longe das paixões e cismas de sua aldeia
Sem saber por que tanta aflição havia
Nos que lá moravam: os dóceis, os que não
Sabem entender, nem entram na neblina
Onde ruge indômita a desordem
Colossal do Reinado de Mercúrio.

Então, um silêncio hierático caiu sobre
Os passantes, sobre a humanidade inteira.
Ele viu, claro demais, as palavras
Soarem densas, o tempo escorrendo
Por suas mãos, os dedos trêmulos
E longos tocarem a maciez das horas
O recesso das coisas, a tessitura do universo
O olho, o centro, o âmago do Mistério.

Então, se fez profunda a dor em seu olhar
Que antes era terno. E o silêncio das
Horas perguntou de onde lhe vinha
Tanto desalento, tanta perdida sonoridade
Tanto desprezo pelas coisas do homem
E da vida que, indiferente a este fato,
Jorrava farta e se alastrava na agonia
Dos sobreviventes da felicidade.

E isto foi tudo:
Era só um frágil passageiro
De um tempo em que pareceu
Haver sinais...


Manoel Olavo

22 de março de 2010

SEDE



Sede, sede: oculto mar
Na superfície das coisas.
Há um turbilhão de mundos
Dentro do mundo que vemos.
Eu vejo o mar. Seu tapete
Verde e luminoso leva
As naus além do horizonte
Atrás de uma ilha ou amor
Que possa haurir a minha sede.

Manoel Olavo

20 de março de 2010

NA RUA

Seus olhos, lentamente, revolviam o cenário da rua. Viam árvores, vitrines, calçadas sujas, prédios baixos, prédios maiores com fachada de acrílico, um mar de guarda-chuvas e gente afobada. As luzes dos letreiros piscavam. Caía uma chuva fina, contínua e grudenta. A névoa desbotada tornava sombrio um ambiente que normalmente brilharia sob luzes tropicais.

O trânsito na rua se arrastava lento, ao contrário da calçada, onde a multidão causava uma frenética movimentação. Seus olhos, fixados na cena, pouco podiam fazer. Apenas lhes cabia olhar o mundo fervilhando à sua frente. Mães levando crianças pela mão. Casais abraçados. Mulheres com sacolas de compras. Mendigos. Sonâmbulos. Homens de terno. Um mímico fazendo um número na esquina, pintado com sei lá qual poeira branca, ante a indiferença apressada dos passantes.

Seus olhos, condenados a ver, faziam-no seguir pensando. Talvez ele fizesse parte dessa cena, como figurante. Talvez fosse tarde demais. O som de carros e ônibus passando, os passos chapinhando na camada de água sobre a calçada, levavam a outra constatação: ele não pertencia àquele lugar. Nunca fizera parte dele. Viera parar ali por engano. Como um peso. Um erro de cálculo.

Estando ele assim à margem do lugar, descolado do murmúrio e do pensamento daquela gente, somente lhe restava vagar entre pedaços de sonhos derretidos, entre amores inconclusos, abandonados na porta dos prédios. Entre gritos ouvidos de madrugada, quando não sabemos se dormimos ou estamos acordados. Entre tiros vindos da esquina. Ente bandeiras, multidões imensas, design arrojado, janelas fechadas, poeira e sombras.

Seus olhos ainda tentam resistir. Imaginam respostas. Bóiam divididos entre o tempo e a espera. Buscam encontrar o coração das coisas, alguma densidade, antes que tudo vire alimento para os vermes. Seus olhos, que não são dali, observam, inspecionam. Seguem sem paz pela rua úmida, onde vêem os restos de uma civilização à venda.


Manoel Olavo

SONETO DE AMOR

Se a chama da paixão queimando o peito
É um fogo que destrói alguns amantes
O que dizer do amor que não tem jeito
- Destino de um casal vindo de antes?

Pois se porventura o amor é expressão
De um desejo ancestral de estarmos juntos
Não desejaremos ter a solução
Do enigma que ainda vencerá a muitos.

Ama-me, então, em paz - e isto seja tudo!
Não há bem maior do que fazê-lo às claras.
Teu corpo despir e explorá-lo mudo

É remeter pro além mensagens raras
Dizendo que este par em nosso leito
Sabe que o amor é gesto, é mito, é feito.

Manoel Olavo

13 de março de 2010

ENTRE AGORA, AMIGO

Entre agora
Amigo
A primeira você abandonou
A segunda o traiu
A terceira aquele tiroteio
A quarta, francamente
A quinta um pacto de morte
E lá se foi você
Aos pedaços
Aos frangalhos
Aos milhares

De noite cintilavam
Pirilampos
E você estava só

Sob um signo luminoso
Você cruzou a estrada
Trilhou a planície
Que já não temia mais
- As flechas dardejando sobre sua cabeça -
Trêmulo você se resignava
Empilhava camadas de sol
À meia-luz de uma aurora
Antecipada

Havia sonho
Amigo
Mas era pouco

Pro senso comum
Isso um dia passa

Manoel Olavo

9 de março de 2010

MUSA

Estás em mim
como cristal na rocha
Como a eternidade num único dia

Eu te chamei
de musa
tua boca se entreabre
bela
sonho
com o toque
Do teu beijo


Manoel Olavo

5 de março de 2010

A PALAVRA DE ELISA

Então, ela lhe respondeu que não mais o amava. E, como em outros momentos de sua vida, ele não sabia o que dizer. Talvez ela buscasse um triunfo surdo, um choque, usufruir da dor que nele agora eclodia. O impacto pode ser uma estratégia, ela queria desnorteá-lo. Ele ficou em silêncio, respirou. Lentamente, com passos comedidos, caminhou até a mesa e pôs água num copo. Bebeu. Eram segundos preciosos, precisava pensar antes de agir. De novo respirou. Entranhou-se em sua própria carne e desfolhou todas as camadas da sua alma, em busca de uma frase, de uma palavra, que servisse como resposta: a palavra para prender Elisa. Não encontrou nada. Não havia palavras, frases, fonemas, nem tolices sentimentais. Era apenas aquela mulher diante dele e sua infinita hesitação.
Tentou tornar-se sábio, prudente, suficientemente cínico para sorrir, pedir perdão, gritar como um alucinado, atirar-se a seus pés, pular pela janela, enfim, fazer uma dessas coisas conforme manda o roteiro de um coração dilacerado, jorrando uma cascata de sangue e reminiscências. Conhecia tantos truques, mas, naquela hora, não se lembrou de nenhum. Apenas rumorejava. Por vezes, se prometia. Naquela noite, em silêncio, se perdeu. Ela se foi, e ele sequer tinha pensado em perdê-la.
Quando alguém se dá a conhecer? Primeiro, vêm os sinais: a dança ritual, aparição de indícios intrigantes; sorrir, sorrir bastante; trocar olhares, olhar fixamente; aproximar o corpo, um meio que debruçar-se sobre o outro; um tom de verdade e exaltação que percorre o rosto e a voz de quem fala; um frêmito, uma vibração difícil de descrever; um sussurro, como que dizendo: “me aceite, estou sendo o mais perto possível de mim para você”. Já tivera momentos assim, antes, mas, de fato, eles não lhe interessavam. Eram apenas um prelúdio para o verdadeiro encontro, para o que vinha depois, na cama, quando os corpos se refestelam após se amar, os rostos se aproximam, a voz se enche de ternura, e espírito promete mostrar sua definitiva intimidade e beleza. O instante em que as mãos se tocam, em que se ouve a matéria triunfante e a alma resfolegar. Nesta hora, assim despidos e capazes de delicadeza, eles eram homem e mulher enquanto a multidão desaparece e o momento se torna um calmo e morno regaço.
Olhando nos olhos de Elisa, ele lhe perguntou: “por que levamos tanto tempo para chegar até aqui?” Ela se lembra de como o ar mudava de cor, e o sol dourava, quando ela o via; e ele se lembra de como a visão da curva de seus lábios contra a luz do céu parecia cintilar. Declarava seu amor a ela: madressilva perdida, quanto tempo eu te esperei; mater dolorosa, nosso amor virá ao mundo entre torvelinho e brisa, dispersando as brumas da solidão. Encontro em você a medida certa para recostar minha cabeça cansada, e meu coração ferido. Vontade de entrar em você e me perder. Oxalá encontre um dia de repouso no azul de seus olhos baços.
Antes da cama, antes dos corpos se despirem, antes de qualquer coisa, tivera encontros fortuitos com Elisa, quando ainda mal a conhecia, e gostara de sua sedução envergonhada. Podia se fazer ouvir por uma mulher quase uma adolescente, e conseguia entendê-la excepcionalmente bem, apesar de nem sempre gostar do que ouvia - mas era tudo sempre muito sincero entre eles. Havia ternura e arrogância nela, feito mel e âmbar, e promessas de comunhão. Gostou dela, de seu jeito desengonçado de ser. Modos de menina. Vinte anos a menos que ele. Vestida como numa capa de revista Fashion. Um exagero. Um epítome da modernidade, bordada em cores cítricas, cabelos curtos e louros, olhos azuis e míopes, desejo louco de mostrar-se erudita e definitiva. Quase um incesto, ou um conto da carochinha: era só escolher.
Naquela noite, encontraram-se a sós, e fugiram para um quarto nos fundos da festa que aquela hora quase terminava, conversaram e riram com a intimidade peculiar dos amantes que ainda não se possuíram, e quando Elisa lhe disse, após um instante de silêncio recíproco: “e agora?” – ele lhe respondeu, sem perder a deixa: “agora, nós nos beijamos, e a cena escurece”. Desejo. Nesta noite, ele aprendeu o caminho até o seu quarto, no terceiro andar de um velho prédio sem elevador, perto de uma praça bucólica, meio desconhecida, atrás da Rua das Laranjeiras, onde crianças brincavam, aves zuniam, e velhos remoíam seus dias e dores em silêncio. Ela morava numa espécie de sótão, anexo à casa dos seus pais. Um quarto escuro e lúgubre, cheio de almofadas vermelhas, centenas de livros, discos de rock e várias bonecas e fotos da Betty Boop. Um mausoléu pop. Havia algo de transgressor naquilo, mas ele sequer desconfiava, nem saberia dizer o quê. Ela, certamente, o usufruía.
Qual é a medida do bom gozo? Era poder agarrá-la por trás, e ela o pedia, e ficar olhando para sua nuca, para a linha incerta de seu curto cabelo louro, para seu corpo pálido e ossudo, que se arqueava e se contorcia, ia e voltava, para os seios pequenos, de mamilos rosados, e a curva suave de suas costas, seu olhar esgazeado, e o modo como ela arfava e gemia, e sorver o cheiro agridoce que se lhe escapava quando ela gozava, em meio a gritos de não mais poder. Qual é a medida do mistério? Era estar ali, sempre, de novo, todo dia, mesmo quando o tempo e a agenda não permitiam, inventando desculpas e pretextos, subindo as escadas como um condenado rumo ao cadafalso, por ela, ele tinha de voltar, para encontrá-la, com seu sorriso adolescente e os olhos assustados de um profundo azul.
É dolente o som do desapego. Ela gostava de ficar perto dele. Deitava-se ao seu lado, após gozarem ambos, pegava sua mão e passava sobre sua barriga magra, dizendo: “meu corpo é real”. Aceno. Ele podia quase auscultá-la, desvendava suas feridas, e via quanto desespero havia em sua pretensão. Era mentira, tanta, que ela ia ficando mais distante à medida que ele a decifrava, a melodia da voz de Elisa se distanciava, os sons vindos da rua não mais entravam no quarto, eram refletidos feito cores decompostas por um prisma, e era o silêncio decompondo as mentiras dela.
De novo, como sempre, e por hora, era tempo de acordar. Seus lábios ressecados pediam um gole d’água. Passar a mão pelos cabelos, lavar o rosto com água fria, e tentar livrar-se do passado, que, aquela hora, ressurgia em imagens congeladas à sua frente, como nobres sentados em cadeiras de pinho, numa atmosfera solene de acerto de contas. Fuzilaria, acordes desafinados, verdades nunca ditas, distância, solidão, um movimento frenético de pernas e passos que iam e vinham, que murmuravam, choravam e riam, e a velha casa que ficava sempre aberta, atravessada por um largo e sujo corredor, onde passavam os personagens do filme mal decupado de sua memória.
Levantou-se e foi até a pia, lutando para despertar. As imagens da noite se dissipavam como orvalho na manhã. Rocio. Voltou para a cama, onde Elisa permanecera, e viu que ela respirava com dificuldade enquanto dormia, aninhada como uma princesa que adormece após a foda. Cheiro de adolescente e desordem nos lençóis. Quente. Não resistiu, voltou para a cama, deitou-se um pouco mais junto às suas sardas, no calor do cobertor onde se enroscavam. Sua alma desprotegida se aqueceu no sono de Elisa. Numa mancha do teto embolorado, uma gota d’água insistia em se formar.
Ele a desejou muitas vezes mais. O tempo passou, mais e mais vezes com Elisa, de volta ao mausoléu, ela se mostrando mutável, única, encantadora, a murmurar, tão suave e decidida, conhecimento e afago, e risos, ele enternecido, achando-a capaz de encontrar o argumento definitivo para aplacar a sua dor. Ele a possuiu, às vezes com ardor, às vezes com fastio, derreteu-se nela em dezenas de litros. Lembrou-se dela nos dias de distância. Sorveu e cheirou seu aroma, renovou o seu regaço, aprendeu seu agridoce sabor. Por fim, viu seu terno e baço olhar azul rasgar a cena noturna do quarto onde ele vazio ficava.
Um dia, ele percebeu que perdia a figura clara de Elisa. Qual era a palavra certa para prender Elisa? Desde então, ela se tornava muitas, e ele a queria mais, então ele ficou sem saída dentro do labirinto. Vertigem implacável, que não podia acompanhar. Pedaços. As cenas eram dela, os urros eram dela, os silêncios eram maus, mas não havia palavras. “Eu a perdi”, ele pensava. “Ela está indo embora”. Qual era a palavra dela? A palavra de Elisa? A nave e os viajantes ficaram à deriva, no mar dos sonhos de Elisa. Perdeu-se a chave e o rumo, a ilusão borbulhando, o tempo passando, e ele sem sequer saber de onde falar com ela. Miríade de luz no espelho. Rastro. Elisa se multiplicando à sua frente, em trilhas que adornavam o infinito. Elisa a não mais poder. Ele teve medo disso, tanto, ficou tão desatinado, que um dia se encheu de coragem, e perguntou se ela ainda o amava.

Manoel Olavo

MARAVILHAS

Antes de morrer Rejuvenesça! Inato, ligeiro Seja sempre seu O primeiro sonho O último grito O imprevisto fato. A capa de cristal Par...