16 de dezembro de 2012

A VIDA INTEIRA




                                  “Omnes feriunt. Ultima necat”.


A vida inteira
Cercado pela morte
Ofuscado eu via

Águas águas
Aves mortas
Sinais esparsos

A vida inteira
Cercado pela morte
Eu evitei
Tamanha altura

Amar-te e morrer
É o que importa
Poder olhar-te

São anjos?
Legiões?

Não. São pássaros
Batendo as asas
No último suspiro


Manoel Olavo

14 de dezembro de 2012

NO DESESPERO


No desespero
Não sei se ouso
Não sei se uso
Não sei se sonho

No desespero
Não sei se tento
Não sei se dentro
Não sei se fora

No desespero
Não sei se rondo
Não sei se rumo
Não sei se bossa

No desespero
Não sei se espelho
Não sei se inteiro
Não sei se agora


Manoel Olavo

25 de novembro de 2012

PROJETO



Cercado de brasas e sombras
Livro-me de ti; hei de viver
Sem tua inédita presença

Cansado, eu volto ao bar
Ao exercício das palavras
Ao mar azul em que afundo

É preciso encontrar a vida
Fruí-la, vivê-la de verdade  
(Isto é, o pouco que me resta)


Manoel Olavo

22 de novembro de 2012

NUM ÚNICO PONTO



E todas as coisas se condensaram
Num único ponto. Ali estava a vida
Inteira, resumida, pormenorizada.
O tempo se desfazia, como grama  
Ceifada pela lâmina duma adaga.  

Acabou o esforço inútil de buscar
A identidade, a explicação,
A parte no todo, o antes e o depois.
Domada, a necessidade desaparecia,
Sem lembrar do que detém e traga.

As coisas, brilhantes, condensadas,
Pouco a pouco partiam e seu peso
Era leve. Seu fluxo inútil terminava.
Longe delas, preso à sua malha,
Vislumbrei a linha do horizonte. 

Livre, tomado de luz, eu caminhei
O mais silenciosamente que pude.
Não compreendi o que podia ver.
O que chegava à minha pupila
Era o reflexo anterior de tudo.


Manoel Olavo

6 de novembro de 2012

NÃO SE MATE


I

Espere, não quero
Que você se mate

É preciso estar
Entre os viventes

Talvez devesse
Ficar em casa
                                                                                                        
Longe do laço 
Mortal dos afetos

Expandindo
O seu silêncio

Parece pouco, eu sei
(A eternidade que consola)

Um flanco aberto
Na cadeia de contrários

Lá, mais uma vez,
Irão brotar as ânsias

II

O amor vem
Em meadas

Convoca e,
Depois, esmaga

Talvez viva de
Histórias desfeitas

III

Pouco a pouco
Voltará ao mundo

Sublunar, coberto
De escombros

Pouco a pouco
Voltará ao mundo

Feito para resistir
Ou ficar à margem

Questão de tempo
E de vocação caseira

IV

Há uma fome
          (em mim)
E ela prenuncia

Outra forma:
O fora da lei

A fagulha no
Raso do rio

O gozo antes
Do último grito

O vazio antes
De qualquer origem

V

Espere, não se mate
Faz sol em seu poema


Manoel Olavo

4 de novembro de 2012

AMORAS E GAIVOTAS


Poderia meu amor
Me livrar da morte.
Me aproximar
Da claridade.

Meu amor
Não vai passar.
Move-se.
Vai brotar em
Amoras e gaivotas.

Meu amor é sonho?
Desperto e
Sem você
Sou um lúcido nada.


Manoel Olavo

2 de novembro de 2012

MONTANHA E MAR


Faz tempo
Eu vi o mar
Era da cor
Da sua poesia

Quis nela desaguar
Como a montanha
Encontra o mar
No abraço líquido
Das rochas

Como um verso
Riscado no ar
No dorso da
Melodia

Juntos, os dois,
Montanha e mar
Elementos desiguais
Enfim pacificados


Manoel Olavo

O AMOR EM MEIA-TINTA


Ele tentou
(a paixão quase o cegava)
Aproximar-se dela
E de seus gentis meneios
Ela que era linda
E tão delicadamente ouvia

Apaixonado estava
Cortês e imprudente
Ele agiu
Deixou-se levar
Por louca flama
E logo a conquistou

Fez-se conhecer
Sem nenhum rodeio
E lhe propôs viverem juntos
Na eternidade
E mais:
Jurou poupá-la
Da ambição maldade tédio
Torná-la infensa
Aos interesses banais
Que movem
Homens e vidas

Mas a paixão se foi
Perdeu-se
No apuro dos fatos:
(Aragem decomposta,
Enlevo ou fábula?)

Seguiu cansado e só
No rumo da corrente que não
                                  [conhecia
O amor em meia-tinta:
Engano sutil
De flores despetaladas
Cobrindo a calçada deserta
Que ficou para trás
E passa

Manoel Olavo

16 de outubro de 2012

HOUVE AMOR


Houve amor, ela não quis
Sou eu que admito a derrota
Amar é isso, a mais alta resignação
A um dia como este, segue-se a noite

Fale-me de amor
Refém do vazio
Retrato, antevéspera duma execução
Fujo de hipóteses ou parcelas de culpa
Eu a vejo nua, óbulo sedento
- A memória engana –
Virá um crepúsculo carmim cobrindo tudo
E a escuridão
É só o que sabemos

Vida, vida
Eu te quero inteira
Teu lugar é aqui, não nas alturas
Ouve o silêncio dos presságios
Buscando amor na cena de outra vida

Manoel Olavo

15 de outubro de 2012

POR ORA


Por ora

Eu silencio
     
           E passo

Amor?

É só pra vender anúncio


Manoel Olavo

14 de outubro de 2012

ENTRELAÇADOS




Milhões de cintilações noturnas levam embora o que ele ia lhe dizer. Ela entende, sacode os cabelos negros. De novo, ele se esquece. Paira no ar a doce sombra herdada, o repouso, a trégua entre os lençóis. Na memória do tempo, eles virão entrelaçados.

Manoel Olavo

13 de outubro de 2012

NEM TUDO


Nem tudo é aparente
Mas o que amo em ti
É justamente esta ferida viva
Teu silencioso apego
A alma que não foi
Apaziguada

Manoel Olavo

11 de outubro de 2012

NUM QUARTO PEQUENO



Num quarto pequeno, de poucos
Móveis, quatro paredes brancas,
Piso de madeira gasto, sozinho,
Num quarto em Santa Tereza,
Sem nenhuma esperança,
Num tempo quase sem passar,
Veio a ideia: agarra as imagens,
Poeta, até as esparsas. Salve-as.
Ponha-as no papel, na materialidade,
E ouve o som, o som que se anuncia
(Há uma voz ali, meio abafada).
Assim nasceu a clareira da palavra,
O ato de abissal transbordamento.

Manoel Olavo 

5 de outubro de 2012

FEITO PEDRA



Só há gesto, riso, rima,
Para te revelar, amor.
A existência tem valor
Enquanto nos aproxima

E provoca, entre distantes,
O seu efeito. Se acabar               
O mundo, se o céu desabar,
Se parar o tempo antes

Da hora de te encontrar,
Não importa: faço tudo
Outra vez. Renasço, mudo
De universo, até te achar.

Se for preciso, te espero
No silêncio mineral:
Feito pedra. Ato final
De amor e de desespero.


Manoel Olavo

27 de setembro de 2012

UM POEMA SIMPLES



Eu quis escrever um poema simples
Igual ao que levo aqui no peito:
Esta falta de ar, este salão vazio,
Este xis de viver longe de você.
Não é desespero de letra de tango,
É um mal-estar de beira da roça,
Uma dor fininha como dor de dente
Que aperta na alma, não deixa
Deitar no sofá pra assistir TV,
Não deixa ler um livro e dá uma
Vontade de correr não sei pra onde,
Emigrar pra Alemanha, casar com galega,
Jogar mijo nos garotos do playground.
Sempre aparece um espírito de porco
Pra dizer: “Sua vida está boa, do que reclama?”
Sim, eu sei. Houve conquistas, reina a paz
Entre as falanges. Há mantimentos
Estocados, as fogueiras estão acesas.
Tudo bem no melhor dos mundos possíveis.
A vida pode estar boa, mas não me convence.
Volta e meia, a dor fininha vem, crava, não passa.
Dela não se escapa, pois veio antes de mim.
No fundo, tudo isso é nó, é dó de mim,
É mau jeito, é o mal confuso de viver
Assim tão só: sem sal, sem sol, sem você.

Manoel Olavo

25 de setembro de 2012

O QUE IMPORTA


De que vale o silêncio
A leveza o segredo
Se o que importa
É ver-te?

Amada senhora
Fugidia sombra
Vênus do porão
Das letras

Hei de encontrar-te
Um dia a sós
Onde a terra acaba
E o amor começa


Manoel Olavo

TORRES DA MEMÓRIA



            Não sei de onde eles vieram. Apenas sei que chegaram, e eram muitos. Ocuparam pacientemente todas as ruas, todas as casas, todas as almas, a cidade parou de circular em paz. Nenhuma fresta ficou livre. Nada arejava, nada respirava entre os interstícios.
Era da natureza deles agir assim, preenchendo todos os vazios, obstruindo a luz. Não deu tempo de gritar, ninguém se insurgiu. Todos se calaram. Eles vieram, displicentes, entraram nos espaços, achataram reentrâncias, nivelaram tudo e o vazio se desfez.
            Sinto falta do vazio. Também sinto saudades do silêncio. Do que não é, do que ainda não está. Parece que tudo quer brilhar, tudo quer sair da sombra. Tudo precisa estar pronto, corrigido, provado, há uma agitação confusa nisso tudo, e eles querem que seja assim. Mas nem tudo pode ser assim, tanto. Eu lhes garanto. Por isso, deu no que deu: não há mais vazio.
            Eu vou morar no vazio. Nos meus vazios. Decidi me recolher para sempre. Vou me isolar no meu pequeno apartamento, um quarto, a cama, uma saleta mínima, banheiro, cozinha. Tudo precário e mal cuidado. Móveis antigos, poucos, madeira escura, o teto tão alto que não dá pra alcançar. Vou viver do que me falta.
            Não saio mais à luz do dia. Nem de noite. Não volto à cidade. Dá pra pedir tudo pelo telefone. Pagar pelo computador. Vou fechar portas e janelas. Ficarei aqui, tentando refazer o meu caminho, tudo o que eu já vi e vivi. Tentando sentir o que me forma. Tenho todo o tempo do mundo pra isso. Vou me lembrar de cada momento, de cada encontro, de cada pessoa, de cada palavra dita ou ouvida, de cada acontecimento, de cada verdade morta e renascida.
          Vou recolher tudo em folhas de papel almaço, milhares delas, minhas lembranças perdidas. Pacientemente, vou escrever cada uma delas a mão. Depois, vou reunir as lembranças em blocos, e amarrar cada bloco com uma fita colorida. Com esses blocos, vou erguer torres de memórias dentro de casa. Ainda vou decidir mais adiante, mas cada fita terá uma cor especial, cada época diferente do meu passado vai ter uma cor que a identifique.
            Aqui devo ficar em silêncio, escrevendo, lembrando, coligindo dias e anos, seguindo o ritmo de um tempo só meu, alheio às coisas, alheio à ansiosa solicitude da vida. Acima de tudo, estarei livre deles. Livre do seu insuportável preenchimento. Voltarei a ser, depois deles virem...
            Dormirei, acordarei, tomarei banho, farei comida e sonharei feliz, entre torres dessa memória reerguida, organizadas por cor e por cronologia, volumes simétricos contendo relatos de minha existência. Parece pouco, eu sei, mas, pelo menos, vou estar livre deles. Não sei se me salvo. Mas, ao menos, por um tempo, não me contamino.

Manoel Olavo

23 de setembro de 2012

NEM QUE ME MANDASSEM


 Nem que me mandassem pra longe dali, pra depois da curva dessa rua, pra depois do rabo da Quinta Avenida, aonde o asfalto termina, e é só lixo e sangue e tosse e gente rodeada de lama, nem que me mandassem pra depois do limite do mundo, pro fim da linha, pro outro lado da fronteira das eras e, no entanto, é ali bem perto;
Nem que eu fosse até ali, até o alto do morro espetado de antenas, de casebres, na penumbra da viela mal-iluminada, e desse as costas à rua que, bem ou mal, eu já conheço, e faço questão que esteja comigo, pois meu coração só vai até os confins deste bairro, só vai até onde está o reflexo, o eco, o eito, passou dali é tudo maldição, é senda, é outro território, passou dali o trem desanda sobre os trilhos, se enche de gente que não foi convidada;
Nem que me mandassem pra depois da estação aonde eu desço, nem que me mandassem pra depois da piscina, do banquete de restos, pro lado de lá dos quintos dos infernos, eu juro que não ia, ah não, eu fugia, pois, passou dali, é tudo gente má, chinfrim, cheirada, possuída, gente matando por cigarro, gente tirando o rim das criancinhas, roubando bebês no shopping, bolinando filhos, gente vil, rampeira, x-9;
Nem que eu me embrenhasse na floresta, voltasse pro meio do mato, quando éramos bons, colhíamos frutos e raízes, voávamos como aves, amávamos sem culpa e vivíamos embriagados de bálsamo, malgrado algum canibalismo, conflitos tribais e o gosto do moquém dos vencidos, mas, tudo bem, antes tivéssemos continuado assim, contentes com tudo, autênticos, invioláveis, unidos num tempo anterior à deflagração, anterior ao fim da rua, antes de bater toco por aí, sem mapa nem território.

Manoel Olavo

20 de setembro de 2012

ODALISCA



Odalisca, seus olhos pareciam tão cansados. Você não é quem eu pensava ser. Talvez nunca tenha sido. Era engano. Só tinha o peso enorme que você carregava. Tanta coisa pra dizer, tanta coisa pra mostrar, tanto cuidado com o que os outros pensavam. Tudo falso. Muita coisa aparente, mas nada por debaixo. Só fúria e silêncio.
Odalisca, você se perdeu. Ficou enterrada numa porção de coisas de que não precisava, perdida numa pilha de produtos. Sapatos demais. Tentou ser culta, jovem, glam, hype, fashion, clean, up-to-date, descolada, enfant terrible, emergente, marginal, viciada, fin-de-siècle, clubber, gata, cocota... Je suis desolée, mas não, obrigado. É desespero demais, é mentira demais, essa noite não termina. Nada em você é de verdade, salvo o encanto das palavras e a imagem se movendo ávida. Pobre Odalisca, queria tanta coisa, mas se perdeu no caminho de volta. Tenho pouco a lhe dizer. Odalisca, que fizeram com você?

Manoel Olavo

3 de setembro de 2012

É MEIA-NOITE DE UM DIA DE ABRIL



É meia-noite de um dia de abril
E eu estou quase morto

Talvez você possa me ajudar
Se eu lhe disser a verdade

Se entre dentes lhe contar
O mito sentimental que deixei de lado

Contar como é difícil
Apagar miragens

Deter as coisas imaginadas
Comê-las vivas,

Ignorar a sombra
Que encobre a manhã

Amores ternos, encontros trêmulos
Serões, anéis, gemidos

É duro ofício
Achar alguma substância

Tentar ser íntegro, coerente
Mas você não vem, eis a verdade...

Eu quase morto
Arrefeço e então me calo

Opaco como um olho de cadáver
Como um punhal, uma alça de esquife

Tanto pragmatismo fere, desconcerta
Antes havia sonho em mim
Agora, nada

Não foi você
Não foi o amor
Quem me deixou assim foi a vida


Manoel Olavo

28 de agosto de 2012

EMBORA

Seu rosto não é meu
Mas eu entendo. Seu
Corpo não vem
Mas pouco importa. 
Embora seus olhos
Não me fitem único, 
Os dias não sejam bons,
E você de fato nem exista,
Nem eu possa tocar suas 
Mãos sob esta mesa,
Embora eu nem 
Ao menos fale nisso, 
Disfarce, cantarole,
Ignore sua ausência, 
Embora esta gente nula,
Morna, incompetente,
Embora tudo esteja aqui
E não me baste, embora
O dia não traga a boa 
Nova, que seria vê-la,
Eu respiro fundo, me calo,
Relativizo a dor, o fardo, os fatos
Pressinto a dura dádiva
E levo seu olhar adiante.

Manoel Olavo

MÃOS E VERSOS



Nas mãos

O gesto mínimo


Adiante

O labirinto


Letras gotejando

Pelas fendas


E as mãos

Sob um céu

De versos



Manoel Olavo

25 de agosto de 2012

METAMORFOSE



A brisa vem, nos envolve e é bem-vinda

Eu nem fingi saber de onde tu vinhas

De que perdido jardim tinhas chegado

O vento te conduz e eu vi que eram muitas

As sementes de mulher, os dons da graça

Os olhos todos germinando enquanto te abres

Um prisma te desfaz entre os elementos

E, de mulher que eras, viraste brisa, sumo, lira

Flor de Adônis, fonte germinal e tudo foste um dia

Tudo, mulher, já foste um dia, assim oculta

Tão colossal que ainda me conforta

Pois como vou viver sem essa brisa úmida?

Sem a tua metamorfose?


Manoel Olavo

14 de agosto de 2012

FLECHA




Não digam que há escolha
Entre morrer e se petrificar

Já não me basta saber
Da espantosa solidão

De mares que não
Estão na cartografia

Tudo o que fui e serei
Permanece ignorado

Só me resta caminhar
Sobre os escombros

Dançar a beira do abismo
Ultrapassar as alturas

Proibidas; assim posso
Levar meu grito ao vento

Gravar palavras
Num livro desconhecido

Sonhar ser senhor
Da minha criatura

Limite de toda poesia
Flecha na minha carne


Manoel Olavo

29 de julho de 2012

LUA NOVA





Por que brilhar assim

Ó vaga lua nova?

Por que me prometer

O mar, o amor, a alma

Entrelaçada de distâncias

Se, quando vem  o dia,

A sua luz morre

No nada?


Manoel Olavo

26 de julho de 2012

NEL MEZZO DEL CAMIN


No meio do caminho da sua vida
Ele vinha só e as lágrimas caíam

Não era a solidão comum das árvores
Mas do aço rasgando a pele

Ladeado o rio, transposto o vale
Ele sonhou haver amor total

Amor, lampejo do absoluto
Centro do ser, úmida fonte

(Se quebrou, amor não era
Se partiu, amor não parte)

Amor feito lava de dentro da terra
Criando montes onde nada havia

Amor que chega e se prontifica
E não precisa explicar precárias faltas.


Manoel Olavo

17 de julho de 2012

A SERENIDADE É O DOM DAS PEDRAS





No chão
A vida abatida

Fingindo-me sereno
Pra escapar de mim

Alguém aí
No manto das palavras?

O que sobrou
Do salto do animal feroz
Da indecisão entre vida e morte?

Pedaços
A alma retorcida
E a serenidade:
Esse dom das pedras


Manoel Olavo

15 de julho de 2012

SEM VOCÊ


Sem você
Eu me vi só
O rosto
            [partido ao meio

Dor:
Como
Suportá-la?

Você
Que eu amei
Devolva a
Metade roubada
De mim

Preciso juntar
Minha alma ao corpo

Mais tarde
Inteiro e recriado
Hei de domar
O inferno das palavras
As pétalas pisadas
A sede de amar

Claro que
Pode ser sem você 


Manoel Olavo
        

14 de julho de 2012

IMITAÇÃO DE KLIMT



Nenhum poema imita o beijo dos apaixonados
                                      [no quadro de Klimt
Nenhuma foto de álbum antigo
Nenhuma lembrança
No lyrics
Nada

O caso aconteceu comigo:
A luz dourada jorrava sobre nós
E nossos corpos

Meu rosto em frente ao seu

- Você era uma imensa
lagarta falante grudada em
mim num casulo dourado -

O abraço quente 
A perna entrelaçada
Bocas querendo mais

No alto um espelho: encaixe simétrico
De sua pele mais clara do que a minha

Um ser andrógino
Coberto pelo lençol
Dourado e flores cintilantes

Estávamos os dois ali
Mas era um outro tempo

Manoel Olavo

10 de julho de 2012

ESPELHOS



Vi em teu olhar
O mesmo brilho.
Fagulha de amor,
Faísca, fato adiado.
Chamar-te, hoje,
Amor!, dá nome
Às coisas. Faz-te
Real como eu sabia,
Pois moravas em mim, 
Meu saber secreto, 
Desvão da minha alma.
Estavas sobre a cama solta,
Nas entranhas da dor,
No tempo que passei
Te esperando.
Eras o andar de sonho,
Sopro de luz nas palavras.
Estavas aqui, Amor.
Éramos um. Espelhos.

Manoel Olavo

30 de junho de 2012

PEGADAS




Se eu pudesse voltar à mesma estrada
Se eu pisasse em cada pegada deixada sobre
                                                        [a terra
Mesmo assim não saberia de mim

Não sou eu quem está ali
Isto se deu noutro tempo
Noutro corpo noutra ocasião

Racionalmente sei que estou nesse mapa
De intenções passageiras e passos dados
Mas só como cartografia

Eu me vejo nos vestígios de existir
O passo gravado me faz recordar
Porém me espanta

Assim rabisco cada folha em branco
Rasgo cada carta antes endereçada
Deduzo aos poucos o que me aconteceu
Quando eu não conseguia ver


Manoel Olavo

17 de junho de 2012

VEM COMIGO, IRMÃO DE SONHOS



Vem comigo, irmão de sonhos,
A serenidade não nos basta.
Juntos subiremos o penhasco
Decifraremos velhos mapas,
Colheremos frutos,
Amores, partituras
E das ruínas surgirá
Um assombroso espetáculo.
Não faremos pausa. Nosso
Caminho é a coletânea
De imagens sobre a pedra.
Em tudo está a união
Das tentativas, o esforço
Dos que nos precederam
E seguem conosco, embora
Transfigurados. Deles
Pouco conhecemos:
Nossa memória é fugaz,
Nossa linguagem
Esconde o que de fato
Se passou conosco.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Cruzemos a muralha.
Juntos iremos à última colina
No vale das roseiras ressecadas.
De lá veremos a espiral
Luzindo dunas de ágata,
Juntando sílabas cortadas,
Riscando o ar feito balas.
É um mistério que a vida continue
Após conhecermos seu fracasso.
Só a cartografia nos consola.
Faz com que possamos, de
Algum modo, continuar presentes.
A cada mapa, um vestígio da
Eternidade. Depois aparecem
Litígios, esperanças roubadas;
Grandes geleiras derretem-se em silêncio.
O horizonte ferve, a penumbra acaba
E sóis, incontáveis sóis de rubra pira
Queimam na cidade em polvorosa.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Fujamos e busquemos Almada,
A prímula, a hirta fresta,
A fresca sina, a espraiada mancha.
Busquemo-la viva ou em pedaços.
No mar louvemos Atena, seu dourado
Esplendor; partamos em busca
Daquela que sonhamos encontrar.
Talvez ela exista e esteja
Num lugar ignorado,
Límpida, à espera de nós,
Deitada entre lençóis de cânhamo
Jardins de prímulas, colunatas,
Pelúcias e raras pedrarias.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Atrás da verdadeira sinfonia.
Talvez ela exista e esteja
Aprisionada em algum
Lugar de nossas vidas
Entre o carmesim e a fúria.

Manoel Olavo


29 de maio de 2012

EU TE ESPERAVA


Eu te esperei na noite fria
Quando tudo era oculto
E o mundo começava
- Amor, eu te esperava.

Nas águas do fundo
Da vida que nasce
Nos ventres e pomos
- Amor, eu te esperava.

Num dossel de luz
Nos pedaços das
Primeiras palavras
- Amor, eu te esperava.

Nas revoadas no céu
Depois do breu e da
Tormenta dissipada
- Amor, eu te esperava.

Nas explosões de lava
Nos corais azuis, nas algas
No teto da antiga sesmaria
- Amor, eu te esperava.

No estuário comum
Fonte do mesmo rio
Alma da mesma água
- Amor, eu te esperava.

Manoel Olavo

16 de maio de 2012

ESCUTA



Ao teu redor
Eu venho voando
Como um pássaro
Em torno da lira
Como um vento
Que sopra à ilharga

Beleza demais
Da tua verde luz
Do teu verbo raro
Do beijo com sabor
De mares consagrados

Escuta:
Não há mistério algum
Há o segredo de te amar
E adormecer calado...

Manoel Olavo

12 de maio de 2012

AMO-TE POR FIM

Amo-te por fim
E neste enigma
Te desejo minha

Amo-te colossal
E tudo quanto há
Vai ao teu encontro

Nada mais existe
Em que não haja
O teu lado avesso

Pensei que fosses
Encanto passageiro
Mas és real, nutriz

Alívio em afeto
Transformado

Olho que me espalha
Em mil espelhos

Sabia-te mais do que pedira
Sabia-te mais do que sonhara
Medida voraz de todos os incêndios

Amo-te assim um amor sem erros
Maduro e desnudo
E querendo-te demais te levo
Por dias de voar ao rés do sonho


Manoel Olavo

10 de maio de 2012

CARTA



Ah, então era aí que você se escondia?
Onde estava seu relevo, sua graça volátil
Seu nome em mutação, seu halo de estrela
No tempo que veio frio e deserto
Quando esperei a aurora sempre adiada
Revirei baús, organizei histórias
Ouvi canções prediletas
Tentei ler mentes, guardar segredos
E veio o vento e tudo foi-se embora...?

Ah, então era aí que você se escondia?
É bom saber disso.
É bom saber que você está aí
Seu olhar vivo e surpreso
Sua faísca, sua inquietação.

Eu, aqui, refém de sonhos profanados
Conto feliz as horas
Que antecipam nosso encontro.

O mar, à nossa frente,
Move as suas ondas.


Manoel Olavo

8 de maio de 2012

DEPOIS DE TI





Pousa a tua mão
No meu rosto
Porque te amo
E sei voar contigo.

A fonte, amor,
És tu. O leito,
Eu bebo em
Meio à travessia.

Toma-me:
Beijo teu corpo
Coberto de
Palavras.

Nus, os signos
Amarrados em
Teu ventre.

Antes de ti
Eu era partido
Ao meio.

Depois de ti
Sou um mar 
De saliva e versos.


Manoel Olavo

7 de maio de 2012

RITA

Rita

Eu te amei

Como um adolescente

Tumultuado consegue amar

Mas a sua força

Parece interminável


Manoel Olavo

PAULA



Paula

Que encontrei no

Shopping Center

Descendo a escada

Parecia quase bela

Um passo a mais

E seria linda

Mas parou num

Ponto indefinido

Entre a feiúra e a

Angústia disfarçada

- Como olhos verdes enviesados

Podiam ser tão feios?


Manoel Olavo

ROSANA

Rosana

Pra namorada você não serve

Pálida demais

Um sopro de ar gela suas veias

Eu desço intrigado

Ao porão de sua alma

E tudo o que eu encontro

É você pensando em mim


Manoel Olavo

6 de maio de 2012

ELIZÂNGELA



Elizângela

Amava Rilke e Maiakóvski

Lia obstinadamente

Explodia a menor contrariedade

Muito séria e dedicada

Tinha medo do que

Os homens podiam lhe fazer


Manoel Olavo

NORMA



Norma me falou que viria às sete

Era incapaz de um sorriso óbvio

Beleza louçã

Corpo de marfim na beira da calçada

Beijava confortavelmente

Sempre às voltas com uma

Interminável trança


Manoel Olavo

AUSÊNCIA

Um claro sinal
Me dá a notícia
De que voltaste
Às alamedas costumeiras
Aonde ias passear

Tua dócil figura
Tão semelhante e tão minha
Perdidamente minha
Eu vi

Pelas ruas
Em que andei contigo
Os caminhos se abrem
E vão ao limo

Atônito
Te vejo dançar
À minha volta

O que é nosso
Cintila
Acontece
Outra vez

Em ti
Permanece
Em mim
Resiste

Vislumbre
Da tarde perdida
Que me revigora
E vai-se embora
Enquanto é tarde


Manoel Olavo

DOSTOIÉVSKI



Eu dormi num catre

Senti frio

Fui dilacerado por dilemas

                         [sobre o bem e o mal

Enlouqueci

Vi a face de Deus

Mesmo assim

Não sou um personagem de Dostoiévski


Manoel Olavo

29 de abril de 2012

ELA A INTOCADA

Jamais ele tocou
Mas bem conhece
O balcão das cinzas
A voragem das horas
O ouro em pó
Os fenômenos naturais desenfreados
As esculturas imóveis
O prumo que vai e volta
A poeira cobrindo os corpos petrificados

Ameias e colunas guardam a rua 
Protegem os passos lentos 
De arroubos juvenis durante a caminhada
Caem flechas parecendo gotas 
A cabeça no cepo
O elmo o carrasco
No entanto 
Ele se move

Por trás de tudo
O caminho 
(Ritmo único)
Ubíquo signo 
Que ele não imaginava
E sequer tocou
Jamais tocou
Mas bem conhece

Logo 
Abaixo
Ela pende 
E reverbera
Ela: a intocada

Manoel Olavo

27 de abril de 2012

TODO ESSE SILÊNCIO


Todo esse silêncio guardado em mim
Borbulha sob a crosta e, dentro, esmaga
Cada ponto sólido da rocha.
Todo esse silêncio guardado em mim
Agita-se e revira minha alma.
Todo esse silêncio solapa a calma
Aparente do quartzo que desmancha
No magma. Fornalha de sol, muda
A ordem natural com sua obra.
Pedra que desaba e sangra na boca.
Fogo que lambe e prefigura a lava.
Palavra conhecendo a erupção.


Manoel Olavo

22 de abril de 2012

FLOR



Onde estás
Meu encoberto jardim
Minha paixão meu ardil
Meu remanso de noites ocultas?

Não vi que estavas do meu lado
Até teu nome chegar pelas raízes
E florescer em mim
Como flor encravada na pedra.

Amor, amor
Eu te descubro
Farta planta cor de verde
E busco teus indícios
Na ramagem.

Te sigo como quem
Caminha nas montanhas
Atrás da improvável
Flor de carne 
De pétalas douradas.

Visão que paralisa
Meu olhar de explorador
Cansado no outono de uma vida
                               [sem amores
Que desconhece
Tua beleza cor de flora.

Amor, eu te surpreendo pênsil
Acima de todas
Rainha sem igual
Entre as flores fêmeas.

Manoel Olavo

MARAVILHAS

Antes de morrer Rejuvenesça! Inato, ligeiro Seja sempre seu O primeiro sonho O último grito O imprevisto fato. A capa de cristal Par...