28 de maio de 2019

CRISTAL PARTIDO



Ninguém lhe preparou para o inapreensível  silêncio que se seguiu após o delicado arranjo de pedras de cristal se despedaçar num estalo só, num ruído ruim,  espalhando lâminas e cacos gelados para todo lado, num extenso raio em torno do quarto, ao redor da casa,  ferindo transeuntes e casais que passeavam despreocupadamente. Ninguém lhe preparou para o estardalhaço do cristal partido, para o gemido mudo, para o despenhadeiro que se abriria. Ninguém lhe falou das consequências mórbidas de tamanho estalo para a geografia local. Nas horas seguintes,  nenhum soluço de dor, nenhuma palavra de solidariedade foi pronunciada. As migalhas de amor nas lascas de cristal, atônitas e descompassadas, flutuaram como borboletas morrendo aos poucos no vácuo interestelar. Há de se ter um nome para esta sangria mineral fria e desatada. Talvez a ciência transforme tudo num fenômeno geológico de cálculo previsível e razoável. Mas é preciso cuidado. Muito cuidado para não se ferir. Indiferente a tudo, o silêncio reverbera os cacos do caos e celebra seu apogeu.  Enquanto ela se despe, enquanto os sonhos vagam, enquanto os planos surgem e a trilha sonora se eleva, o silêncio espreita, e celebra a vida e suas novas vítimas.


Manoel Olavo

TRAMA


Em cada folha

Em cada teia

Eu teço a trama

É  sempre o mesmo tema:

Será que ela me ama?

Por fim goteja

O talho que

Todo dia

Sangra



Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...