29 de março de 2013

CADA MINUTO


Cada minuto passa
E eu fico mais antigo.
O corpo é um território
Que carrego comigo.

Cada minuto passa
E, indene, a carne fria
Assume a consistência
Do que nem pele tinha.

Cada minuto passa
E a vida cobre a alma
Com camadas. O ar é
Duro, cortado à faca.

Cada minuto passa e
Sou o que não nomeio.
Cada minuto vai
À frente do primeiro.

Cada minuto passa
Eu sinto mas não vejo.
Cada minuto segue
À frente do desejo.

Não há ciência sem
A descida ao inferno.
Não há eterno sem
O istmo do corpo.

Cada minuto passa e
É pele, ausência, istmo,
Corpo, desejo à faca,
Alma em busca de ritmo.

Manoel Olavo

25 de março de 2013

SÃO SEUS OLHOS


São seus olhos: você me vê atrás das aparências
Entende meus sonhos, meus silêncios
Minha dor calada, meu fingir-que-eu-posso

Quero de você essa virtude rara
De me fazer maior do que eu sou
De me levar além do que mereço

Por isso te amo e ajo como se não houvesse
O mundo à nossa volta; e só vejo você
Seu olhar, meu guia, estrela polar, Órion

Seu corpo de marfim, o toque de calor
Que me incandesce. Em suas mãos, em sua
Pele clara, eu voo entrecortado de gaivotas.

Viajo na maré de luz, numa revoada
Me sinto como um rei num madrigal
De carícias e posso ser feliz porque te amo

Manoel Olavo

METAPOEMA III



                                               As coisas
                                               Emitem luz

                                 Ignoram distâncias

                                           Estão no meu jardim
                                                  E na
                                                          Macedônia

               As coisas
               São doces
               Prestimosas
               E votivas

                                               As coisas rentes
                                               Ferem o real
                                               As capturadas
                                               Morrem

As coisas revelam
O pacto entre
O divino e o sensual

                                    As coisas
                                         Todas elas
                                           Carregam
                                                  Um pouco
                                                          De mim

Manoel Olavo

15 de março de 2013

EM QUALQUER PARTE


Quando eu era criança
Dormia num
Colchão de palha
Com cheiro de urina
E sonhava com o dia
Em que todos seriam amenos
E diriam coisas verdadeiras
Eu me sentia só
Achava que o mal
Era ter nascido longe
Na beira do pantanal
Junto à grosseria
Dos peões de fazenda
Dos garimpeiros armados
De mulheres que se pintavam
Pra missa de domingo
E telefonavam umas pras outras
Contando os podres
De maridos e filhos
E gente que se visitava
Todo dia à mesma hora
E padres boçais
Que puxavam a orelha
Dos meninos no colégio
E primos boçais
Que puxavam o cabelo
Dos meninos em casa
E o Deus de minha mãe
Que ela disse que punia
E a mãe de minha mãe
Que ela disse que era santa
Mas era louca, isto sim
De noite ficava abraçada
À minha mãe e outros filhos
Com a luz do lampião apagada
Porque via fantasmas cercando
A casa na beira do rio Coxipó
Todos ficavam em silêncio
Rezando pras almas irem embora
Foi minha avó quem deu à minha mãe
O nome de outra filha morta
E lhe disse que elas eram
A mesma pessoa
E eu tive medo disso tudo
E chorei e quis
Fugir dali sair do meio
Daquela gente assustadora
Eu quis viver como
Os personagens dos livros
Mas tive de aprender
A viver calado e só
Olhando pra cima ou pra dentro
Chorando em silêncio
Porque homem não chora
Eu subia em cima do telhado
Pra escapar daquilo
E lia histórias
De gente calma
Com enredo admissível
Mais tarde eu viajei
Vim ao Rio de Janeiro
E vi gente que ria sem medo
E bebia e fumava e ia à praia
E falava de cinema e de teatro
E parecia saber de si e ensinar como
Então eu decidi morar no Rio
Vim estudar e nunca mais voltei
Mas vi que era tudo mentira
Que a gente má e louca
Existe em toda parte
É mais real do que os mitos
Que não falam a seu respeito
E a gente branda está
Onde se possa vê-la
Hoje estou em pedaços
E penso no que sobrou
Após tanto tempo vivo
Há muitas léguas
Da cidade que deixei
Há muito tempo
Da cidade que deixei
E que pulsa em mim
Em desabridos viços
Mas eu fiquei tão só comigo
E sei que a gente má é má
Em qualquer parte
E a dor atualiza o tempo
De viver entre essa gente
Em toda cidade
Onde o sol se por.

Manoel Olavo

POEMA DO RAIO DE LUZ

Um poema Feito de feixes De raio de luz No vidro encantado Única Maneira de ver A paixão silenciosa Atrás do segredo dela Pele Pe...