28 de fevereiro de 2011

NA BORDA

Um gesto
Talvez mil
E nada toca
O centro do nome

Na borda
Ficamos nós:
Filhos do mar
Da água e do sal
Presos no deserto
Em busca de poesia

Comensais da palavra
Querendo a loucura
Das sensações

Manoel Olavo

25 de fevereiro de 2011

IMITAÇÃO DE KLIMT




Nenhum poema imita o beijo dos apaixonados
No quadro de Klimt
Nenhuma foto de álbum antigo
No sorrow
No lyrics
Nada

O caso aconteceu comigo:
A luz dourada jorrava sobre nós
E o nosso amor...

Meu rosto em frente ao seu

- Você era uma imensa
lagarta falante colada em
mim num casulo dourado -

O abraço quente 
A perna enlaçada
E bocas querendo mais

No alto um espelho: encaixe simétrico
De sua pele mais clara do que a minha

Um ser andrógino
Coberto pelo lençol

Estávamos os dois ali
Mas era num outro tempo

Manoel Olavo

24 de fevereiro de 2011

MONÓLOGO DOS MOTIVOS



Incrédulo, vi que todos têm excelentes motivos. São prisioneiros de suas sagradas razões. Ninguém simplesmente se comporta dum certo modo. Todos precisam agir como agem. É seu alimento.
Eles se encontram no caminho, suas histórias se cruzam, seus olhos dão testemunho de aflição mal disfarçada, mas, apesar de tudo, cada um está irremediavelmente só, longe de si, enganado, distante dos fatos e dos sentimentos. Cada um é dono da razão, construída nos moldes de sua própria justificativa. Cada um se move segundo a convicção que este processo assegura. A velocidade de cada um depende do tamanho da raiva que carrega. E todos são dissimulados. Todos escondem seus verdadeiros motivos.
Por isso falamos tão alto: para espantar o medo que isso provoca. Em meio a tanto desentendimento e engano, é surpreendente que algo funcione. É surpreendente que o estrago não seja  maior. No entanto, todos se movem. A vida segue seu rumo.
Nossa humanidade só se revela quando alguém, por descuido, covardia ou certeza da morte, resolve exibir sua falha. Consegue dizer que não dá pra carregar tanto peso assim. A verdade só vem à tona quando um de nós fracassa e exibe seu horror e sua patifaria. Quando o desespero e a farsa surgem sem meias palavras. Mas este é um exercício perigoso. O testemunho que ele instala é assustador. Tal revelação desperta ódio entre os demais, ameaça as regras, denuncia os vencedores, agride o status quo. Quem faz isso se torna um maldito. Todas as penas e mecanismos de resgate, construídos com este fim, serão usados contra quem teve a ousadia de falhar.
Outros, timidamente, mostram admiração pelo proscrito. Tentam negociar com o infrator, mostrar-lhe algum medo, alguma falha parecida: “olha, eu falo da minha dor, você fala da sua, ficamos quites, ok?”; querem trocar a fraqueza humana como se estivessem num balcão de negócios, num escambo de derrotas morais. Outros se sentem atraídos pelo abraço do afogado, pelo desastre à sua volta. Outros tentam amaldiçoá-lo, julgá-lo, condená-lo, insistem em redigir a genealogia de seu desastre, provando que, sim, ele se anunciava desde o começo.
Outros usam o que foi revelado para espezinhar quem confessou o seu fracasso. Chutam cachorro morto. Querem exorcizar aquela falha de sua própria vida, dizer “comigo, não”, num exercício de negação, de afirmação de virtude, ou de simples crueldade com quem está em posição inferior. A maioria, no entanto, sequer consegue ouvir o testemunho de quem desiste. Está ocupada demais, às voltas com seus próprios motivos.
Assim a caminhada continua, estamos todos muito cansados. Alguns prometem novas formas de dissimulação, razões invencíveis, juros mais baixos. Animais do deserto, reunidos à força, dor e júbilo parecem nos aproximar, da mesma forma que nos devoram. Há muito a ser descoberto entre as cinzas do que foi destruído pelo fogo. O que nos cabe, antes que a luz se apague? De que vale cantar essa humanidade soterrada? O baile continua. A oferta de máscaras continua vasta.

Manoel Olavo

EU POSSO



Eu posso te amar no clima ameno
Ou no vendaval que destelha a casa

Posso ser pedra, árvore, riacho
Bicho do mato, rei, menino

Posso ser mais e serei tudo
O que posso. Da tua mão

Pequena, o toque me multiplica
E, múltiplo, posso viver a teu serviço

Estar em teu regaço, nos cantos
Da tua alma, no teu corpo, meu amor 

Manoel Olavo

23 de fevereiro de 2011

UM POEMA BREVE


Um poema breve
Um lema

Uma afronta
À calma da palavra

Tua mão pequena
Puxa a ponta da toalha
E revira a mesa

Você grita: chega!
- A sobrancelha levantada

Manoel Olavo

21 de fevereiro de 2011

NOSSO AMOR


Nosso amor
Virá em gotas?

Será aceno
Seiva ou brisa?

Nosso amor:
Um par ao sol

Você deitada
E o seio orbita

Eu na areia
Sem camisa

Manoel Olavo

20 de fevereiro de 2011

ESTAREMOS JUNTOS

Quando eu te pedir
Por favor, esqueça
A dor de viver
O tempo sem luz
O ódio a putrefação

Por ti renasce o dia
Consagra-se a poesia

Receba este país
Inteiro: a minha alma

Tenha coragem
Estaremos juntos
Tempo e vida afora

Manoel Olavo

18 de fevereiro de 2011

CANTO AO BRASIL


Mandai, ó doces musas
Do Hélicon sagrado
O teu canto ao poeta
Tão longe, ao sul da Hélade
Além do mar oceano
Onde o verão é inverno
E o sol brilha o ano inteiro

Virá das Virgens, filhas
De Zeus e de Memória
Teu cântico, Brasil
Esplendor entre as terras
Roma tardia, porto
De brancos foragidos
E escravos traficados

Canto-te ó pátria nódoa
De negros mutilados
De índios insubmissos
De europeus degredados
Brava gente que em seu
Favor rumina planos
Imperfeitos e ideias

Ao sol do sul nasceste
Sem gládio nem vigília
Quando ligeiras naus
Perdidas te encontraram
- Ou fingiram encontrar -
Emblema de rapina
E dissimulação

Do pau-brasil cortado
A púrpura saía
Em panos e brocados
Ouro, prata, diamante,
E mais cana, café,
Gado: tudo se obtinha
Pra grandeza da Europa

Tirar, tirar, tirar
Foi tua redenção
E há de ser o teu vício
O alguidar das mucamas
As baixelas de prata
A extensão magistral
De tuas costas e crimes

Nobre é teu corpo e a língua
Escorre solecismos
Na noite imaginária
Nem todos são iguais
Ri-se a arraia miúda
O pai perene reina
E a multidão assombra

São muitos os teus deuses
E todos os teus cantos
A alegre sinfonia
Respingada de caos
Por ti se espalha e inventa
Mitos e acende estrelas:
Não és feliz, mas cantas

Das terras verdejantes
A grande parte está
Coberta de miasmas
Um rol de mil espécies
Mescla-se sob o céu
Por aqui nada é
Como devia ser

Cai a noite, sinhá
O dorso da menina
Cria asas e a faz
Voar, comer florestas,
Achar minas perdidas
No fim do mapa, após
A última monção

Alguém aflito sonha
Lugares impossíveis
Homens demais, planícies
Dizimadas, insólita
Junção de vida e morte
Num cenário de cor
Pó, sangue, mar e esperma

Há muita luz, metrópoles
Explodem e as histórias
Comuns identificam
A gente preta e pobre
Que à larga em ti resiste
Gerou um Deus a terra
E as Musas a cantaram

Manoel Olavo

13 de fevereiro de 2011

ODE EM FASES



Poesia, eu te sabia
Flor, dor ou até fezes.
Agora eu sei: és fases.
Falar de ti, quem pode?

O amor perdido, o corpo
Nu, a lição de moral:
É isto a poesia?
A que nos caberia?

Por isso eu te segui
Mas estavas na frente.
Véu da palavra dada
Céu do pássaro ausente.

Não te conduz a rosa
Tampouco o fingimento.
A melhor vai nascer
No chão do firmamento.

Manoel Olavo

9 de fevereiro de 2011

TOADA DO PÁSSARO SEM NINHO


Na soleira da casa
Em que fiquei sozinho
Eu canto uma toada
De pássaro sem ninho.

Vivo só entre os restos
Da minha infância morta.
Verdades? Sonhos? Mitos
Que me deixaram à porta?

Não sei, mas não lamento.
Ali não fui feliz,
Nem tive sorte ou tento:
Ave que ninguém quis.

Apesar da ilusão
Eu, junto da família,
Sentia a solidão
De náufrago na ilha.

Às vezes imagino
Consertar o passado:
Inventar um menino
Que se soubesse amado.

Não sei se realmente
Um dia o conheci.
Nasci entre essa gente:
Nunca lhe pertenci.

Manoel Olavo

QUEM ME DEIXOU ASSIM



É meia-noite de um dia de abril
E eu estou quase morto

Talvez você possa me salvar
Se eu lhe disser a verdade

Se entre dentes lhe contar
O mito sentimental que deixei de lado

Contar como é difícil
Apagar miragens

Deter as coisas imaginadas
Comê-las vivas

Ignorar a tinta
Que escorre da manhã

Amores ternos, encontros trêmulos
Serões, anéis, gemidos

É duro ofício
Achar alguma substância

Tentar ser íntegro, coerente
Mas você não vem, eis a verdade

Eu quase morto
Arrefeço e então me calo

Opaco como um olho de cadáver
Como um punhal, uma alça de esquife

Tanto pragmatismo fere, desconcerta
Antes, havia sonho em mim
Agora, nada

Não foi você
Não foi o amor
Quem me deixou assim foi a vida

Manoel Olavo

8 de fevereiro de 2011

METAPOEMA II

                                                                       
                                                                    
                           Céu da minha alma:

                                Toda ordem

                            é um confinamento
                                                          
                             
                              Manoel Olavo                          
                                          
    

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...