9 de fevereiro de 2011

QUEM ME DEIXOU ASSIM



É meia-noite de um dia de abril
E eu estou quase morto

Talvez você possa me salvar
Se eu lhe disser a verdade

Se entre dentes lhe contar
O mito sentimental que deixei de lado

Contar como é difícil
Apagar miragens

Deter as coisas imaginadas
Comê-las vivas

Ignorar a tinta
Que escorre da manhã

Amores ternos, encontros trêmulos
Serões, anéis, gemidos

É duro ofício
Achar alguma substância

Tentar ser íntegro, coerente
Mas você não vem, eis a verdade

Eu quase morto
Arrefeço e então me calo

Opaco como um olho de cadáver
Como um punhal, uma alça de esquife

Tanto pragmatismo fere, desconcerta
Antes, havia sonho em mim
Agora, nada

Não foi você
Não foi o amor
Quem me deixou assim foi a vida

Manoel Olavo

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