25 de novembro de 2012

PROJETO



Cercado de brasas e sombras
Livro-me de ti; hei de viver
Sem tua inédita presença

Cansado, eu volto ao bar
Ao exercício das palavras
Ao mar azul em que afundo

É preciso encontrar a vida
Fruí-la, vivê-la de verdade  
(Isto é, o pouco que me resta)


Manoel Olavo

22 de novembro de 2012

NUM ÚNICO PONTO



E todas as coisas se condensaram
Num único ponto. Ali estava a vida
Inteira, resumida, pormenorizada.
O tempo se desfazia, como grama  
Ceifada pela lâmina duma adaga.  

Acabou o esforço inútil de buscar
A identidade, a explicação,
A parte no todo, o antes e o depois.
Domada, a necessidade desaparecia,
Sem lembrar do que detém e traga.

As coisas, brilhantes, condensadas,
Pouco a pouco partiam e seu peso
Era leve. Seu fluxo inútil terminava.
Longe delas, preso à sua malha,
Vislumbrei a linha do horizonte. 

Livre, tomado de luz, eu caminhei
O mais silenciosamente que pude.
Não compreendi o que podia ver.
O que chegava à minha pupila
Era o reflexo anterior de tudo.


Manoel Olavo

6 de novembro de 2012

NÃO SE MATE


I

Espere, não quero
Que você se mate

É preciso estar
Entre os viventes

Talvez devesse
Ficar em casa
                                                                                                        
Longe do laço 
Mortal dos afetos

Expandindo
O seu silêncio

Parece pouco, eu sei
(A eternidade que consola)

Um flanco aberto
Na cadeia de contrários

Lá, mais uma vez,
Irão brotar as ânsias

II

O amor vem
Em meadas

Convoca e,
Depois, esmaga

Talvez viva de
Histórias desfeitas

III

Pouco a pouco
Voltará ao mundo

Sublunar, coberto
De escombros

Pouco a pouco
Voltará ao mundo

Feito para resistir
Ou ficar à margem

Questão de tempo
E de vocação caseira

IV

Há uma fome
          (em mim)
E ela prenuncia

Outra forma:
O fora da lei

A fagulha no
Raso do rio

O gozo antes
Do último grito

O vazio antes
De qualquer origem

V

Espere, não se mate
Faz sol em seu poema


Manoel Olavo

4 de novembro de 2012

AMORAS E GAIVOTAS


Poderia meu amor
Me livrar da morte.
Me aproximar
Da claridade.

Meu amor
Não vai passar.
Move-se.
Vai brotar em
Amoras e gaivotas.

Meu amor é sonho?
Desperto e
Sem você
Sou um lúcido nada.


Manoel Olavo

2 de novembro de 2012

MONTANHA E MAR


Faz tempo
Eu vi o mar
Era da cor
Da sua poesia

Quis nela desaguar
Como a montanha
Encontra o mar
No abraço líquido
Das rochas

Como um verso
Riscado no ar
No dorso da
Melodia

Juntos, os dois,
Montanha e mar
Elementos desiguais
Enfim pacificados


Manoel Olavo

O AMOR EM MEIA-TINTA


Ele tentou
(a paixão quase o cegava)
Aproximar-se dela
E de seus gentis meneios
Ela que era linda
E tão delicadamente ouvia

Apaixonado estava
Cortês e imprudente
Ele agiu
Deixou-se levar
Por louca flama
E logo a conquistou

Fez-se conhecer
Sem nenhum rodeio
E lhe propôs viverem juntos
Na eternidade
E mais:
Jurou poupá-la
Da ambição maldade tédio
Torná-la infensa
Aos interesses banais
Que movem
Homens e vidas

Mas a paixão se foi
Perdeu-se
No apuro dos fatos:
(Aragem decomposta,
Enlevo ou fábula?)

Seguiu cansado e só
No rumo da corrente que não
                                  [conhecia
O amor em meia-tinta:
Engano sutil
De flores despetaladas
Cobrindo a calçada deserta
Que ficou para trás
E passa

Manoel Olavo

VEM COMIGO IRMÃO DE SONHOS

Vem comigo, irmão de sonhos, A serenidade não nos serve. Juntos, subiremos no penhasco Decifraremos velhos mapas, Sentiremos fo...