1 de dezembro de 2010

TORRES DA MEMÓRIA



Não sei de onde eles vieram. Apenas sei que chegaram, e eram muitos. Ocuparam pacientemente todas as ruas, todas as casas, todas as almas, a cidade parou de circular em paz. Nenhuma fresta ficou livre. Nada arejava, nada respirava entre os interstícios.
Era da natureza deles agir assim, preenchendo todos os vazios, obstruindo a luz. Não deu tempo de gritar, ninguém se insurgiu. Todos se calaram. Eles vieram, displicentes, entraram nos espaços, achataram reentrâncias, nivelaram tudo e o vazio se desfez.
Sinto falta do vazio. Também sinto saudades do silêncio. Do que não é, nem está ainda. Parece que tudo quer brilhar, tudo quer sair da sombra. Tudo precisa estar pronto, corrigido, provado, há uma agitação confusa nisso tudo, e eles querem que seja assim. Mas nem tudo pode ser assim, tanto. Eu lhes garanto. Por isso, deu no que deu: não há mais vazio.
Eu vou morar no vazio. Nos meus vazios. Decidi me recolher para sempre. Vou me isolar em meu pequeno apartamento, um quarto, a cama, uma saleta mínima, banheiro, cozinha. Tudo precário e mal cuidado. Móveis antigos, poucos, madeira escura, o teto tão alto que não dá pra alcançar. Vou viver do que me falta.
Não saio mais à luz do dia. Nem de noite. Não volto à cidade. Dá pra pedir tudo pelo telefone. Pagar pelo computador. Vou fechar portas e janelas. Ficarei aqui, tentando refazer o meu caminho, tudo o que eu já vi. Tentando sentir o que me forma. Tenho todo o tempo do mundo pra isso. Vou me lembrar de cada momento, de cada encontro, de cada pessoa, de cada palavra dita ou ouvida, de cada acontecimento, de cada verdade morta e renascida.
Vou recolher em folhas de papel almaço, milhares delas, minhas lembranças perdidas. Pacientemente, vou escrever cada uma delas a mão. Depois, vou reunir as lembranças em blocos, e amarrar cada bloco com uma fita colorida. Com esses blocos vou erguer torres de memórias dentro de casa. Ainda vou decidir mais adiante, mas cada fita terá uma cor especial, cada época diferente do meu passado vai ter uma cor que a identifique.
Aqui devo ficar em silêncio, escrevendo, lembrando, coligindo dias e anos, seguindo o ritmo de um tempo só meu, alheio às coisas, alheio à ansiosa solicitude da vida. Acima de tudo, estarei livre deles. Livre do seu insuportável preenchimento. Voltarei a ser, depois que eles vieram...
Dormirei, acordarei, tomarei banho, farei comida e sonharei feliz, entre torres dessa memória reerguida, organizadas por cor e por cronologia, volumes métricos contendo relatos de minha existência. Parece pouco, eu sei, mas, pelo menos, vou estar livre deles. Não sei se me salvo. Mas, por um tempo, não me contamino.

Manoel Olavo

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