5 de dezembro de 2010

FONTE



Enfim pôde brotar a água limpa
Da fonte comum que banha nossos corpos

E almas; e esfrega-os, afaga-os a sós;
Une restos de luz a cores renascidas.

Oh celebrado sentimento de sentir-se amado!
Da destruição, nós estamos fartos.

Sabemos bem que gemidos sussurrados
Não bastam para vencê-la.

Restou porém uma pedra e uma árvore
E com elas fizeste um universo inteiro.

Restou porém uma vigília atenta
E a ânsia de nascer entre os destroços.

Tu e eu sofremos tanto, braços dados
Com o vazio, vendo partir quem não podia.

Tu e eu rondamos a face do terror,
Densidade negra da vida desprezada,

Na hora de chumbo em que nada soa.
(Mas celebrar a perda pode ser retê-la)

Começar de novo, sempre e à própria sorte,
A jornada em que o fragor não é vencido.

Poder sorrir da vida que é martírio e enlevo.
Em seu dossel dormir, quedar-se aflito

Pedir alívio pra dor, novos amores,
Imprevistos desejos, acenos de madrugada.

Estranho é pedir amor empunhando letras!
Estranho é querer gritar e guardar no peito.

Estranho é chegar quase morto ao fim do dia.
De onde, afinal, jorra da fonte o nascedouro?

Não estará entre lençóis macios o breve
Gesto de amor que um dia me negaste?

Manoel Olavo

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