2 de abril de 2011

SILENO


Durante séculos, Sileno seguiu
Muitos caminhos: cidades de areia,
Pântanos de cal, névoa, precipícios;
Bêbado, enfrentou países, com seu
Corpo cansado e seu casco fendido;
Até perceber, num dia brando,
Que havia grama verde e chão seguro.
Ali fez seu pouso na planície
Entre rochedos que lhe protegiam.
Deitou-se e adormeceu sob as estrelas,
A paz embriagando-lhe os sentidos.
Logo Sileno se esqueceu da dor,
Da solidão, da pressa de chegar.
Os dias reservavam um outro ritmo
A quem fora além do que pretendia.
Certa noite, porém, veio de longe,
No silêncio das coisas que dormiam,
Um pranto de mulher pedindo ajuda.
Sileno passou a noite acordado
Ouvindo a voz fatal que o chamava.
Mar, maré ou melodia: quem estava
À sua porta? Quem lhe encantava e,
Com gemidos, cingia suas vísceras?
“Proclama-me!” – disse Sileno, refém
Daquele martírio: “Dá-me teu fel;
Serei o escravo feliz do teu ódio”.
Sileno, há pouco libertado, tornou-se
Presa dum anjo musical do lodo,
Imagem de mulher dentro do abismo.
Destino e predileção de alma escrava
Que encontra espelho numa estátua de sal
A cada sopro de tesão Sileno se desintegra

Manoel Olavo

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