12 de dezembro de 2009

O MAR


1. As Águas

Misterioso é o mar
E cavas são as ondas:
Pêndulo das águas
Espumando crostas
Onde nasce a terra.

Paira sobre o mar,
Na visível face,
A centelha, o raio
De luz. Mais abaixo,
Espalham-se as águas.

O manto das águas
Cobre e molha a terra.
Camadas de azul
Formam céu inverso
Na paisagem líquida.

Pelas profundezas
Abissais se encontram
Náufragos, cometas,
Altas cordilheiras
E meu ser primeiro,

Úmido, viscoso,
Parte da paisagem
De águas geladas;
Grão, quiçá semente
Em solo marinho.

2. O Corpo

Estou de pé
Desperto

Fui lançado a terra
Pelo mar

Sou um conto
(Um corpo)
Em forma de homem

Ainda levo o mar
Dentro de mim

Sou uma ilha
Sem arquipélago

Um Odisseu
De mares sombrios

Meus sonhos morrem
Ao longo do dia

Busco o mar
Para revê-los

Embora haja
Amor em mim

Eu quero o mar
E seus presságios

3. A Partida

E entre muitos que os louvavam,
À beira do cais,
No dia de partida,
Houve um a quem
Não comoveram os hinos
E bandeiras coloridas.
Houve um cujo
Espírito soturno
Fez-lhe perceber
Que a hora verdadeira
Não se determina.
- A este, chamaram-no cético.

4. Os Filhos do Mar

Somos os filhos do mar
Seguimos nas naus lotadas

Em celas forradas
Com folhas-de-flandres
Atrás de eternidade

Mar adverso
Diminuta frota
Na qual vão doze
Velhos timoneiros

Mar de sargaços
Brisa do sol ao meio-dia
Mapa de desafios

O espírito do mar
Preso numa balsa
Manuseia seu compasso

A vida é estranha
E surpreendente
Nas ondas do mar

São algas-azuis
Corais sanguíneos
Mariscos, rochedos
Fractais

Eu sei de histórias e fatos improváveis
Mas me calo diante do mar
Da grandeza eterna do mar

Saibam todos
Que a maré sonhada não virá
Tampouco virão os argonautas

5. A Jornada


Gira o tempo

Somam-se rotas

Em ciclos de velas e dias.

O mar, de sol a sol

É uma pátria de espumas

Em que o coração flutua.

(Mas o porto não se avista...)

6. Os Sobreviventes

A bordo do barco
Vão os sobreviventes

Poetas regem o coro
Anjos guiam a nau

Ficaram anos
Parados na neblina

Cumprindo sua rota
Debaixo do sol

Os olhos da tripulação
Viram lutas desumanas

O leme, o mastro, a quilha
Trazem fundas cicatrizes

Foram todos consumidos
Por seu âmago, ó mar

Os males desta condição
Porém, são irrelevantes

Não importa haver paz
No coração dos navegantes

Maior do que eles é o mar
E toda a sua glória

Manoel Olavo

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