13 de dezembro de 2009

NEM ISSO EU CONTEI

As coisas podiam estar mais próximas. Mas, se ficam perto demais, ferem. Proximidade machuca.
Eu tenho a hora da caverna. A hora do morto. Preciso estar em silêncio, a sós, no quarto, num recolhimento protegido.
O esforço para agüentar o alarido das coisas, a brutalidade das pessoas, é tamanho, que preciso de um tempo para refazer a crosta. Pode ser longo. Na maior parte das vezes é inútil.
Eu sempre sangrei e me desfiz em meio às coisas. Sempre penei no jogo social. Desde que consigo me lembrar, era atravessado pela opulência descabida delas.
É difícil falar sobre este incômodo. Parece haver um pacto para ignorar isso. Mas eu não assinei.
Em 2001, parei de tentar. Juntei os cacos, fechei o comércio, diversos pelotões tinham sido dizimados, e fiquei ali, entre a intenção de ser e a derrocada. Um exército que desiste da ocupação.
Eu me tranquei em casa, de um jeito parecido com para sempre. Tirei o fone do gancho. Mandei o menino dizer que eu tinha saído.
Tentei aprender a me proteger conscientemente. Aparecer somente o necessário. Fechar o vidro da janela. Tentar o truque de parecer estar ali, não estando. Rasgar o véu das memórias, desvendar a mitologia dos fatos. Descer do pedestal e lamber o chão das derrotas. Ser duro e evitar, antes de perder sangue. O inferno são os outros.
Deixaria de ser uma contingência, seria uma escolha. E, a cada vez que eu insistia, a dor de estar ali despido, rachado, traído, distante, esta dor diminuía. Ficou mais confortável. Não foi mérito, não, foi puro desespero.
Contudo, há o preço de estar só. Não assusta, mas provoca desconforto social: uma dor de viés que vem dos outros.
O mundo parece uma festa vulgar ao arrepio da lei e da pele. Todos parecem estar se divertindo. Todos parecem um destroyer num desfile náutico. Eu me viro com este bergantim. Se há algo capaz de irritar, é quando todos assobiam, felizes, por cumprir o dever de casa.
Pra gente lá fora, uma festa de corpos e falas. Pra mim, uma maldição. Fiquei trancado dentro de casa, em segredo. Nem isso eu contei.
Não quero dar a impressão de que domino a arte da retirada. Não é isso. Continua sendo tão enigmático quanto antes, quando eu tinha nove anos de idade e fugia do colégio, assustado, e ficava na esquina olhando a parede, coletando as cinzas. Só existe mais clareza.
Em 2007, voltei a arriscar pequenas incursões ao continente. Expedições de reconhecimento a uma terra desconhecida. Mas o barulho e a brutalidade continuavam. Pareciam ter piorado.
No entanto é preciso prosseguir, antes que venham as brumas. Não sei ser amigável. Posso, no entanto, gritar tão alto quanto os demais. Não tem sido necessário.
É preciso distinguir se o que vemos é árvore ou miragem; se a dor é palpável ou ilusória. Substância demais, pra tão pouco sonho...


Manoel Olavo

2 comentários:

  1. Parabéns, escritor! Fico feliz em te ver ousando e realizando um trabalho cada vez mais apurado. Rimando imagem visual e escrita. Da dor fazer poesia...

    ResponderExcluir
  2. "Manél", gostei bastante deste texto de ontem, certamente por questões de identificação.

    Teco.

    ResponderExcluir

POEMA DO RAIO DE LUZ

Um poema Feixes do raio De luz no vidro Encantado Única Maneira de ver A paixão secreta Atrás do silêncio dela Pele Pele clara ar...