Jamais ele tocou
Mas bem conhece
O balcão das cinzas
A voragem das horas
O ouro em pó
Os fenômenos naturais desenfreados
As esculturas imóveis
O prumo que vai e volta
A poeira cobrindo os corpos petrificados
Ameias e colunas guardam a rua
Protegem os passos lentos
De arroubos juvenis durante a caminhada
Caem flechas parecendo gotas
A cabeça no cepo
O elmo o carrasco
No entanto
Ele se move
Por trás de tudo
O caminho
(Ritmo único)
Ubíquo signo
Que ele não imaginava
E sequer tocou
Jamais tocou
Mas bem conhece
Logo
Abaixo
Ela pende
E reverbera
Ela: a intocada
Manoel Olavo
11 de julho de 2016
30 de junho de 2016
FÁBULA
Enquanto existir a falha
Que se transforme em fábula
Enquanto partir a revoada
Haja rumor nas coisas despertadas
Rumor nas coisas, todas elas
Sussurrando entre fachadas
Transitam matéria e tempo
No golfo cheio de palavras
Gelado mar parte a galope
Por reflexos de prata
A memória de pé, glória amputada
Desabitada ilha, estreito, vaga
Nas lendas do território
O mesmo sol condena e salva
Enquanto eu morro lentamente
No silêncio da noite soletrada
Fale-me do mar, do gosto da
Frase evocada, do sopro de ar
Ocupe a palavra reduzida, densa
Faca contra faca, lata cortando lata
A brasa, a gota, o ritmo da fala
O nome sujo, o anjo sem asa
A palavra advinda, contradita
Cortada à navalha até ser nada
Além daqui é o traço que separa
Édipo da Esfinge, ou de Jocasta
Manoel Olavo
29 de junho de 2016
ESTRANGEIRO
O sol cobriu os
edifícios
Do céu caíram cor
e cinza
O trânsito afinal andou
Tomaram o rumo de
casa
Após anos de peregrinação
Sem pressa, por léguas a fio
Conforme manda a civilização
Conforme manda a civilização
Eles cruzaram pórticos
de vidro
Vestígio de grilhões, caos e cidade
Fria utopia de corpos
de acrílico
Em trilhas desiguais proliferadas
Alguns lembraram, tarde demais
Do refúgio oculto onde havia
O estrangeiro à cata da
palavra
Refém de sua partitura
O estrangeiro ouvia
vozes
Óculos de sol, íris invicta
Som que não podia escutar
Preso no
engarrafamento
Matéria ativa que o domina
Apesar da mortal ventania
Manoel Olavo
29 de outubro de 2015
INVENTO PRA VOCÊ
Invento pra você uma ternura
[escondida
Feita de poesia e cacos
Deixo a ternura derramada
Pra quem desfruta mel e pranto
Pra você, amada, dou-lhe
Água, grão e sonho
Dou-lhe riso e limo
E vermes arejando a terra
Mas com você, amada
Porque seus olhos são fêmeos
A ternura se recolhe
Às minhas conjugações do medo
E, assim inocentes
Nós dois caminhamos
Entre mortos, vivos
E desaparecidos
No cara a cara
De um duplo abismo
Juntando fragmentos
E as nossas vidas
Manoel Olavo
11 de setembro de 2015
MANHÃ DILACERADA
Aprende-se bastante vendo uma manhã dilacerada
Cortada em partes desiguais, a teus pés caída
Contei centenas de pedaços diminutos
Triste, doloroso espetáculo
Melhor ficar para sempre
Perdida entre os reinóis
Esta lembrança
Manoel Olavo
10 de setembro de 2015
NO MORE BLUES
Exausto, eu volto ao banal
Ao encargo das palavras
Ao manancial de coisas mal
[resolvidas
No mar azul em que me afundo
É preciso viver a vida
(isto é, o pouco que me resta)
Desfrutá-la como
Gente equilibrada
Este sofrimento banal
Este incêndio de gestos
[e passos
Não se iluda: esvaziar-se
É pior do que perverter-se
Quem dera
Eu te amasse com ardor
Guiasse a tua alma
Sem nenhum mistério
Quem dera afundássemos
Os dois juntos, embaralhados,
Num mar turquesa,
Não mais azul
No
more
blues
Manoel Olavo
30 de julho de 2015
ESCUTA
Ao teu redor
Eu venho voando
Como um pássaro
Em torno da lira
Como um vento
Que sopra à ilharga
Beleza demais
Da tua verde luz
Do teu verbo raro
Do beijo com sabor
De mares consagrados
Escuta:
Não há mistério algum
Há o segredo de te amar
E adormecer calado...
Manoel Olavo
Eu venho voando
Como um pássaro
Em torno da lira
Como um vento
Que sopra à ilharga
Beleza demais
Da tua verde luz
Do teu verbo raro
Do beijo com sabor
De mares consagrados
Escuta:
Não há mistério algum
Há o segredo de te amar
E adormecer calado...
Manoel Olavo
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