23 de setembro de 2012

NEM QUE ME MANDASSEM


 Nem que me mandassem pra longe dali, pra depois da curva dessa rua, pra depois do rabo da Quinta Avenida, aonde o asfalto termina, e é só lixo e sangue e tosse e gente rodeada de lama, nem que me mandassem pra depois do limite do mundo, pro fim da linha, pro outro lado da fronteira das eras e, no entanto, é ali bem perto;
Nem que eu fosse até ali, até o alto do morro espetado de antenas, de casebres, na penumbra da viela mal-iluminada, e desse as costas à rua que, bem ou mal, eu já conheço, e faço questão que esteja comigo, pois meu coração só vai até os confins deste bairro, só vai até onde está o reflexo, o eco, o eito, passou dali é tudo maldição, é senda, é outro território, passou dali o trem desanda sobre os trilhos, se enche de gente que não foi convidada;
Nem que me mandassem pra depois da estação aonde eu desço, nem que me mandassem pra depois da piscina, do banquete de restos, pro lado de lá dos quintos dos infernos, eu juro que não ia, ah não, eu fugia, pois, passou dali, é tudo gente má, chinfrim, cheirada, possuída, gente matando por cigarro, gente tirando o rim das criancinhas, roubando bebês no shopping, bolinando filhos, gente vil, rampeira, x-9;
Nem que eu me embrenhasse na floresta, voltasse pro meio do mato, quando éramos bons, colhíamos frutos e raízes, voávamos como aves, amávamos sem culpa e vivíamos embriagados de bálsamo, malgrado algum canibalismo, conflitos tribais e o gosto do moquém dos vencidos, mas, tudo bem, antes tivéssemos continuado assim, contentes com tudo, autênticos, invioláveis, unidos num tempo anterior à deflagração, anterior ao fim da rua, antes de bater toco por aí, sem mapa nem território.

Manoel Olavo

20 de setembro de 2012

ODALISCA



Odalisca, seus olhos pareciam tão cansados. Você não é quem eu pensava ser. Talvez nunca tenha sido. Era engano. Só tinha o peso enorme que você carregava. Tanta coisa pra dizer, tanta coisa pra mostrar, tanto cuidado com o que os outros pensavam. Tudo falso. Muita coisa aparente, mas nada por debaixo. Só fúria e silêncio.
Odalisca, você se perdeu. Ficou enterrada numa porção de coisas de que não precisava, perdida numa pilha de produtos. Sapatos demais. Tentou ser culta, jovem, glam, hype, fashion, clean, up-to-date, descolada, enfant terrible, emergente, marginal, viciada, fin-de-siècle, clubber, gata, cocota... Je suis desolée, mas não, obrigado. É desespero demais, é mentira demais, essa noite não termina. Nada em você é de verdade, salvo o encanto das palavras e a imagem se movendo ávida. Pobre Odalisca, queria tanta coisa, mas se perdeu no caminho de volta. Tenho pouco a lhe dizer. Odalisca, que fizeram com você?

Manoel Olavo

3 de setembro de 2012

É MEIA-NOITE DE UM DIA DE ABRIL



É meia-noite de um dia de abril
E eu estou quase morto

Talvez você possa me ajudar
Se eu lhe disser a verdade

Se entre dentes eu lhe contar
O mito sentimental que deixei de lado

Contar como é difícil
Apagar miragens

Deter as coisas imaginadas
Comê-las vivas,

Ignorar a sombra
Que encobre a manhã

Amores ternos, encontros trêmulos
Serões, anéis, gemidos

É duro ofício
Achar alguma substância

Tentar ser íntegro, coerente
Mas você não vem, eis a verdade...

Eu quase morto
Arrefeço e então me calo

Opaco como um olho de cadáver
Como um punhal, uma alça de esquife

Tanto pragmatismo fere, desconcerta
Antes havia sonho em mim
Agora, nada

Não foi você
Não foi o amor
Quem me deixou assim foi a vida


Manoel Olavo

28 de agosto de 2012

EMBORA

Seu rosto não é meu
Mas eu entendo. Seu
Corpo não vem
Mas pouco importa. 
Embora seus olhos
Não me fitem único, 
Os dias não sejam bons,
E você de fato nem exista,
Nem eu possa tocar suas 
Mãos sob esta mesa,
Embora eu nem 
Ao menos fale nisso, 
Disfarce, cantarole,
Ignore sua ausência, 
Embora esta gente nula,
Morna, incompetente,
Embora tudo esteja aqui
E não me baste, embora
O dia não traga a boa 
Nova, que seria vê-la,
Eu respiro fundo, me calo,
Relativizo a dor, o fardo, os fatos
Pressinto a dura dádiva
E levo seu olhar adiante.

Manoel Olavo

MÃOS E VERSOS



Nas mãos

O gesto mínimo


Adiante

O labirinto


Letras gotejando

Pelas fendas


E as mãos

Sob um céu

De versos



Manoel Olavo

25 de agosto de 2012

METAMORFOSE



A brisa vem, nos envolve e é bem-vinda

Eu nem fingi saber de onde tu vinhas

De que perdido jardim tinhas chegado

O vento te conduz e eu vi que eram muitas

As sementes de mulher, os dons da graça

Os olhos todos germinando enquanto te abres

Um prisma te desfaz entre os elementos

E, de mulher que eras, viraste brisa, sumo, lira

Flor de Adônis, fonte germinal e tudo foste um dia

Tudo, mulher, já foste um dia, assim oculta

Tão colossal que ainda me conforta

Pois como vou viver sem essa brisa úmida?

Sem a tua metamorfose?


Manoel Olavo

14 de agosto de 2012

FLECHA




Não digam que há escolha
Entre morrer e se petrificar

Já não me basta saber
Da espantosa solidão

De mares que não
Estão na cartografia

Tudo o que fui e serei
Permanece ignorado

Só me resta caminhar
Sobre os escombros

Dançar a beira do abismo
Ultrapassar as alturas

Proibidas; assim posso
Levar meu grito ao vento

Gravar palavras
Num livro desconhecido

Sonhar ser senhor
Da minha criatura

Limite de toda poesia
Flecha na minha carne


Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...