19 de julho de 2014

PAPÉIS



Junto folhas esparsas sobre a mesa e nelas estão rabiscos, versos incompletos, jogos de palavras. Alguns são belos, outros incompreensíveis. Outros apenas sugerem. São pedidos de amor numa língua desconhecida. Parecem descosidos, uma alma em pedaços tentando se agrupar.  Reúno os papéis num só maço, alinho-os e penso que cada um deles, isoladamente, é uma parte não rimada de mim. Insisto na harmonia. Maltratado pelo tempo, algo em mim espera e quer acreditar.  A cada dia, aparece algum lugar inabitado, algum sentimento inaudito, e esta esperança pode se mostrar menos irracional. Muitas vezes, são meses sem sequer olhar para o céu. Porém, a cada nova impressão de luz desvelada, é como se me voltasse o mar pela primeira vez. Como se eu pudesse erguer castelos indestrutíveis na areia. Hoje sei que a vida é fugaz e, cerimoniosamente, conto os meus mortos. Também sou feito deles. Não os lamento. Não os choro. Resisto. Sou feito daquilo que me funda e também do que me finda.

Manoel Olavo

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