10 de abril de 2021

ATE MESMO PARA ENLOUQUECER


E pensar que tudo o que vivi até agora, tanto sonho, 

Vai acabar num murmúrio, num pé-de-vento.


E pensar que talvez nem mesmo essas coisas tenham

Existido, sejam somente a amostra de uma pequena


Tempestade cerebral, de emoções desalinhadas

À procura de um sentido em ideias preconcebidas.


E pensar que talvez nem haja você, nem haja Eu

(Esta palavra que cria tantas ilusões e falsas certezas).


Quem é senhor dentro do próprio castelo?

A quem obedecemos, a quem nos reportamos?


E por que a vida nos parece, ao mesmo tempo, 

Igual e desigual, etérea e material, real e imaginária?


Um dia tentei me equilibrar com um pé de cada lado:

Com um pé na dimensão do sonho, outro na realidade.


Foi quando me despedacei de modo irrecorrível,

Dei de cara contra o muro. Até hoje junto pedaços.


Foi quando compreendi que o barco não empurra o mar,

É o contrário. Foi quando compreendi que é preciso


Aconchego, um pouco de serenidade, alguma fonte farta 

De frescor, até mesmo para enlouquecer e ficar à margem.


Manoel Olavo

29 de março de 2021

É ALGO MAIS

 

  

Por que gosto tanto de gostar de você?

É o beijo que me dissolve em sua boca?

É a precisão do gozo, o toque da pele no arrepio?

É o desejo que confunde e dilacera?

É o prazer de implacáveis penetrações?

É tudo isso, mas é algo mais

É a sensação de eternidade a cada instante

É o sentimento de que, por muito tempo, andei sozinho entre pessoas incompreensiveis

Numa floresta de coisas irreais

Mas hoje encontrei alguém da mesma espécie 

(Alguém real)

Uma alma irmã

Que, gentil e furiosa,

Finalmente chegou.


Manoel Olavo

27 de março de 2021

CAMINHO DA MEMÓRIA


 


Percorrer

Passo a passo

A trama do

Vivido

É falso

 

Talvez

Eu junte

Uns seixos

Umas folhas de cajueiro

Pegadas, falas interrompidas

 

Talvez

Haja calor

Sangue, mato, rio

A faca que atravessou

O coração

 

Talvez

Haja muitas

Emoções sem cara

O teto da velha casa

A mãe para sempre morta

 

A cadeira de balanço

As cores débeis

Os livros empoeirados

O que eu disse pra você

(ou achei ter dito)

 

Talvez

Seja tudo isso

O resultado da ausência

De cronologia, da falta

De sentido

 

É no

Caminho

Da memória

Que faço a confusão

Entre real e imaginário

 

À palavra

Cabe a tarefa

Impossível de

Organizar-me

Tanto caos

 

Manoel Olavo

25 de março de 2021

TEOREMA OCULTO


O poeta procura 

Por algum sinal 


Acaso

Vem do céu

Uma resposta?


O corpo é meu

E a alma retorcida


A criação

Uma paródia submissa


Do limite do gozo

À herança da criatura


Fica a distinção

Entre nada

E coisa nenhuma


Manoel Olavo

29 de janeiro de 2021

POEMA DE AMOR SOLTO NO ESPAÇO


Esta mistura de força e fragilidade,

Que lhe faz única e impenetrável,

Requer cuidados extraordinários

Ao lidar contigo. É o fascínio da

Ave pela serpente. Seu rosto sabe

Que um só toque pode matar.

Cada encontro aumenta o risco

De alguém ferir-se no torneio.

Eu e você: vertigem do impacto.

Poema de amor solto no espaço.


Manoel Olavo

POR TI


Por ti cruzei portas de cristal

Juntei o tempo no instante

Por ti fiz ritos ancestrais

Dividi as águas

Nossa carne

O mesmo mapa


Por ti tudo canta

Suave som

De passagem

E de abandono

Vida dádiva

Raiz


Por ti há noite em nós

Nós feitos dela

Eu, único em ti,

Caio a teus pés

E digo: sou o punhal

Sou teu deus capturado


Manoel Olavo

2 de janeiro de 2021

NEM ISSO EU CONTEI


As coisas podem estar mais próximas. Mas, se ficam perto demais, ferem. Proximidade demais machuca. 

Eu tenho a hora da caverna. A hora do morto. Preciso estar em silêncio, a sós, no quarto, num recolhimento protegido. 

 O esforço para aguentar o alarido das coisas, a brutalidade das pessoas, é tanto, que preciso de um tempo para refazer a casca. Pode ser longo. Na maioria das vezes é inútil. 

 Eu sempre sangrei e me desfiz em meio às coisas. Sempre penei no jogo social. Desde que consigo me lembrar, era atravessado pela opulência excessiva delas. 

 É difícil falar sobre este incômodo. Parece haver um pacto entre as pessoas para ignorar isso. Mas eu não assinei. 

 Há 10 anos, parei de tentar. Juntei os cacos, fechei o comércio, vários pelotões tinham sido dizimados, e fiquei ali, sozinho, entre a intenção de ser e a derrocada. Um exército que desiste da ocupação. Eu me tranquei em casa, de um jeito parecido com para sempre. Tirei o fone do gancho. Mandei a moça avisar que eu tinha saído. 

 Tentei aprender a me proteger voluntariamente. Aparecer o mínimo necessário. Fechar o vidro da janela. Tentar o truque de parecer estar ali, não estando. Rasgar o véu das aparências, desvendar a mitologia dos fatos. Descer do pedestal e lamber o chão das derrotas. Ser duro e evitar o encontro, antes de perder sangue. O inferno são os outros. Ele tinha razão. 

 A solidão deixou de ser uma contingência, virou uma escolha. E, conforme eu insistia, a dor de estar ali despido, rachado, traído, distante, só, fez o mal-estar diminuir . Ficou mais confortável. Não foi mérito, não. Foi puro desespero. 

 Contudo, há o preço de estar sozinho. Não assusta, mas provoca desconforto social: uma dor de viés que vem dos outros. 

 O mundo parece uma festa vulgar ao arrepio da lei. Todos parecem estar se divertindo. Todos parecem um destroyer num desfile náutico. Eu vou me virando com meu bergantim. 

Se há algo capaz de irritar é quando todos assobiam, felizes, por cumprir o dever de casa. Pra gente lá fora, é uma festa de corpos e falas. Pra mim, é uma maldição. 

Fiquei trancado dentro de casa, em segredo. Nem isso eu contei. 

 Não quero dar a impressão de que dominei a arte da retirada. Não é isso. Continua sendo tão enigmático quanto era antes, quando eu tinha nove anos de idade e fugia do colégio, assustado, e ficava na esquina olhando a parede, coletando as cinzas. Hoje só entendo melhor. 

 Há 2 anos, voltei a arriscar pequenas incursões ao continente. Expedições de reconhecimento a uma terra desconhecida. Mas o barulho e a brutalidade continuavam. Pareciam ter piorado. 

 No entanto é preciso prosseguir, antes que venham as sombras. Não sei ser amigável. Posso, no entanto, gritar tão alto quanto os demais. Não tem sido necessário. 

 Eu preciso distinguir se o que vejo é árvore ou miragem; se a dor é palpável ou ilusória. Substância demais, pra tão pouco sonho... 

 Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...