25 de março de 2013

SÃO SEUS OLHOS


São seus olhos: você me vê atrás das aparências
Entende meus sonhos, meus silêncios
Minha dor calada, meu fingir-que-eu-posso

Quero de você essa virtude rara
De me fazer maior do que eu sou
De me levar além do que mereço

Por isso te amo e ajo como se não houvesse
O mundo à nossa volta; e só vejo você
Seu olhar, meu guia, estrela polar, Órion

Seu corpo de marfim, o toque de calor
Que me incandesce. Em suas mãos, em sua
Pele clara, eu voo entrecortado de gaivotas.

Viajo na maré de luz, numa revoada
Me sinto como um rei num madrigal
De carícias e posso ser feliz porque te amo

Manoel Olavo

METAPOEMA III



                                               As coisas
                                               Emitem luz

                                 Ignoram distâncias

                                           Estão no meu jardim
                                                  E na
                                                          Macedônia

               As coisas
               São doces
               Prestimosas
               E votivas

                                               As coisas rentes
                                               Ferem o real
                                               As capturadas
                                               Morrem

As coisas revelam
O pacto entre
O divino e o sensual

                                    As coisas
                                         Todas elas
                                           Carregam
                                                  Um pouco
                                                          De mim

Manoel Olavo

15 de março de 2013

EM QUALQUER PARTE


Quando eu era criança
Dormia num
Colchão de palha
Com cheiro de urina
E sonhava com o dia
Em que todos seriam amenos
E diriam coisas verdadeiras
Eu me sentia só
Achava que o mal
Era ter nascido longe
Na beira do pantanal
Junto à grosseria
Dos peões de fazenda
Dos garimpeiros armados
De mulheres que se pintavam
Pra missa de domingo
E telefonavam umas pras outras
Contando os podres
De maridos e filhos
E gente que se visitava
Todo dia à mesma hora
E padres boçais
Que puxavam a orelha
Dos meninos no colégio
E primos boçais
Que puxavam o cabelo
Dos meninos em casa
E o Deus de minha mãe
Que ela disse que punia
E a mãe de minha mãe
Que ela disse que era santa
Mas era louca, isto sim
De noite ficava abraçada
À minha mãe e outros filhos
Com a luz do lampião apagada
Porque via fantasmas cercando
A casa na beira do rio Coxipó
Todos ficavam em silêncio
Rezando pras almas irem embora
Foi minha avó quem deu à minha mãe
O nome de outra filha morta
E lhe disse que elas eram
A mesma pessoa
E eu tive medo disso tudo
E chorei e quis
Fugir dali sair do meio
Daquela gente assustadora
Eu quis viver como
Os personagens dos livros
Mas tive de aprender
A viver calado e só
Olhando pra cima ou pra dentro
Chorando em silêncio
Porque homem não chora
Eu subia em cima do telhado
Pra escapar daquilo
E lia histórias
De gente calma
Com enredo admissível
Mais tarde eu viajei
Vim ao Rio de Janeiro
E vi gente que ria sem medo
E bebia e fumava e ia à praia
E falava de cinema e de teatro
E parecia saber de si e ensinar como
Então eu decidi morar no Rio
Vim estudar e nunca mais voltei
Mas vi que era tudo mentira
Que a gente má e louca
Existe em toda parte
É mais real do que os mitos
Que não falam a seu respeito
E a gente branda está
Onde se possa vê-la
Hoje estou em pedaços
E penso no que sobrou
Após tanto tempo vivo
Há muitas léguas
Da cidade que deixei
Há muito tempo
Da cidade que deixei
E que pulsa em mim
Em desabridos viços
Mas eu fiquei tão só comigo
E sei que a gente má é má
Em qualquer parte
E a dor atualiza o tempo
De viver entre essa gente
Em toda cidade
Onde o sol se por.

Manoel Olavo

16 de fevereiro de 2013

VERSO OU REVERSO


Verso ou reverso              Verso ou reverso
Tudo é segredo                Tudo é espelho

Na outra margem              No lado avesso
Arte é miragem                 Arte é endereço


Manoel Olavo

12 de fevereiro de 2013

O CÍRCULO VAZIO



I

Que gesto garante
A sobrevivência
Do mito?

Buscar
Entre gente núbil
O contorno (inútil)
Do ente cobiçado?

O círculo vazio
Do amor
Feito ausência?

Ausência
Cujo nome
É medo?

Em tudo
A sede de contato
Um exílio

Em tudo
O medo de morrer

II

Antes ceder
A vez
Ao belo
         
Conter
A solidão
Que dói
No ventre

A alma
Que se tranca
Na sala
Escancarada

III

De noite
Um grupo
De palavras
Não se rende

Estrada
Régia de
Antigos viajantes

Eu lhes peço calma
Enquanto traço o
Círculo vazio

A forma vazia
Do ente traduzido

A forma oblíqua
Do ente enunciado

A forma fugaz
De algo que
Não
Basta

Manoel Olavo

10 de fevereiro de 2013

CADA VERSO



Escrevo cada verso

Certo do que desejo.

O mesmo verso vai

E volta, quase nunca

O mesmo, raramente

O primeiro. Plantio,

Colheita, nada disso

Abrevia o processo.

(Despojo que não morre)

Recomeço. Um sentido

Diverso leva o verso
              
Na mão que o escreve.


Manoel Olavo

3 de fevereiro de 2013

RAPAZ



Foi-se o tempo das histórias, rapaz,
Das longas conversas na mesa de bar
Da esperança de ser o que não é

Se pelo menos, rapaz,
Houvesse alguém para conversar

Todos, porém, já foram embora
Ou parecem terrivelmente ocupados

À esta altura do campeonato, rapaz,
Nem a si mesmo este seu riso convence


Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...