2 de fevereiro de 2017

SIGNOS VOLÁTEIS



A página em branco é sua mortalha.
A diferença entre existir e a lenda.
Podemos vencer, cruzar o abismo,
Ir onde as nuvens se desfiam.
O dia inteiro, do alto, virão
Águias e as relíquias do vazio.
Contudo, persiste a mesma falta
De liberdade, a forma protraída,
A espessura irregular com que o mundo
Se apresenta. Apesar do esforço, o cerne
Não se oferece. De noite, tudo escapa
Entre dedos que não sabem
Tirar o véu de coisas conhecidas.
Como aturar o espelho que distorce?
Até o pretenso amor que vai contigo,
O fervilhar de vozes e lembranças
Revividas, tudo isso cessa e se cala.
O que existe é um esforço pra ficar
Dentro de si mesmo, nu, elegíaco,
Mantendo as fibras tensas sob a pele,
Criando matéria com signos voláteis.

Manoel Olavo

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