6 de dezembro de 2013

SIMETRIA DO ALUVIÃO


Clareira
Da mata
Na manhã
Desperta

Choveu forte
Toda a noite

Das copas
Encharcadas
Gotas ainda
Caem

O visgo grosso
Da água
Pende
Da folha
Que se dobra
E desce
Até o chão

A terra
Chupa
O que o mato poreja

O caracol
Escala
A ebúrnea pedra
Nela deixa
Rastro
E desce
Até o chão

Formigas
Formam bola
Vermelha
De milhares
Em cima
D água

O besouro
Rola lama
Vira bosta
O besouro fede

A folha morta
Também fede
Cheiro de marrom
Decomposto

No meio da mata
Água de chuva
Forma um regato

As folhas mortas caem
No leito
Que leva
Planta podre
Água turva
Formiga
Graveto
Seixo

O sujo do mato
Deposita-se
No chão

O galho
Morto
Fica preto
Esfarela-se
Na terra

A água
Sorve sal
Da pedra
Que lenta
Se dissolve

A folha
Vira lodo
E grão
De modo sólido
Se inscreve

O ataúde
Da mata
Rumina
Restos úmidos
Cobre-os de terra

Do oco do pau
Que ali derrete
Vem o podre
Vem o vivo
Que se adensa
Na lama
Que escorre
Ao rés
Do chão

No podre
Pulula
A vida

Medida
Simétrica
Do aluvião

Manoel Olavo

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