10 de setembro de 2020

NO AR


Desfeito em ti 
Tornei-me parte
Do mundo, das
Forças colossais 
Do chão, do ar 
Do mar, da chama 

Eu as ouço, elas 
Estão aqui comigo

Sabedor de ti 
Mesmo sem vê-la
Eu posso te falar
Onde tudo é silêncio 

Eu sei de orvalhos, firmamentos 
Pássaros azuis, anjos dormindo

Capturo os sinais 
Ouço a tua voz sonhando 
Posso decifrar enigmas 
E te querer só minha 

Desejo, meu amor 
Te contar histórias
(Somos emissários delas) 
Tu e eu, leves, no ar 
Entre vagas de astros 

Manoel Olavo 

19 de agosto de 2020

A MENINA E O POETA


A menina e o poeta. Ela era o seu sonho tornado substância. Soube disso quando a viu pela primeira vez. Podia lhe dizer, com tranquilidade: vem. Sua presença é inconfundível. Você chegou como o centro duma galáxia, extinguiu os outros astros, apagou as estrelas adjacentes. Seu lugar estava pronto. Só o silêncio o interrogava.


A menina e o poeta. Dois corpos que, à distância, se comunicavam. Não como posse, mas como sortilégio. Algo que saía dele a alimentava, ia e vinha, e voltava em forma de vida renovada.


Aqui e ali, ele descobria pedaços dela enterrados na sua carne, como camadas geológicas, como dois seres em interseção. Às vezes, ele mal se reconhecia.


Como viver assim sem fronteiras? No entanto, ela o ensinava. Ele, surpreso, aprendia.


Ela era uma presença constante, uma multidão de lembranças. Uma presença líquida que purificava. Uma sede de afagos. Uma festa de abraços. 


Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço? Premissa falsa: podem, sim. A existência é um milagre. Uma aventura.


Como ela podia viver assim, tão sensível, com tanta dor à mostra? Porém, ele sabia a resposta. Ele, que catou os pedaços de si mesmo sob a mesa, no porão, no lixo, no fundo da alma, juntou tudo e limpou o sangue dos cacos do eu em pedaços. Ele sabia a resposta. 


Entretanto, ela já nasceu sabendo. Sabia lutar.


Ela era mais que um curso veloz, que uma fúria, que um grito de abandono. Era um arremate. Uma invasão bárbara. Um risco no céu. A mais real das irrealidades. Ela era o seu êxtase e abismo, seu arabesco de sonhos e desastres. Era uma menina procurando a saída entre os estilhaços.


Talvez ela fosse apenas um ensaio do que o mundo seria se não houvesse tantas armadilhas. Do que o mundo seria se, um dia, a beleza triunfasse.


Manoel Olavo

29 de abril de 2020

PELA PRIMEIRA VEZ



A voz que diz o verso e a canção
Tem repetido mil vezes que te ama

A cada vez que faminto eu te penetro
Uma alegria enorme explode no meu peito

Teu olhar, raio súbito, se congela
Na mais linda imagem jamais capturada

Assim dia a dia nos entrelaçamos
Meu definitivo e meigo amor de ancas largas

Num fabuloso mistério de almas confluentes
Assim suspiro teus cabelos louros e teu ventre

Num desejo puro de quem foi tocado
E finalmente amou pela primeira vez.

Manoel Olavo

24 de fevereiro de 2020

MEU DESEJO REFLETIDO


As coisas que procuro não tem nome.
No entanto, sei que tens todas elas.

As coisas que procuro não são visíveis.
No entanto, sei que tem suas formas e cores.

Sinto medo de ti e deste nosso amor
Que de noite se transforma em saudade e versos.

Porém, só posso dizer te amo, amo, amo
Interminavelmente – para o medo ir embora.

Promete-me que ficarás comigo
Até que o por-do-sol nos surpreenda.

Ainda que não seja um céu de maio
Neste amor que agora amanhece.

Eu saberei te amar, fada, borboleta,
Ser elemental, ventania nas folhas,

Luz fugaz no monte nevado. E verei, dentro de
Teus olhos, num espelho, meu desejo refletido.

Manoel Olavo

ARTIFÍCIO



Além
Após passar o dorso
Pela fresta da muralha

O artifício
A queda no abismo

Pois eu estive lá
Eu vi o dia devastado

Vi o sangue seco
Num corpo de pó e vidro

Vi a caldeira acesa
O peso do silêncio
A noite sem cor da lâmina invisível

Como pude não enternecer o coração?
Como pude ignorá-lo?

Me beijaste e foi muito pior
Do que te haver desejado

Cansado
Após passar o dorso
Pela fresta da muralha

Tudo o que vejo agora é o mar na minha frente


5 de fevereiro de 2020

SOBRE O ABISMO


Em cima da ponte nos equilibrávamos.
Éramos nós dois balançando no vento.
Abaixo era o rochedo nu e escarpas
Sanguíneas. Do céu, uma imensa ave
De rapina nos atacava. Mas
Lutávamos bravamente.
Aquilo que pensávamos ser,
O que víamos um no outro,
(Não o que éramos de verdade)
Haveria de nos salvar.

Manoel Olavo

15 de janeiro de 2020

ALGUM LUGAR



Eu já cantei
Mas hoje
Estou ausente

Talvez aqui
Ou longe
Em algum lugar

Haja um oceano ignorado
Onde o dia arrebente
De tanta poesia

E uma ave possa
Voar em paz:
Efeito das asas

E o amor possa
Vir em paz:
Efeitos das almas

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...