15 de janeiro de 2020
ALGUM LUGAR
Eu já cantei
Mas hoje
Estou ausente
Talvez aqui
Ou longe
Em algum lugar
Haja um oceano ignorado
Onde o dia arrebente
De tanta poesia
E uma ave possa
Voar em paz:
Efeito das asas
E o amor possa
Vir em paz:
Efeitos das almas
Manoel Olavo
11 de dezembro de 2019
LONGA LUA, LIRA BELA
Há belezas
Que pousam
E passam
Que pousam
E passam
Se acomodam
Feito gato
Na poltrona
Feito gato
Na poltrona
Porém
Sua beleza fica
Sua beleza fica
Há almas
Que voam
E roçam
Que voam
E roçam
Como mãos
Que se tocam
Na esquina
Que se tocam
Na esquina
Porém
Sua alma brilha
Sua alma brilha
Há você
E sua voz
Longa lua
Lira bela
E sua voz
Longa lua
Lira bela
Eu te ouço
Inquieto e apaixonado
Me surpreendo e espero
Inquieto e apaixonado
Me surpreendo e espero
Não sei se estou perdido
Ou se afinal fui encontrado
Pelo encanto da sua voz
Ou se afinal fui encontrado
Pelo encanto da sua voz
Manoel Olavo
5 de dezembro de 2019
POENTE
Deus se escondeu num aparato de vidro
E as coisas de mim se despediram
Pois tudo é mortal, o amor passa
E o passado tem a sua hora.
Assim perdi minha inocência.
Ao tribunal, levo comigo
O inferno dos erros repetidos.
Esvaziado e livre de mistérios
Meu olhar finalmente se interroga
Mas, nascituro, pouco vê.
Deus se escondeu de mim
Apesar do esforço dispensado
E o mundo não se transformou.
Exceto essa vontade de esquecer,
De desistir, de explodir na rua,
Dor da minha alma sem rumo
[nem sextante.
Manoel Olavo
2 de dezembro de 2019
CASA
Quando finalmente meu olho descansar
Após deixar a luz do dia
Eu voltarei aos fatos
Meu coração, ao examinar com calma,
Compreenderá o enigma
E nele fará a minha casa
Vão vibrar
A verde cor da árvore
O relevo da casca
O céu o som a terra
O mato - (...)
Volante, um
Pássaro irá
Mostrar
Onde fica
Minha casa
Bem perto
De mim
(Talvez dentro):
A casa que
Tanto procurei
Manoel Olavo
A casa que
Tanto procurei
Manoel Olavo
VIGÍLIA
Ele caminhava pela estrada
A duras penas.
Longe, o ponto de chegada
Estava além de onde se avista.
Em sua direção vinham
Putas, ladrões, contrabandistas,
Viúvas abissais de costas nuas,
Guardas-civis, coachs, youtubers, heróis.
Conforme caminhava, e ia,
Mais longe
Aquilo se tornava.
Não, não é bastante caminhar.
É preciso mais.
É preciso pedir ajuda para que não chova,
É preciso ter alguma companhia,
É preciso sorrir para os passantes,
Ficar de pé, rabiscar uma pedra,
Enfrentar mudanças climáticas.
É preciso partir, partir sempre.
Fazer laços e rompê-los.
É preciso se bastar quando se está exausto,
Derrotado, farto de tudo,
Quando o sol calcina
E não resta um único consolo.
Ele caminhava pela estrada
A duras penas.
A cada passo dado,
O ponto de chegada
Mais longe ficava.
(A proximidade afasta
A hora prometida).
No entanto,
A um possível encontro seu,
Uma tímida esperança florescia.
Manoel Olavo
A duras penas.
Longe, o ponto de chegada
Estava além de onde se avista.
Em sua direção vinham
Putas, ladrões, contrabandistas,
Viúvas abissais de costas nuas,
Guardas-civis, coachs, youtubers, heróis.
Conforme caminhava, e ia,
Mais longe
Aquilo se tornava.
Não, não é bastante caminhar.
É preciso mais.
É preciso pedir ajuda para que não chova,
É preciso ter alguma companhia,
É preciso sorrir para os passantes,
Ficar de pé, rabiscar uma pedra,
Enfrentar mudanças climáticas.
É preciso partir, partir sempre.
Fazer laços e rompê-los.
É preciso se bastar quando se está exausto,
Derrotado, farto de tudo,
Quando o sol calcina
E não resta um único consolo.
Ele caminhava pela estrada
A duras penas.
A cada passo dado,
O ponto de chegada
Mais longe ficava.
(A proximidade afasta
A hora prometida).
No entanto,
A um possível encontro seu,
Uma tímida esperança florescia.
Manoel Olavo
26 de novembro de 2019
ESPELHO IMERSO EM SUAS ÁGUAS
I
Assalto do primeiro
Amor, primeiro gosto
De beijo, primeiro gesto
De estremecimento
II
Minha alma tensa
Consegue ver o sol
Grudado na retina
Clara flor entrelaçada
III
Por que querer-te assim
Com tal precisão de toques
E sentidos? Por que sair
Do mundo das palavras
IV
E percorrer medidas
Saliências saltos sibilas
Onde tudo é corpo e
Nada é conhecimento?
V
Contigo desperto e alcanço
Palavras que a língua não fala
Aliança de iguais e de contrários
Um espelho imerso em suas águas
Manoel Olavo
24 de novembro de 2019
INFINITO
Te olho. Há tanto tempo
Sei que te espero
Mas não digo. A palavra
Dita pesa e desencanta
Antes o gesto de amor
Antes teu sorriso, tua sombra
Antes teus olhos negros
Na beleza espessa do teu rosto
Antes tuas formas perfeitas
Antes a voz que emanas do ventre e verso
Abraça-me. Podes afinal aconchegar-te
(Displicente, pacífica, nua) no meu abraço
O infinito escorrendo de tua fonte,
Serenamente, teu olhar perdido nas estrelas
Manoel Olavo
Sei que te espero
Mas não digo. A palavra
Dita pesa e desencanta
Antes o gesto de amor
Antes teu sorriso, tua sombra
Antes teus olhos negros
Na beleza espessa do teu rosto
Antes tuas formas perfeitas
Antes a voz que emanas do ventre e verso
Abraça-me. Podes afinal aconchegar-te
(Displicente, pacífica, nua) no meu abraço
O infinito escorrendo de tua fonte,
Serenamente, teu olhar perdido nas estrelas
Manoel Olavo
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