12 de novembro de 2016

POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS




Assim, enquanto o mar oscila sob a luz cintilante,
Permanecemos a postos para promover o combate
Das palavras – a perpétua necessidade de contar,
De modo renovado, histórias de fundadores que,
Com seu engenho e arte, delimitaram os muros da
Nossa aldeia. Nada se perdeu, nem quando os bárbaros
Nos acossaram. É clara a nossa lusa cartografia.
Contudo, pudemos expandir os limites do reino
Criado por aqueles que chegaram antes de nós,
(Homens que nos legaram o que sabiam nomear)
E talvez singrar por mares nunca dantes navegados.

Manoel Olavo

11 de julho de 2016

ELA A INTOCADA

Jamais ele tocou
Mas bem conhece
O balcão das cinzas
A voragem das horas
O ouro em pó
Os fenômenos naturais desenfreados
As esculturas imóveis
O prumo que vai e volta
A poeira cobrindo os corpos petrificados

Ameias e colunas guardam a rua 
Protegem os passos lentos 
De arroubos juvenis durante a caminhada
Caem flechas parecendo gotas 
A cabeça no cepo
O elmo o carrasco
No entanto 
Ele se move

Por trás de tudo
O caminho 
(Ritmo único)
Ubíquo signo 
Que ele não imaginava
E sequer tocou
Jamais tocou
Mas bem conhece

Logo 
Abaixo
Ela pende 
E reverbera
Ela: a intocada

Manoel Olavo

30 de junho de 2016

FÁBULA



Enquanto existir a falha
Que se transforme em fábula

Enquanto partir a revoada
Haja rumor nas coisas despertadas

Rumor nas coisas, todas elas
Sussurrando entre fachadas

Transitam matéria e tempo
No golfo cheio de palavras

Gelado mar parte a galope
Por reflexos de prata

A memória de pé, glória amputada
Desabitada ilha, estreito, vaga

Nas lendas do território
O mesmo sol condena e salva

Enquanto eu morro lentamente
No silêncio da noite soletrada

Fale-me do mar, do gosto da
Frase evocada, do sopro de ar

Ocupe a palavra reduzida, densa
Faca contra faca, lata cortando lata

A brasa, a gota, o ritmo da fala
O nome sujo, o anjo sem asa

A palavra advinda, contradita
Cortada à navalha até ser nada

Além daqui é o traço que separa
Édipo da Esfinge, ou de Jocasta


Manoel Olavo

29 de junho de 2016

ESTRANGEIRO

O sol cobriu os edifícios
Do céu caíram cor e cinza
O trânsito afinal andou
Tomaram o rumo de casa
Após anos de peregrinação
Sem pressa, por léguas a fio
Conforme manda a civilização

Eles cruzaram pórticos de vidro
Vestígio de grilhões, caos e cidade
Fria utopia de corpos de acrílico
Em trilhas desiguais proliferadas
Alguns lembraram, tarde demais
Do refúgio oculto onde havia
O estrangeiro à cata da palavra

Refém de sua partitura
O estrangeiro ouvia vozes
Óculos de sol, íris invicta
Som que não podia escutar
Preso no engarrafamento
Matéria ativa que o domina
Apesar da mortal ventania

Manoel Olavo

29 de outubro de 2015

INVENTO PRA VOCÊ



Invento pra você uma ternura
                                  [escondida
Feita de poesia e cacos

Deixo a ternura derramada
Pra quem desfruta mel e pranto

Pra você, amada, dou-lhe
Água, grão e sonho

Dou-lhe riso e limo
E vermes arejando a terra

Mas com você, amada
Porque seus olhos são fêmeos

A ternura se recolhe
Às minhas conjugações do medo

E, assim inocentes
Nós dois caminhamos

Entre mortos, vivos
E desaparecidos

No cara a cara
De um duplo abismo

Juntando fragmentos
E as nossas vidas


Manoel Olavo

11 de setembro de 2015

MANHÃ DILACERADA


Aprende-se bastante vendo uma manhã dilacerada
Cortada em partes desiguais, a teus pés caída
Contei centenas de pedaços diminutos

Triste, doloroso espetáculo

Melhor ficar para sempre
Perdida entre os reinóis
Esta lembrança

Manoel Olavo

10 de setembro de 2015

NO MORE BLUES




Exausto, eu volto ao banal
Ao encargo das palavras
Ao manancial de coisas mal
                        [resolvidas
No mar azul em que me afundo

É preciso viver a vida
(isto é, o pouco que me resta)
Desfrutá-la como
Gente equilibrada

Este sofrimento banal
Este incêndio de gestos
                    [e passos

Não se iluda: esvaziar-se
É pior do que perverter-se

Quem dera
Eu te amasse com ardor
Guiasse a tua alma
Sem nenhum mistério

Quem dera afundássemos
Os dois juntos, embaralhados,
Num mar turquesa,
Não mais azul
No
        more
                 blues


Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...