24 de setembro de 2014

ASSIM SOMOS NÓS

A linha
Indivisível opera
Entre a decisão do nome
E a noite escura lá fora

Prepara frases
Reúne fragmentos
Salva palavras caídas
No precipício

Tesouro imperfeito:
Meu esforço é a
Sua lenta espera

Atenta ela vem
E se apodera
De quem a invoca

A musa em milhões de sóis
                            [imaginada

Assim somos nós
Filhos do mar
Da água e do sal
Presos num deserto
Em busca de poesia

Comensais da palavra
Buscando a loucura
Das sensações


Manoel Olavo

29 de agosto de 2014

JUNTO AO MAR


Nenhum sentido completa
A trajetória iniciada junto
À minha fonte, imagem
Congelada, onda de
Metal, lembrança todo
Dia retorcida. Nenhum
Caminho justifica este
Esforço de Sísifo, nem
A tangível imagem à
Meia-altura, vontade
De algum dia obtê-la,
Ela que, longe, se oculta,
E leva a uma nova viagem
No mar que se abre em
Frente e, em seguida,
Apaga cada pegada num
Golpe de areia e de água.


Manoel Olavo

1 de agosto de 2014

ODE EM FASES



Poesia, eu te sabia
Flor, dor ou até fezes.
Agora eu sei: és fases.
Falar de ti, quem deve?

Amor perdido, corpo
Nu, vã filosofia:
São só modos de usar.
Por que serão poesia?

Por isso eu te segui
Mas estavas na frente
Véu de palavra dada
Céu de pássaro ausente.

Não te conduz a rosa
Tampouco o fingimento.
A mais bela nasceu
Do meu esquecimento.

Manoel Olavo

30 de julho de 2014

DORME AMADA



Dorme, amada
É cedo ainda
Seus olhos devem repousar

Meus olhos semicerrados vêem
A luz se derramando na sua pele

Dorme, amada
Pois zombamos
De que algo nos desfaça

Pensos no céu
Aves azuis, nós dois
(um único ser
 indiviso e ímpar)
Rodamos e seguimos juntos
Dentro da manhã que rompe a treva

Manoel Olavo


22 de julho de 2014

NUM DIA DE OUTONO


Todos os dias de outono parecem iguais
Com seu friozinho agradável, árvores despidas e um céu azul de poucas nuvens

Todas as noites de outono parecem iguais
Com suas chuvas passageiras e o silêncio da escuridão profunda

Nos dias claros de outono a cidade fica enfeitada de folhas mortas
E a limpeza urbana deixa muito a desejar

Nos dias tristes de outono a natureza continua o seu intento
E eu me sinto igual à circundante natureza morta

Nos dias turvos de outono a duração das coisas é lenta
Bem mais do que parece possível suportar

Nos dias de outono os batimentos descompassados do coração
Parecem ensaiar um novo começo de tudo

Num dia de outono, seco e claro, igual a tantos outros,
Eu pude enfim me libertar do sufoco de um amor que não existia 


Manoel Olavo

20 de julho de 2014

SINAIS



ESPERE OS SINAIS

      SÃO SEUS SÓIS

OBJETOS CINTILANTES

      SOBRE NÓS


Manoel Olavo

19 de julho de 2014

RITUAL

Todo dia se encontram.
São como colegiais
Treinando ritos secretos.
Dentro da sala procuram
Seus reflexos no espelho.
Não se vê cor nem ideia.
Pálidas faces sem dor
No assombro da plateia.
Sobreviventes orbitam
Seu vazio em desespero.
Eu os deixo sem pesar.
(Antes solidão que nada)
Parto atrás da estrela tíbia
Da que imergiu lá no céu
No ar, leve, além de mim
Sem luz, porém cintilando.

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...