24 de agosto de 2013

A VIDA INTEIRA



A vida inteira
Refém da morte
Preso na trilha
Da mala sorte

Rasgar o manto
De rei menino
Guiar o barco
Do desatino

Tomar de assalto
A estrela falsa
Erguer o voo
Que a asa alça

Andar às cegas
No seu encalço
Rodar veredas
Com passo falso

Desastre largo
Sem par nem porto
Amar o amargo
No mar da boca

A vida inteira
Saudade louca
Viver na beira
Da vida pouca


Manoel Olavo

4 de julho de 2013

SABIA



Só sei que, de longe, eu te adivinhava
E me adivinhavas do mesmo jeito
(Podias me ver entre a luz e a sombra)

Assim eu sabia do gramado, da varanda, do pé-direito alto
Do telhado, da escada, da mesa de jantar, do edredom branco
Sabia das plantas, do cinzeiro, da estante de livros
Do que te pertencia, menina
Do teu recato

Sabia do jardim que planejavas
Do vaso de jasmim, das flores plantadas
Da lágrima sutil que insiste em cair
De teus olhos

Sabia de você, menina solitária
Sobre a pedra, sempre pensando
Lá onde a dor te enclausurava
E ninguém mais sabia

(Sabia também que  
Tens um jardim silencioso
Que não se pode conhecer)

Eu te sabia com tudo de mim
Com meu amor, minha falta
Eu te sabia como se visse
A primeira estrela em cima dos
                                   [pinhais
Aldebarã, na luz do meio-dia:
Somente tu e o teu segredo


 Manoel Olavo

29 de junho de 2013

ESTRANHA ROMA TROPICAL


Estranha Roma tropical
Onde gladiadores gingam
E a multidão consagra
Seu jogo de futebol

Estranha Roma tropical
Onde senhores fodem
Escravos às escondidas
E bastardos são maioria

Estranha gente rude
Atrás da imagem que
Decifre o enigma de
Euforia e depreciação

Estranho país sem pai
Procurando por um no
Mito sebastianista ou
No drama do folhetim

Estranha Roma tropical
Rito de dança e suor
Banzo dentro da alma
Tira o gosto de pensar

Estranha Roma tropical
De povo multicor sem
Medo do ridículo, tribo
Imersa, abismo, incêndio

Estranho mito cordial
Onde o coração comanda
O coqueiro que dá coco
No sufoco à beira mar

Estranho arco-íris do caos
Sonhando ser New Jersey
Dores de latinoamérica
No novo cenário em HD

Estranha Roma tropical
Insulfilm na casa grande
Gangues de aventureiros
Sem fé sem lei sem rei

Estranha Roma tropical
Mesquinha e opulenta
Seu amor incomparável
É uma ilusão de ótica


Manoel Olavo

15 de junho de 2013

PAISAGENS


São paisagens diante

Dos meus olhos

Paisagens móveis

Enquanto luzes piscam


Paris Genebra

Meca Bogotá

Vida noturna

Num boulevard distante

E as pedras


Passam civilizações

Estátuas desossadas

O êxtase do sábio

Descobrindo a fórmula

O glossário dos mitos


O lento caminhar

Por ruas de sal e vício

O sacrifício das virgens

Pilhas de corpos

Dizimados pela peste


A morte

Sempre faminta

Seu rugido surdo

A tudo sobreposto


Meu corpo frágil e nu

Estuário de maldições

Rolando entre as bestas

Que destroem monumentos


Meu corpo frágil e nu

Junto do seu

Ao arrepio da lei

E do tempo


Manoel Olavo

12 de junho de 2013

QUANDO CHEGUEI


Quando cheguei a festa tinha acabado:
O coração do texto estava à mostra,
Todos os estilos concluídos.

Quando cheguei eles faziam
Outra coisa, panfleto identitário, formalismo russo, exegese construtivista,  por aí.

Quando cheguei, pra variar,
O melhor da festa já tinha acabado
- Tem sido assim, na minha geração.

Quando cheguei, não havia lágrimas,
Salvo as de minha infância
(Embora a infância, em si, não seja poesia).

Mas as primeiras lágrimas são únicas.
Depois é a tentativa de chorar de novo,
Ou de fazer poesia como da primeira vez.


Manoel Olavo

3 de junho de 2013

FIO DA ADAGA


A vida inteira
Cercado
Pela morte

Inocente
Eu via

Guerras
Reinos
Glórias

Na ilusão
De ganhar

Vi o
    Sangue
        No fio
            Da adaga


Manoel Olavo

31 de maio de 2013

CALOR



Como transformar lava em pedra? É preciso tempo para que o calor dissipe. É natural que seja assim. O processo pode durar centenas de anos. Assim acontece na natureza. Mas não tenho tempo para isso. Minha combustão é imediata. Cada ação me cerca com um tornado de fogo. Só resta a incandescência de emoções desencontradas. Aprendi que o calor tem efeito contagiante. Emoções em fogo alimentam-se uma das outras, atraem labaredas parecidas. Um incêndio de grandes proporções. Minhas opções são limitadas. Ficar calado. Fingir que ignoro. Ou queimar no jorro de emoções a milhares de graus. Sorrir, enquanto viro cinzas. Por instantes, eu abomino a vida e sinto a nostalgia de um estado mineral.

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...