16 de janeiro de 2013

POR DO SOL




Num salto mortal

Luz dourada

Entre os edifícios

Na cidade feita

De metal e vidro

Meu corpo em cacos

Cai sobre a calçada

BLAM!

Mas ninguém se toca


Manoel Olavo

16 de dezembro de 2012

A VIDA INTEIRA




                                  “Omnes feriunt. Ultima necat”.


A vida inteira
Cercado pela morte
Ofuscado eu via

Águas águas
Aves mortas
Sinais esparsos

A vida inteira
Cercado pela morte
Eu evitei
Tamanha altura

Amar-te e morrer
É o que importa
Poder olhar-te

São anjos?
Legiões?

Não. São pássaros
Batendo as asas
No último suspiro


Manoel Olavo

14 de dezembro de 2012

NO DESESPERO


No desespero
Não sei se ouso
Não sei se uso
Não sei se sonho

No desespero
Não sei se tento
Não sei se dentro
Não sei se fora

No desespero
Não sei se rondo
Não sei se rumo
Não sei se bossa

No desespero
Não sei se espelho
Não sei se inteiro
Não sei se agora


Manoel Olavo

25 de novembro de 2012

PROJETO



Cercado de brasas e sombras
Livro-me de ti; hei de viver
Sem tua inédita presença

Cansado, eu volto ao bar
Ao exercício das palavras
Ao mar azul em que afundo

É preciso encontrar a vida
Fruí-la, vivê-la de verdade  
(Isto é, o pouco que me resta)


Manoel Olavo

22 de novembro de 2012

NUM ÚNICO PONTO



E todas as coisas se condensaram
Num único ponto. Ali estava a vida
Inteira, resumida, pormenorizada.
O tempo desabou, como grama  
Cortada pela lâmina da adaga.  

Acabou o esforço inútil de buscar
A identidade, a explicação, a parte
No todo, o antes e o depois. Domada,
A necessidade passou, o seu peso
Ficou leve. A luta se encerrava.

Livre, tomado de luz, eu caminhei
O mais silenciosamente que pude.
Não compreendi o que podia ver.
O que chegava à minha pupila
Era o reflexo anterior de tudo.


Manoel Olavo

6 de novembro de 2012

NÃO SE SUICIDE


I

Espere, não quero
Que você se suicide

É preciso estar
Entre os viventes

Talvez devesse
Ficar em casa
                                                                                                 
Longe do laço 
Mortal dos afetos

Expandindo
O seu silêncio

Parece pouco, eu sei
(A eternidade que consola)

Um flanco aberto
Na cadeia de contrários

Lá, mais uma vez,
Irá brotar angústia 

II

O amor vem
Em meadas

Convoca e,
Depois, esmaga

Talvez viva de
Histórias desfeitas

III

Pouco a pouco
Voltará ao mundo

Sublunar, coberto
De escombros

Pouco a pouco
Voltará ao mundo

Feito para resistir
Ou ficar à margem

Questão de tempo
E de vocação caseira

IV

Há uma fome
          Em mim
E ela prenuncia

Outra forma:
O fora da lei

A fagulha no
Raso do rio

O gozo antes
Do último grito

O vazio antes
De qualquer origem

V

Espere, não se suicide
Faz sol em seu poema


Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...