22 de abril de 2011

SONETO DA PAIXÃO PERMANENTE


Por mais que a distância pareça grande
E a passagem do tempo nos divida
A paixão que guardo, a ti prometida,
Ao invés de reduzir, cresce e se expande.

Se eu pude compreender desde o começo
Que o laço a nos unir nos antecede,
Como ocultar-te meu querer, a sede
De encontrar a quem amo e não esqueço?

Assim como as águas, as estações,
O dia, a noite, o vai-e-vem dos astros,
Tudo tem sua duração. A semente

Gera ciclos sobre ciclos. As paixões
Nascem, vivem, morrem, sem deixar rastros.
Nossa paixão, no entanto, é permanente.

Manoel Olavo

21 de abril de 2011

OLHAR DE LÂMINA



Não sei se isso existe:
Um olhar de lâmina.
Caso não exista
Invento pra você.

Não sei se houve tempo
De acender a luz
Dizer eu te amo
Como deve ser.

Tentei ir pra longe.
Junto a mim, meu fado
Ia, me trazendo
De volta a você.

É mais do que amor,
Que o vento do mar
Logo desarruma.
É matéria una,

Única utopia,
Nova captura
De corpos unidos
Na concepção.

Haja o que houver
Saberei agir
Para merecer
Seu olhar de lâmina.


Manoel Olavo

20 de abril de 2011

SEDE


Sede, sede: oculto mar
Na superfície das coisas.
Há um turbilhão de mundos
Dentro do mundo que vemos.
Eu vejo o mar. Seu tapete
Verde e luminoso leva
As naus além do horizonte
Atrás de ilha ou amor
Capaz de haurir minha sede.

Manoel Olavo

12 de abril de 2011

A FOFA FOCA E A FOFOCA DO GATO



Era uma vez
Uma fofa foca
E um gato siamês
Que adorava fofoca.

“Qual de vocês
Comeu a pipoca?” -
Perguntou Maroca,
A mãe de Valdez.

(Valdez é o menino
Que conta esta história.
Ele mora na Glória
Com a foca e o felino)

“Foi a fofa foca
Quem comeu tudinho!” -
Lá de sua toca
Gritou o gatinho.

“Mentira, bichano!
Só como o que posso.
Sou de bom tamanho
Mas não roubo almoço”

- Disse a fofa foca
Danada da vida:
Como pode o gato
Fazer tanta intriga?

O gato siamês,
Cheio de potoca,
Disse: “vou provar!”
E saiu da toca.

Então da sua boca
Caiu, bem branquinho,
Um grão de pipoca
Sobre o chão lisinho.

Disse a fofa foca,
Rindo pra valer:
“Vai provar o quê?
Só se for ... pipoca!”

A Dona Maroca
Deu uma gargalhada.
Viu que a fofa foca
Não era culpada.

Também deu risada
O esperto Valdez
Da grande mancada
Do gato siamês.

Vovó já dizia
Que um gato na toca
Toda vez que mia...
- Quer comer pipoca!

Manoel Olavo

RENÚNCIA


Eu sou mais um
Mas viverei em muitos

Renuncio a mim
A esta confusão na sala

Esforço inicial para subir
E ver o sol nascer

Na vastidão
Das cenas desabitadas

Manoel Olavo

BRASIL

No Brasil
O real não reina

A razão
Não basta

A aritmética
É puro improviso

O caos 
Usa fantasia

O caso aqui
É muito sério

Algo a se pensar
Até agosto

Na aurora
Serão ruínas

Manoel Olavo

11 de abril de 2011

TALHADA NO GRANITO



I

Sobre
O papel
Lançar o eco

De velhas ternuras
E sombras ao redor

Lírica de abismo
Talhada no granito

Viver entre paisagens
Distingui-las, olhar

O fio de âmbar que desce
Pelo lado da montanha

E tem a cor dos olhos
Da primeira namorada

E tem o tom da pele de
Outra, meio esquecida
                       
Gota da fonte perdida
No rochedo da memória

II

Susto de estar, alvo fixo
Preso na armadilha

Longe de qualquer
Abrigo confortável

Consolo: de
Manhã, acordar

Sem sangue nas mãos
Sentindo-se viável

(Viável quer dizer
 Capturado)

A muitas milhas
De onde sequer
Imaginou


Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...