Se te sigo
(Isso eu faço
Há muito tempo)
É a mim que dispo
E defronto
Se te aguardo
É a mim
Que sigo
Enquanto sonho
Te despir
Sou quem anseia
Assim eu te vi
Perto de mim
Quando de longe
Te seguia
Manoel Olavo
4 de abril de 2010
TARDE DEMAIS
I
Tarde demais
Eu lhe disse
a verdade:
Não te amo
Não te quero mais!
Vou partir em meio à multidão
desconsolada
Na estreita e vaga luz que me constrange os órgãos
E pedirei reforços
Queimarei meus pés em betume e versos brancos
O prédio
O mar azul
Seu sorriso nunca antes adiado
Eu fatiarei as nuvens
Fritarei em óleo
a sua carne tenra
Convidarei velhos amigos
O olho estreito a rua lotada
A multidão à nossa volta
Gente revirando os restos
A face noturna do real
Sempre pedindo mais
II
Ainda penso em você
No calor dessa calçada antiga
O dia passa
Vem o ocaso do desejo
Traz mais uma vez
Memórias sem notícia
A noite vela
O corpo dela tão inocente
Um vidro fumê na alma
Os segredos
Em momentânea suspensão
Ah eu poderia ver
Como se fosse
Uma primeira vez
O que me importa
Poderia ver
Em lâminas
O acontecido
A hora impossível
O eclipse
Tão logo o sinal
De novo se fechasse
A multidão
Se detivesse
Tão logo a lua
Brilhando cores indistintas
Acelerasse a melodia
A trilha fugaz onde caminho
Tão logo despertasse
A besta-fera
Que há em nós
III
Vestígios:
Agora tudo deu errado
Agora
Inês é morta
A manhã segue como um féretro
Eu me calo
À beira da calçada antiga
Tento achar
a solução do enigma
a resposta
Tarde demais
Ela me deixa
O verbo encarnado
A face sem contorno
Assim como veio
Parte
IV
Entreaberto o peito
Restam as lágrimas
E outros fluidos corporais
Súbita estiagem
Na alma em chamas
Breve virá o construtor
V
Liberto das coisas
de sua constante antevisão
Desço ao fundo
de mim
e me recordo
Da medida avessa e crua
Porém minha
Do pintor das ruas
Do eleito dos ares
O bravo lutador
Um romance cheio de alegorias
Desço ao fundo de mim
me contemplo
me revejo ali
ao largo
Há pele suor corpo pêlos
Escotilhas que se fecham
Há uma medida avessa e crua
meio perdida
Porém minha
Nascida de turbulentas fundações
Matéria agridoce
Delírio verbal e agonia
Sei disso como sei dos
Passos duma pequena teodicéia
Que tece novo acordo
E segue à beira do infinito
Manoel Olavo
2 de abril de 2010
LARANJAIS
Peço licença para sentar do seu lado
E a cabeça reclinar suavemente
(O sonho está comigo, eu o carrego)
Meus olhos já viram morrer flor e Império
Meus olhos doem de dor e júbilo
Vêem cores cativantes, que partem...
Peço licença para lhe falar um pouco
Quem sabe ousar um canto, um tímido relato;
Eu quis andar a sós em nuvens de sono
E a argila do tempo veio e fez-se pedra.
Fez-se pedra viril, inconteste – e todos os amores
Vãos, os segredos inconfessáveis, todos eles...
Todos os enganos, os beijos negados...
As horas de adeus nunca previstas...
A ingratidão, o biscoito de polvilho
Sua alma, seu jardim, a inocência do pássaro
Os dias em que eu brincava de caubói
Os risos de manhã, os cabelos de franja
O gosto de jabuticaba, os seixos...
O rio, ah, o rio: engenho e artefato de tantas horas...
Muita coisa para lhe contar mas o dia já chega
Tudo está aqui, nosso coração secreto, uma paliçada
No entanto o tempo volta e nos carrega
E eu desabo hoje do seu lado, alheio
E vem este silêncio sobre laranjais ocultos.
Manoel Olavo
E a cabeça reclinar suavemente
(O sonho está comigo, eu o carrego)
Meus olhos já viram morrer flor e Império
Meus olhos doem de dor e júbilo
Vêem cores cativantes, que partem...
Peço licença para lhe falar um pouco
Quem sabe ousar um canto, um tímido relato;
Eu quis andar a sós em nuvens de sono
E a argila do tempo veio e fez-se pedra.
Fez-se pedra viril, inconteste – e todos os amores
Vãos, os segredos inconfessáveis, todos eles...
Todos os enganos, os beijos negados...
As horas de adeus nunca previstas...
A ingratidão, o biscoito de polvilho
Sua alma, seu jardim, a inocência do pássaro
Os dias em que eu brincava de caubói
Os risos de manhã, os cabelos de franja
O gosto de jabuticaba, os seixos...
O rio, ah, o rio: engenho e artefato de tantas horas...
Muita coisa para lhe contar mas o dia já chega
Tudo está aqui, nosso coração secreto, uma paliçada
No entanto o tempo volta e nos carrega
E eu desabo hoje do seu lado, alheio
E vem este silêncio sobre laranjais ocultos.
Manoel Olavo
29 de março de 2010
OLHOS VERDES

Qual será o verde de seus olhos
Que eu conheci à luz noturna?
Faísca, cintilação do mar,
Esmeralda, palma, turmalina?
Não pensei tão cedo encontrar
Esse brilho solar, cor de limão,
Luz costeira, farol preciso, olho
De gato, íris, gema preciosa?
As palavras que eu digo
Perdem-se em sua beleza.
Bóiam, brilham, renovadas.
São centelhas sobre a mesa:
Verdes certezas, como a de seu olhar
[aqui.
Manoel Olavo
28 de março de 2010
RIO DE JANEIRO
25 de março de 2010
PANDORA
Bastou ela chegar
Para ser minha
Suave murmurar
De rios e águas
Sua maciez
Líquida e morna
Vai tragar
A minha alma
Enlevá-la
Arrebatá-la
Na noite desmedida
Entre sombras
Me desfaço
Minha alma irá
Fluir no leito nu
Descer encostas
Encher vales
Fazer brotar um continente
Onde nada havia
Avistá-la
Ó fonte minha
Será também perdê-la
Jorro de
Pérolas aos mortais
Migalhas dum banquete
Sagrado
Manhã cálice portal
Caixa de Pandora
Eu feito água
Ela feito musa
A roer os ossos
Dissolver a carne
E chorar a lenta lágrima
Manoel Olavo
23 de março de 2010
REVELAÇÃO
Então, ele se recostou na montanha
Chorou os filhos que não nasceram
As sementes que não germinaram
As páginas e páginas escritas
Na linguagem maldita dos afetos
No ajuste de letras e palavras
Reunidas como sinais de mágoa.
Então, ele aceitou a longa espera
Se ambientou por entre os mortos
Umedeceu os lábios de pavor e sede
E se viu bailar aos rodopios nas
Entranhas consagradas ao último dia
Enquanto insetos e o luzir de astros
Tingiam de prata o arco celestial.
Então, como lhe restasse alguma sorte
Fingiu-se distraído e, de um só golpe,
Capturou as vozes que espreitavam o incerto
Que invocavam sonhos, manipulavam corpos
Ensinando um jeito novo de domar as trevas.
Longe demais, sem ele, a canção do tempo
Não se fez calada, nem expressa: apenas ruiu.
Então, num lampejo ele se pôs de rastros
Mero estilhaço das visões alheias
Longe das paixões e cismas de sua aldeia
Sem saber por que tanta aflição havia
Nos que lá moravam: os dóceis, os que não
Sabem entender, nem entram na neblina
Onde ruge indômita a desordem
Colossal do Reinado de Mercúrio.
Então, um silêncio hierático caiu sobre
Os passantes, sobre a humanidade inteira.
Ele viu, claro demais, as palavras
Soarem densas, o tempo escorrendo
Por suas mãos, os dedos trêmulos
E longos tocarem a maciez das horas
O recesso das coisas, a tessitura do universo
O olho, o centro, o âmago do Mistério.
Então, se fez profunda a dor em seu olhar
Que antes era terno. E o silêncio das
Horas perguntou de onde lhe vinha
Tanto desalento, tanta perdida sonoridade
Tanto desprezo pelas coisas do homem
E da vida que, indiferente a este fato,
Jorrava farta e se alastrava na agonia
Dos sobreviventes da felicidade.
E isto foi tudo:
Era só um frágil passageiro
De um tempo em que pareceu
Haver sinais...
Manoel Olavo
Chorou os filhos que não nasceram
As sementes que não germinaram
As páginas e páginas escritas
Na linguagem maldita dos afetos
No ajuste de letras e palavras
Reunidas como sinais de mágoa.
Então, ele aceitou a longa espera
Se ambientou por entre os mortos
Umedeceu os lábios de pavor e sede
E se viu bailar aos rodopios nas
Entranhas consagradas ao último dia
Enquanto insetos e o luzir de astros
Tingiam de prata o arco celestial.
Então, como lhe restasse alguma sorte
Fingiu-se distraído e, de um só golpe,
Capturou as vozes que espreitavam o incerto
Que invocavam sonhos, manipulavam corpos
Ensinando um jeito novo de domar as trevas.
Longe demais, sem ele, a canção do tempo
Não se fez calada, nem expressa: apenas ruiu.
Então, num lampejo ele se pôs de rastros
Mero estilhaço das visões alheias
Longe das paixões e cismas de sua aldeia
Sem saber por que tanta aflição havia
Nos que lá moravam: os dóceis, os que não
Sabem entender, nem entram na neblina
Onde ruge indômita a desordem
Colossal do Reinado de Mercúrio.
Então, um silêncio hierático caiu sobre
Os passantes, sobre a humanidade inteira.
Ele viu, claro demais, as palavras
Soarem densas, o tempo escorrendo
Por suas mãos, os dedos trêmulos
E longos tocarem a maciez das horas
O recesso das coisas, a tessitura do universo
O olho, o centro, o âmago do Mistério.
Então, se fez profunda a dor em seu olhar
Que antes era terno. E o silêncio das
Horas perguntou de onde lhe vinha
Tanto desalento, tanta perdida sonoridade
Tanto desprezo pelas coisas do homem
E da vida que, indiferente a este fato,
Jorrava farta e se alastrava na agonia
Dos sobreviventes da felicidade.
E isto foi tudo:
Era só um frágil passageiro
De um tempo em que pareceu
Haver sinais...
Manoel Olavo
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