17 de setembro de 2021

VIGÍLIA




Ele caminha pela estrada.

Longe, o ponto de chegada

Fica além do que se avista.

Em sua direção vem

Putas, contrabandistas,

Fantasmas, viúvas abissais de costas nuas,

Guardas-civis, coachs, youtubers, heróis de araque.

Conforme caminha, e segue,

Mais longe

Aquilo fica.

Não, não basta caminhar.

É preciso mais.

É preciso torcer para que não chova,

É preciso ter alguma companhia,

É preciso sorrir para os passantes,

Ficar de pé, rabiscar numa pedra,

Enfrentar terrores, tremores, tempestades. 

É preciso partir, partir sempre.

Fazer laços e depois rompê-los.

É preciso se bastar quando se está cansado,

Derrotado, farto de tudo,

Quando o sol queima

E não há consolo.

É preciso cuidar de si,

Sem deixar os outros.

Ele caminha pela estrada

A duras penas.

A cada passo dado,

O ponto de chegada

Mais longe fica.

(A proximidade afasta

A hora prometida).

No entanto,

A um possível encontro seu,

Uma tímida esperança floresce.


Manoel Olavo

15 de setembro de 2021

NÃO

 



Não.

Não me diga que irá passar

E tudo voltará ao seu lugar.


Tem sido justamente este

O problema do meu país:

As coisas continuarem em seu lugar.


Os criminosos não são julgados

Os mentirosos não são desmascarados

Os miseráveis não são saciados de sua fome

De pão e conhecimento. 


Continuamos funcionando

Como uma enorme arapuca

De desigualdade, destruição e privilégio.


Não.

Não me faça acreditar

Que somos o país do entendimento 

Porque o chão está encharcado 

Do sangue de gerações passadas.


Nossos pacificadores foram genocidas.

Nossos desbravadores foram assassinos

De povos e de culturas, escravizadores

E traficantes de negros d'África.


A nossa elite ainda tem a mesma empáfia 

Do sinhô que, de noite, sorrateiramente, 

Ia até a senzala para estuprar a negrinha recém-comprada.


Não. 

Não me fale de honestidade,  de corrupção. 

Estas palavras tem sido desvirtuadas 

Para alimentar o sentimento antipovo e a despolitização da classe média 

(Que se acha branca, honrada e superior).


Ela que, como os capitães do mato de antigamente,

Sonha algum dia tomar café na varanda do casarão do Coronel.


Não. 

Não me fale mais de acordos e concessões.

O país está cansado. 

O país está destruído.

Uma praga tenebrosa

Se apoderou de nós

Em nome de Deus, Pátria e Família

E devastou florestas

Queimou animais 

Matou 600 mil pessoas

Destruiu a ciência, a universidade,  a cultura, 

Deixou milhões de pessoas sem trabalho e sem ter o que comer

E encheu de ódio a alma ressentida 

De milhões de brasileiros. 


Não. 

Há um limite para tudo

E ele foi atingido

No dia em que escolheram

Um deputado miliciano 

Para Presidente da República.


Alguém que dedicou seu voto

No golpe parlamentar de 2016

A Carlos Alberto Brilhante Ustra,

Chefe do DOI-CODI paulista,

Talvez o mais sádico torturador 

Da ditadura militar. 


No dia de seu voto infame,

Este homem não foi punido,

Muitos até o admiraram, 

Para que tudo continuasse em seu lugar.


O golpe se consumou

E depois ele foi eleito presidente da República 

Com o voto de pessoas que achavam

Que ele era honesto

Que no tempo da ditadura havia

Ordem e segurança

E que, finalmente, 

Tudo voltaria ao seu lugar.


Não. 

Não há mais tempo para transigir.

Não é mais possível perdoar.

Não é mais possível esquecer.

Que a rapina deixe de ser a regra

E a miséria da maioria deixe de ser

Uma condição natural. 


Decididamente 

É preciso que se quebrem as correntes 

Para que tudo saia de lugar.


E, do esgoto imundo da conciliação, 

Da expiação de um falso mito assassino, 

Surja afinal uma Nação. 


Manoel Olavo

11 de maio de 2021

O AMOR É QUEDA



Durante muito tempo pensei que o amor era preenchimento do vazio. Era busca de complementariedade.

O amor, se verdadeiro, seria um encontro de equivalências, de franjas harmônicas. Uma tranquila e previsível correlação de corpo e alma num par amoroso.

O amor, pensava, era o reverso do espelho de Narciso.

Hoje vejo que não.

Eu estava errado.

O amor não é preenchimento, nem encaixe.

O amor é queda e dissolução.

O amor é queda no abismo. Uma queda imprevista, que desorienta e atordoa. Nela, a palavra amorosa silencia.

Amor é aquilo que puxa o tapete sob nossos pés e nos lança na indecisão da neblina.

Amor é que faz desmoronar certezas, as reduz a pó. É o que nos toma e arremessa, como tempestade, como erupção de lava.

O amor é um lugar ao qual somos levados em silêncio, e aceitamos esse caminho, pois não é possível compreender, nem esboçar qualquer resistência. Apenas seguimos em frente.

Amor é o que desmonta. É o que faz em pedaços e, ao mesmo tempo, ampara novas certezas. É o que permite brilhar novas evidências e ver o que era invisível aos olhos. Aquilo que estava oculto pela ideia distorcida de um amor que não era queda, incêndio, despedaçamento, mas mera convenção.

O amor, quando de fato se apresenta, é inegável, e dispensa as palavras amorosas. Sua presença é tátil, corpórea, sensível, embora improvável.

O amor é dissolução. É atravessar um território selvagem sem mapa, e depois dessa travessia, nunca mais ser o mesmo.

Foi o que finalmente aprendi. O amor é queda.

Não impõe luta, nem condições. Reluz, cintila, e tudo se cala.

O amor é fruto do mais profundo silêncio. 


Manoel Olavo

10 de abril de 2021

ATE MESMO PARA ENLOUQUECER


E pensar que tudo o que vivi até agora, tanto sonho, 

Vai acabar num murmúrio, num pé-de-vento.


E pensar que talvez nem mesmo essas coisas tenham

Existido, sejam somente a amostra de uma pequena


Tempestade cerebral, de emoções desalinhadas

À procura de um sentido em ideias preconcebidas.


E pensar que talvez nem haja você, nem haja Eu

(Esta palavra que cria tantas ilusões e falsas certezas).


Quem é senhor dentro do próprio castelo?

A quem obedecemos, a quem nos reportamos?


E por que a vida nos parece, ao mesmo tempo, 

Igual e desigual, etérea e material, real e imaginária?


Um dia tentei me equilibrar com um pé de cada lado:

Com um pé na dimensão do sonho, outro na realidade.


Foi quando me despedacei de modo irrecorrível,

Dei de cara contra o muro. Até hoje junto pedaços.


Foi quando compreendi que o barco não empurra o mar,

É o contrário. Foi quando compreendi que é preciso


Aconchego, um pouco de serenidade, alguma fonte farta 

De frescor, até mesmo para enlouquecer e ficar à margem.


Manoel Olavo

29 de março de 2021

É ALGO MAIS

 

  

Por que gosto tanto de gostar de você?

É o beijo que me dissolve em sua boca?

É a precisão do gozo, o toque da pele no arrepio?

É o desejo que confunde e dilacera?

É o prazer de implacáveis penetrações?

É tudo isso, mas é algo mais

É a sensação de eternidade a cada instante

É o sentimento de que, por muito tempo, andei sozinho entre pessoas incompreensiveis

Numa floresta de coisas irreais

Mas hoje encontrei alguém da mesma espécie 

(Alguém real)

Uma alma irmã

Que, gentil e furiosa,

Finalmente chegou.


Manoel Olavo

27 de março de 2021

CAMINHO DA MEMÓRIA


 


Percorrer

Passo a passo

A trama do

Vivido

É falso

 

Talvez

Eu junte

Uns seixos

Umas folhas de cajueiro

Pegadas, falas interrompidas

 

Talvez

Haja calor

Sangue, mato, rio

A faca que atravessou

O coração

 

Talvez

Haja muitas

Emoções sem cara

O teto da velha casa

A mãe para sempre morta

 

A cadeira de balanço

As cores débeis

Os livros empoeirados

O que eu disse pra você

(ou achei ter dito)

 

Talvez

Seja tudo isso

O resultado da ausência

De cronologia, da falta

De sentido

 

É no

Caminho

Da memória

Que faço a confusão

Entre real e imaginário

 

À palavra

Cabe a tarefa

Impossível de

Organizar-me

Tanto caos

 

Manoel Olavo

25 de março de 2021

TEOREMA OCULTO


O poeta procura 

Por algum sinal 


Acaso

Vem do céu

Uma resposta?


O corpo é meu

E a alma retorcida


A criação

Uma paródia submissa


Do limite do gozo

À herança da criatura


Fica a distinção

Entre nada

E coisa nenhuma


Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...