2 de janeiro de 2021
AS COISAS
27 de dezembro de 2020
ORFEU
Cansado de dormir e de acordar
Sonhando-te, meu jugo e aspereza
Que verso há de cantar o que queremos?
Não pude te tocar, amor, não pude
Não pude ser nem pássaro nem pluma
Não pude ser nem sândalo nem chuva
Por que sopras assim, ó brisa ambígua?
Acostumada estás a natureza
A refletir a sós entre os pinheiros
A dominar dragões sobre as escarpas
A ler no vendaval no fim do dia
Difusas folhas brancas que tracejam
Escritas formas vagas de desejo
E modos de não ser somente minha
Tu és embriaguez sobre meu dorso
Vinhedo na estação de luz e sombra
Cintilam em mim partículas de canto
Um anjo há de pairar sobre a calçada
Saudade é despertar vendo-te morta
Se não fosse perder a protegida
Se não guardasse Orfeu a antiga forma
Perdíamos de vez a voz e a lira
Sonhar, mais que viver - eis o que somos.
Manoel Olavo
18 de dezembro de 2020
NADA
Nada.
Nem o
Apelo à musa.
Nem o lilás
Fruto maduro.
Nem a nota que
Completa a melodia.
Nem o sonho
Dentro d´água.
Nada
Te mostrará
A palavra
Certa.
Não há gesto
Que garanta
O encontro.
Apenas
Despe-te.
Sintas fome e sede
Como os bichos
E sejas tu.
Não há outro
Caminho.
A não ser
Despir-te
E se deslumbrar.
Manoel Olavo
4 de dezembro de 2020
PENSAVA NELA
28 de novembro de 2020
POEIRA E ESFINGES
Por ora fica adiada a primavera
Fica suspenso o espetáculo
Não colherá jamais
A indestrutível rosa
Não suportará tanta
Tortura e lágrimas
Que espera você das coisas
Se elas desmancham ao toque das mãos?
Se elas pendem indiferentes
E se quebram como vidro?
É preciso agir de outro jeito
Pensar uma nova ordem
A natureza tece tramas desiguais
E seus olhos veem cores primárias
A mão do mal pousa do seu lado
Mas você nem ao menos percebe
Como um ser tão imperfeitamente formado
Deseja flutuar por nuvens à deriva?
A vida aqui desembarca
Sua dor entre coortes
A paz é o caminho que aplaca
Sua febre sem remorso
Seu mapa de ruínas
Seu juízo torto de erros cometidos
E pra você, que só vê
Poeira e esfinges
Qualquer instante de luz
Será inútil e indecifrável
Lúcifer disfarça
Ser o preferido de Deus
Manoel Olavo
21 de novembro de 2020
MUDAS DE ROMÃ
Como quem planta mudas de romã
No terreno para isto destinado
Hei de ficar, exato e coerente,
Rente ao silêncio, à espera de você
Como quem planta mudas de romã
Cultivo o verso pacientemente
(Isto, que me revela e me esconde
E me leva para junto de você)
Manoel Olavo
NÃO SE SUICIDE
I
Espere, não quero
Que você se suicide
É preciso estar
Entre os viventes
Talvez fosse melhor
Ficar em casa
Longe do laço
Mortal dos afetos
Expandindo
O seu silêncio
Parece pouco, eu sei
(A eternidade que consola)
Um flanco aberto
Na cadeia de contrários
Lá, outra vez,
Vai brotar a angústia
II
O amor vem
Em meadas
Convoca e,
Depois, esmaga
Talvez viva de
Histórias desfeitas
III
Pouco a pouco
Voltará ao mundo
Sublunar, coberto
De escombros
Pouco a pouco
Voltará ao mundo
Feito para resistir
Ou ficar à margem
Questão de tempo
E de vocação caseira
IV
Há uma fome
Em mim
E ela prenuncia
Outra forma:
O fora da lei
A fagulha no
Raso do rio
O gozo antes
Do último grito
O vazio antes
De qualquer origem
V
Espere, não se suicide
Faz sol em seu poema
Manoel Olavo
VENTO ELÍSIO
Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...
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Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...
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Espalha no papel A angústia originária. Constrói um mar de frases Um arroio, uma tela Onde a letra cintila Em fogo brando até O pensamento a...
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Tudo bem Existe a miséria, a violência O sonho de transformação [perdido Mas o pior de tudo É essa v...
