6 de outubro de 2019

ASTRONOMIA


Ele não podia dourar o céu, nem remover estrelas incrustadas, pois de nada ele sabia, ele, o aventureiro, o nômade domesticado, hoje em repouso após façanhas insuspeitadas, ele que, de mãos para cima, finalmente se rendia, ele quase um resumo de tudo, um momento novo, um arremate na biografia, uma vista aérea sobre o passado de bufão, de clochard, buscando algo que o fizesse olhar ao redor, cuidar da semeadura, erguer muralhas em torno do arraial recém-fundado. Passados alguns séculos, tudo isto desaparecerá, deixará de existir, o Rio de Janeiro será uma pálida memória, será só poeira e ar e lembranças desbotadas, mas ainda se ouvirá um grito vindo da varanda, um animal uivando no deserto, na areia em que os dois de tarde caminhavam, quando ela lhe disse que o cometa passaria, mas não seria visível a olho nu, e certamente não seria espetacular como se anunciava, aquilo era uma mentira, uma tapeação da mídia, e ele sorriu por dentro, irritado, de onde vinha tanta pretensão, quem ela pensava ser, o Ronaldo Rogério de Freitas Mourão...? Pensando bem, ela só era uma linda menina, e ele a amava justamente por isto. Muito pouca era a sua astronomia. Talvez ele devesse, se tivesse um pingo de juízo, ter se casado com ela.Mas ele nunca soube decidir as coisas na hora certa...

Manoel Olavo

31 de agosto de 2019

ALCMENE

ALCMENE

Poucos podem saber
O que nos reserva
O fim deste labirinto:
Um alento, um missal de
Gestos, uma estrela suspensa?
Ou uma impressão de céus,
Um par de mãos crispadas,
Atropelos, azuis em fuga,
Soldados, teorias em círculos,
Uma explosão que vem de longe?
Move-se a terra, ergue-se
O mar, uma nova
Matéria deposita-se
No fundo de crateras.
Ruiu, ruiu, assim todos se calam.
Acima do chão, há cacos de tempo,
Vasos quebrados e Alcmene,
Seu olho de prata sombrio, rútilo, pesado,
Em cores desiguais de medo
E severidade. Da fortaleza, nada resta.
O olho que outrora revelava
Hoje vem nos dizer que não pode.
Esse olho, agora, crê. Profere penas.
Mata o mar que antes prometia,
Fere o chão que antes fecundava.
A medida de cada um de nós
Para sempre está capturada.
A branca virgem Vênus foi esfaqueada.
Vasto céu de noite e conjecturas
Sobre flamejante esfera, vento,
Ameaça, a lei da servidão em gotas,
Tudo em asas se avoluma e morre.
A fábula se antecipa, pressente seu fim.
Mas não!, devemos todos cantar,
Fingir felicidade, desfrutar
Dum passatempo enquanto
O mar inunda a nossa sala.
Será esse maremoto a nossa última poesia?

Manoel Olavo

3 de agosto de 2019

AMO EM VOCÊ


Amo em você
Seu desespero
Sua dor mal-disfarçada

O par de olhos fundos e inquisidores
A inquietação calada a vontade de abraçar
                                                       [o mundo

Amo em você
Seus leões famintos
O salto sobre o abismo
O gosto de explorar zonas inabitadas

Amo em você
O riso que vira a realidade pelo avesso
E faz de espelho o que foi enigma

Amo em você
Sua intensidade
A ternura calada
O sonho de voar além das copas

A coragem de ser
Ao mesmo tempo
Alvo e seta

Por isso
Hei de lutar para lhe reter
Em feéricas palavras

Mas a beleza que você traz
(Arco do Triunfo) fica intocada

E o verbo inútil se rende
Ante o esforço de dizê-la.

Manoel Olavo

PALAVRA

PALAVRA

palavra
posta
no papel
marca a
folha

palavra
lasca
do real
faca
na goela

palavra
estrada
vicinal
pelo
acaso

palavra
carcaça
dura
oculta
chama

palavra
feita pra
vibrar
antes que
pareça

Manoel Olavo

19 de junho de 2019

QUANDO CHEGAR


Passarei. Passará o que vier:
O dia, a noite, o amor sonhado,
Nada vai deter o corte da navalha
Nada vai fluir no leito deserto
Do regato, na paisagem que mata
Memórias, brotando metáforas.
Mas, porque nasci entre homens, hei
De dar espaço, arauto, à palavra
Encantada, ao corpo, à frase
Atada a vida – lavrador de versos
Quando chegar a hora e eu for nada

Manoel Olavo

28 de maio de 2019

CRISTAL PARTIDO



Ninguém lhe preparou para o inapreensível  silêncio que se seguiu após o delicado arranjo de pedras de cristal se despedaçar num estalo só, num ruído ruim,  espalhando lâminas e cacos gelados para todo lado, num extenso raio em torno do quarto, ao redor da casa,  ferindo transeuntes e casais que passeavam despreocupadamente. Ninguém lhe preparou para o estardalhaço do cristal partido, para o gemido mudo, para o despenhadeiro que se abriria. Ninguém lhe falou das consequências mórbidas de tamanho estalo para a geografia local. Nas horas seguintes,  nenhum soluço de dor, nenhuma palavra de solidariedade foi pronunciada. As migalhas de amor nas lascas de cristal, atônitas e descompassadas, flutuaram como borboletas morrendo aos poucos no vácuo interestelar. Há de se ter um nome para esta sangria mineral fria e desatada. Talvez a ciência transforme tudo num fenômeno geológico de cálculo previsível e razoável. Mas é preciso cuidado. Muito cuidado para não se ferir. Indiferente a tudo, o silêncio reverbera os cacos do caos e celebra seu apogeu.  Enquanto ela se despe, enquanto os sonhos vagam, enquanto os planos surgem e a trilha sonora se eleva, o silêncio espreita, e celebra a vida e suas novas vítimas.


Manoel Olavo

TRAMA


Em cada folha

Em cada teia

Eu teço a trama

É  sempre o mesmo tema:

Será que ela me ama?

Por fim goteja

O talho que

Todo dia

Sangra



Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...