25 de janeiro de 2017

ESPELHO



Na cidade
No tumulto

O que me falta
É um espelho

Ver, dentro
Dele, o outro

Não este opaco
Olho de túmulo


Manoel Olavo

10 de janeiro de 2017

CALMARIA



Sem ti eu trovejei
Por noites de cristal
Fiz bobagem à beça
Tomei veneno
Cortei os pulsos
Dei trabalho aos amigos
Perdi até as calças
Quis viver em claustros
Eliminar instintos
- O coração plantado sob a terra –

Bem feito, coração!
Quem mandou?

Agora, esse Oceano Pacífico
Essa calmaria
Esse tom de mar
E nostalgia

Onde? Em seu olhar, é claro...

Em seu olhar
Elemental como uma fada
Como um artefato um alaúde
Que fica além além
Da breve bruma
Que tal brisa leve

Manoel Olavo

30 de dezembro de 2016

PEGADAS


Se eu pudesse voltar à mesma estrada
Se eu pisasse em cada pegada deixada
                                                        [na areia
Mesmo assim não saberia de mim

Não sou eu quem está ali
Isto se deu noutro tempo
Noutro corpo noutra ocasião

Racionalmente sei que estou nesse mapa
De intenções passageiras e passos dados
Mas só como cartografia

Eu me vejo nos vestígios do passado
O passo gravado me faz recordar
Porém tudo me espanta

Assim rabisco cada folha em branco
Rasgo cada carta antes endereçada
Deduzo aos poucos o que me aconteceu
Quando eu não conseguia ver


Manoel Olavo

25 de dezembro de 2016

FALA


O sopro da fala é súbito
Golpe de vento no acaso

Derruba todos que tentam
Capturá-lo, sempre escapa

Ninguém sabe porque
Se dá o som ou a fúria

Ninguém sabe deter
O jogo atrás da cena

O homem é a frágil fala
Procurando a coisa


Manoel Olavo

24 de dezembro de 2016

FLOR



Onde estás
Meu encoberto jardim
Minha paixão meu ardil
Meu remanso de noites ocultas?

Não vi que estavas do meu lado
Até teu nome chegar pelas raízes
E florescer em mim
Como flor encravada na pedra.

Amor, amor
Eu te descubro
Farta planta cor de verde
E busco teus indícios
Na ramagem.

Te sigo como quem
Caminha nas montanhas
Atrás da improvável
Flor de carne 
De pétalas douradas.

Visão que paralisa
Meu olhar de explorador cansado 
No outono de uma vida
                               [sem amores
Que não conhecia
Tua beleza cor de flora.

Amor, eu te surpreendo pênsil
Acima de todas
Rainha sem igual
Entre as flores fêmeas.

Manoel Olavo

12 de novembro de 2016

POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS




Assim, enquanto o mar oscila sob a luz cintilante,
Permanecemos a postos para promover o combate
Das palavras – a perpétua necessidade de contar,
De modo renovado, histórias de fundadores que,
Com seu engenho e arte, delimitaram os muros da
Nossa aldeia. Nada se perdeu, nem quando os bárbaros
Nos acossaram. É clara a nossa lusa cartografia.
Contudo, pudemos expandir os limites do reino
Criado por aqueles que chegaram antes de nós,
(Homens que nos legaram o que sabiam nomear)
E talvez singrar por mares nunca dantes navegados.

Manoel Olavo

11 de julho de 2016

ELA A INTOCADA

Jamais ele tocou
Mas bem conhece
O balcão das cinzas
A voragem das horas
O ouro em pó
Os fenômenos naturais desenfreados
As esculturas imóveis
O prumo que vai e volta
A poeira cobrindo os corpos petrificados

Ameias e colunas guardam a rua 
Protegem os passos lentos 
De arroubos juvenis durante a caminhada
Caem flechas parecendo gotas 
A cabeça no cepo
O elmo o carrasco
No entanto 
Ele se move

Por trás de tudo
O caminho 
(Ritmo único)
Ubíquo signo 
Que ele não imaginava
E sequer tocou
Jamais tocou
Mas bem conhece

Logo 
Abaixo
Ela pende 
E reverbera
Ela: a intocada

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...