Todo dia se encontram.
São como colegiais
Treinando ritos secretos.
Dentro da sala procuram
Seus reflexos no espelho.
Não se vê cor nem ideia.
Pálidas faces sem dor
No assombro da plateia.
Sobreviventes orbitam
Seu vazio em desespero.
Eu os deixo sem pesar.
(Antes solidão que nada)
Parto atrás da estrela tíbia
Da que imergiu lá no céu
No ar, leve, além de mim
Sem luz, porém cintilando.
Manoel Olavo
19 de julho de 2014
PAPÉIS
Junto folhas esparsas sobre a mesa e nelas estão rabiscos, versos incompletos, jogos de palavras. Alguns são belos, outros incompreensíveis. Outros apenas sugerem. São pedidos de amor numa língua desconhecida. Parecem descosidos, uma alma em pedaços tentando se agrupar. Reúno os papéis num só maço, alinho-os e penso que cada um deles, isoladamente, é uma parte não rimada de mim. Insisto na harmonia. Maltratado pelo tempo, algo em mim espera e quer acreditar. A cada dia, aparece algum lugar inabitado, algum sentimento inaudito, e esta esperança pode se mostrar menos irracional. Muitas vezes, são meses sem sequer olhar para o céu. Porém, a cada nova impressão de luz desvelada, é como se me voltasse o mar pela primeira vez. Como se eu pudesse erguer castelos indestrutíveis na areia. Hoje sei que a vida é fugaz e, cerimoniosamente, conto os meus mortos. Também sou feito deles. Não os lamento. Não os choro. Resisto. Sou feito daquilo que me funda e também do que me finda.
Manoel Olavo
16 de julho de 2014
OUTRA DIMENSÃO
É a antiga casa, intacta,
Longe deste gigantesco mar de prédios.
Eu abro sem pensar o portão de ferro,
Rangendo o passado, atravesso
O jardim cheio de sombras,
Cercado por paredes descascadas.
Lentamente, vou para o outro lado
E subo pela escada ao primeiro andar.
Vejo o meu antigo quarto:
A nau do medo no fim do corredor.
A cabeceira, a cama,
Os papéis amontoados,
O mormaço entrando pela janela,
O ar que não toca as coisas humanas
E tudo é azul e branco e ouro
E infinitas sombras arredias.
(Não é a mesma dimensão
Onde o perdigueiro brincava comigo)
Há um precipício ali, mas eu não sabia.
Há uma grande dor, nem tão mortal
Quanto a que virá mais tarde;
E o peso da sua mão impiedosa.
Um dia eu quis ser de pedra
E me esconder da vida.
Conhecendo o enredo até o final,
O olho da cena antevê o seu martírio.
E quanto a mim: sobreviverei
A tamanho cataclismo?
Na velha casa de tijolos sombrios,
Como posso me abrigar dos seus destroços?
Manoel Olavo
Longe deste gigantesco mar de prédios.
Eu abro sem pensar o portão de ferro,
Rangendo o passado, atravesso
O jardim cheio de sombras,
Cercado por paredes descascadas.
Lentamente, vou para o outro lado
E subo pela escada ao primeiro andar.
Vejo o meu antigo quarto:
A nau do medo no fim do corredor.
A cabeceira, a cama,
Os papéis amontoados,
O mormaço entrando pela janela,
O ar que não toca as coisas humanas
E tudo é azul e branco e ouro
E infinitas sombras arredias.
(Não é a mesma dimensão
Onde o perdigueiro brincava comigo)
Há um precipício ali, mas eu não sabia.
Há uma grande dor, nem tão mortal
Quanto a que virá mais tarde;
E o peso da sua mão impiedosa.
Um dia eu quis ser de pedra
E me esconder da vida.
Conhecendo o enredo até o final,
O olho da cena antevê o seu martírio.
E quanto a mim: sobreviverei
A tamanho cataclismo?
Na velha casa de tijolos sombrios,
Como posso me abrigar dos seus destroços?
Manoel Olavo
11 de julho de 2014
MEMÓRIA
Pra cada ídolo morto
Pra cada rei deposto
Pra cada amor perdido
Surge um vento na
Forma de palavra
Porém
Na fria iluminura
Da memória escrita
É impossível contar
Aquilo que aconteceu
Manoel Olavo
9 de abril de 2014
SEU NOME
Nesse temporal
Seu nome é diagrama.
É um pó de letras
Na inundação.
Eu não vou dizê-lo.
Não quero trazer
Seu nome secreto
De volta dos escombros.
Mas são partículas
Sílabas fonemas
Rimas de amor
Cercando o cais destroçado
O que restou de um
Naufrágio de avessos.
A água (se um dia evaporar-se)
Deixará seu nome mineral
Em insolentes camadas;
Finalmente, feito pedra.
Seu nome é diagrama.
É um pó de letras
Na inundação.
Eu não vou dizê-lo.
Não quero trazer
Seu nome secreto
De volta dos escombros.
Mas são partículas
Sílabas fonemas
Rimas de amor
Cercando o cais destroçado
O que restou de um
Naufrágio de avessos.
A água (se um dia evaporar-se)
Deixará seu nome mineral
Em insolentes camadas;
Finalmente, feito pedra.
Manoel Olavo
4 de abril de 2014
EU OLHAVA MAS NÃO VIA
I
Eu olhava
Mas não via
Esse punhal
Essa dissipação
A interseção na ordem geral das coisas
A repetição de ciclos
No movimento dos dias
A máquina
A ferrugem
Seu pó e suor
Eu olhava
Mas não via
II
Antes não havia
Essa colisão na margem do crepúsculo
Esse corpo infestado de cristais
Angélicos vagabundos voando sobre as palafitas
A decomposição
Na moenda dos dias
A carne do rio
A pedra
Sua mão oculta me tocando em feéricas faíscas
A circunvolução
O inseto cravado na casca
O dente cravado na boca
O tempo perante o qual se curvam a solidão e o sangue
O silêncio no qual se dissipa um resto de mim por toda parte
Esse ermo
Em forma de palavra
Manoel Olavo
1 de abril de 2014
EROS
O poeta teme
Ferir sua musa
Se tirar-lhe a blusa
E tocar-lhe a pele.
Musas: o que são?
São simples apostas
De amor, ou promessas.
Mas tu? És derrisão,
Risco, sobressalto.
És o que margeia
O topo da ideia
E toma de assalto.
Mais do que beleza
Tu és quem avança
Onde nada passa
E arrasa a certeza.
Helena: hei de vê-la
Nua. E afinal despida
(De corpo, alma e vida)
Amar-te, alva estrela.
Manoel Olavo
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