28 de março de 2014
VENTO ELÍSIO
Lento e minucioso meu sopro caminha
Por seu corpo nu pele branca à mostra
Eu, Elísio, vento soprando na fresta
Inspeciono cada ponto oculto, toco
Cada vale, gomo, relevo, rego
E cada impressão deste contato
Gravada de modo geométrico
Permanece comigo na memória
Da passagem do corpo pelo vento.
Pra sobreviver, o sopro vira verbo
O esboço visual vira palavra.
Por isso não desprezo o verso,
Seu esforço evocativo. De fato,
Louvo este exercício de som
E sentido, sintaxe da permanência,
Capaz de despi-la plena puta nua
Desatinada inteira ao meu comando
Arte e efeito de tentar mantê-la
Sob meu domínio, embora comigo
Não esteja, nem ao menos consinta.
ENVOI
Lento e minucioso meu sopro caminha
Por seu corpo nu pele branca à mostra
Não ouso abandoná-la à própria sorte
Antes perdê-la ao verso que à morte.
Manoel Olavo
14 de janeiro de 2014
NÓS, OS QUE VIEMOS ANTES
Ainda as estrelas não estavam à venda
Não eram tantos os gadgets disponíveis
Não havia tanta sofreguidão
A vida não chegava pela internet
A destruição de um país
O salário de fome
A perda de direitos
O imperialismo
O processo cruel de acumulação de capital
Pareciam imorais
Acreditávamos numa aurora
De justiça e igualdade
Ninguém que valesse à pena
Contava vantagem
Por ter dinheiro
Havia algo mais essencial
Tínhamos um certo pacto
Uma ânsia por verdade
E valores coletivos
Antes de tudo
Era preciso sonhar
Era preciso saber
De Pixinguinha e
Vinicius de Moraes
Era preciso beber
Até o raiar do dia
Era preciso ouvir
Chico Buarque
Saber um verso
Do Neruda de cor
Era preciso amar
A mística da
Revolução cubana
Era risível alguém
Querer se destacar
Pelas roupas de griffe
Decerto todos nós
Sabíamos que a
Felicidade não vinha
Do consumo material
Um rapaz confiável
Não pensava ganhar
Seu primeiro milhão
Antes dos trinta anos
Um rapaz confiável
Lia o pasquim
No sol do posto 9
E fumava maconha
Pensando em utópicas
Revoluções
Éramos erradios
Amávamos como quem
Divide o próprio pão
A burrice
E os preconceitos do senso comum
Eram reprováveis
Era melhor se calar
Do que soar estúpido
Ou reacionário
Imperdoável
Era sair da praia
Antes do pôr-do-sol
Imperdoável
Era se recusar
A compreender
Estranhamente
Éramos assim
Nós, os que viemos antes
Manoel Olavo
5 de janeiro de 2014
FALTA
Meu amor acende
E se inflama no seu
Flanco. Aos trancos
E barrancos, conto
O tempo. Crispado
De sóis, me espanto.
É dócil o silêncio
Do amor destruído
Quando adia o lento
Ritmo da morte.
Amor: em seu nome
Tenho a minha falta.
E se inflama no seu
Flanco. Aos trancos
E barrancos, conto
O tempo. Crispado
De sóis, me espanto.
É dócil o silêncio
Do amor destruído
Quando adia o lento
Ritmo da morte.
Amor: em seu nome
Tenho a minha falta.
Manoel Olavo
1 de janeiro de 2014
FOTO SÉPIA
I
Bom dia
Ele disse
À gente
Morta
Na foto
Sépia
II
Era a
Foto do
Tempo
Em que
Não se
Escolhia
III
Tempo
Em que
Ele ria
Numa
Foto
Sépia
IV
Bom dia
Ele disse
À vida
Esvaída
Na foto
Sépia
V
Vida
Que de
Vez em
Quando
Ainda
Doía
Manoel Olavo
26 de dezembro de 2013
A MENINA DANÇA
A menina dança
Ela me encanta
Quando rodopia
No meio da cena
Nenhum aparato
Consegue detê-la
De seus olhos vem
Lágrimas de circo
Primeiro ela gira
Sobre meu alpendre
Aos poucos atinge
Outro patamar
Sobe à claraboia
Faz um ziguezague
Entre o meio-dia
E o final da tarde
Mas logo se cansa
De dançar assim
Resolve ser fora
De si; na avenida
D´avenir se perde
Vagueia sem hora
Maja seminua
Joelho de miss
De noite e de dia
A menina dança
Pode ser minha
Mas nunca se sabe
Manoel Olavo
6 de dezembro de 2013
SIMETRIA DO ALUVIÃO
Clareira
Da mata
Na manhã
Desperta
Choveu forte
Toda a noite
Das copas
Encharcadas
Gotas ainda
Caem
O visgo grosso
Da água
Pende
Da folha
Que se dobra
E desce
Até o chão
A terra
Chupa
O que o mato poreja
O caracol
Escala
A ebúrnea pedra
Nela deixa
Rastro
E desce
Até o chão
Formigas
Formam bola
Vermelha
De milhares
Em cima
D água
O besouro
Rola lama
Vira bosta
O besouro fede
A folha morta
Também fede
Cheiro de marrom
Decomposto
No meio da mata
Água de chuva
Forma um regato
As folhas mortas caem
No leito
Que leva
Planta podre
Água turva
Formiga
Graveto
Seixo
O sujo do mato
Deposita-se
No chão
O galho
Morto
Fica preto
Esfarela-se
Na terra
A água
Sorve sal
Da pedra
Que lenta
Se dissolve
A folha
Vira lodo
E grão
De modo sólido
Se inscreve
O ataúde
Da mata
Rumina
Restos úmidos
Cobre-os de terra
Do oco do pau
Que ali derrete
Vem o podre
Vem o vivo
Que se adensa
Na lama
Que escorre
Ao rés
Do chão
No podre
Pulula
A vida
Medida
Simétrica
Do aluvião
Manoel Olavo
4 de dezembro de 2013
ASSIM TODA LOUCURA
Assim toda loucura fica proibida
Toda paixão fica controlada
Toda ilusão será perdida
E os deslizes serão relatados
A quem possa deter os descontentes
Assim todo dia há de ser brando
Serenamente pouco a pouco
Cada coisa em seu lugar um dia por vez
Assim viveremos em paz livres de excessos
Livres da vertigem de altura num tal cansaço
De existir que não surpreende descobrir que
Os sonhos estão suspensos até segunda ordem
Toda paixão fica controlada
Toda ilusão será perdida
E os deslizes serão relatados
A quem possa deter os descontentes
Assim todo dia há de ser brando
Serenamente pouco a pouco
Cada coisa em seu lugar um dia por vez
Assim viveremos em paz livres de excessos
Livres da vertigem de altura num tal cansaço
De existir que não surpreende descobrir que
Os sonhos estão suspensos até segunda ordem
Manoel Olavo
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Onde estás Meu encoberto jardim Minha paixão meu ardil Meu remanso de noites ocultas? Não vi que estavas do meu lado Até teu nom...
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