25 de novembro de 2013

FOME

Fome: fome de ver a forma bronzeada
Fruí-la redonda, virginal ou seminua
Na maciez de altos e baixos exibidos.
Nem fartura nem aridez: eis teu apogeu.

Fome: fome de ver a forma eviscerada
Rasgar o manto que recobre as aparências
Pois o olhar, na avidez das visões extintas,
Vem devorar o coração da matéria exausta.

Fome: sílfide ou vestal, tu és a besta.
A baga nua perde o sumo, ateia fogo.
Teu volume-cor dissipa-se na retina
Desfeito em luz e em prazer suposto.

Fome: a que ousa chegar sem aquiescência.
Dado febril, brutal, de consumo imediato.
Dos fascínios coletivos, o mais premente.
Antiasceta por excelência – és maldição?

Manoel Olavo

15 de novembro de 2013

O IDEAL



- “Atingir o ideal? Como assim? O ideal é um negócio inatingível. Não foi feito pra ser alcançado. É um ideal, pomba, o nome está dizendo. Foi feito pra tentar, não pra existir. Toda procura de ideal está condenada ao fracasso. É assim no amor. Nós tentamos formas ideais de amar. Só isso. Se conseguiremos algo? Não sei. Mas, com certeza, sairemos frustrados”. – Ele estava surpreso com a clareza de suas palavras. Havia um sentido de autoridade nelas, algo que não planejara. Mais do que isso, havia convicção. À sua frente, a mulher o ouvia com atenção. Então ela respondeu:

- “Quer dizer que nós devemos desistir? Não adianta lutar por um relacionamento mais feliz, mais verdadeiro? É por isso que você está cada vez mais distante e voltado pro seu próprio umbigo?” – O tom, como de costume, era de cobrança. Irritado, ele disse:

- “Cada um deve cuidar de seu próprio inferno. Não adianta fingir comunhão. Só eu sei dos meus motivos e necessidades. Não vou me dedicar a um ideal de casal que me constrange. Que não passa de uma convenção social. Trágico é você acreditar na mitologia social da felicidade a dois”.

Ele sabia como irritá-la durante uma discussão. Bastava assumir uma postura didática ou violentamente racional. Ela ficava com cara de ódio, cara de aluna humilhada pela oratória do professor – ou seria inveja? De todo modo, ele às vezes fazia isso só pra provocar. Desta vez, não. Parecia acreditar no que dizia. E talvez fosse mesmo verdade.

- “Você se recusa a lutar por nós!” – ela respondeu – “Não dá pra viver com alguém como você. Não dá pra se agarrar em justificativas racionais o tempo todo. Você se esconde por detrás das ideias. Não sente nada, se esconde atrás de argumentos. Usa a lógica pra não se comprometer!”.

Ele sabia que ela estava certa. Ele realmente se escondia. Por comodismo, por fuga, por desconhecimento. Mas o que importa? Quem consegue expor exatamente a natureza do que pensa e deseja aos outros? Quem é sincero a tal ponto? Todos nós nos escondemos atrás de ideias, de personagens; inclusive ela, eternamente protegida pela máscara de feminista-capaz-de-demonstrar-emoções-e-desejos. Uma farsa como as demais. Um clichê politicamente correto. Quanto às emoções, ele raramente as distinguia. Na maioria das vezes, variavam entre a dor e o incômodo.

Em seguida, ele voltou à carga: - “O que é um amor ideal? É uma abstração! Você quer um homem que não existe, um companheiro pré-fabricado de teste de revista feminina. Homem nenhum vai falar pra você de sonhos e frustrações, homem nenhum vai discutir zonas erógenas. Homem nenhum vai ter saco pra ouvir você falar de antigos namorados. Eu entendo a necessidade de ideais, respeito-os; mas seu ideal de homem é escroto. Portanto, indefensável” – Seu tom de voz se alterava e as palavras ácidas eram um convite para uma briga sem disfarces. 

“O problema é que você não suporta frustrações” – ele continuou. – “A mocinha feminista não se conforma que eu seja um homem real, com defeitos. Fica frustrada porque eu não correspondo ao seu modelo de homem, algo entre uma melhor amiga do colégio e um cabeleireiro que ouve problemas enquanto alisa os seus cabelos. Eu não sou assim, detesto a conversa fiada feminina. Sou a favor da criminalização do sentimentalismo!”.

Um golpe, depois outro. A vontade era de acertá-la sem parar, deixá-la tonta, jogá-la nas cordas. Mas ela não desistia. Sua força parecia aumentar conforme era fustigada. Talvez por isso ela gostasse tanto de discussões intermináveis sobre a vida de casal. Nada além do velho masoquismo coloquial. Então ela revidou:

- “Você está sendo sarcástico pra fugir da discussão. Conheço sua estratégia. O que eu quero é melhorar o nosso relacionamento. Apostar em nós. Quem disse que eu não suporto frustrações? É só o que eu faço em nosso casamento! Sempre te convencendo a falar sobre os problemas. Sempre suportando seu mau-humor, sua indiferença. Sempre tentando aparar arestas. Sempre pronta para te ouvir, enquanto você fica distante quando eu falo de mim. Você quer transformar seu egoísmo numa forma de realismo refinado, mas isso não é verdade” – ela lhe disse, enumerando uma série de atitudes onde apenas o esforço dela aparecia. Na lista, ela recebia o papel “daquela que realmente se importa com a relação”. Ele não passava de uma criança birrenta. Nisto baseava-se a sua percepção.  Era tudo o que ela pretendia salvar. As boas intenções femininas, ele já compreendera, eram bombons envenenados. Ademais, como poderia discutir com alguém que tem o monopólio das virtudes morais?

- “Egoísta!” – ela disse, a palavra soando como a pior das acusações. - “Você é um egoísta”, - ela repetiu - Era o golpe fatal, a ferida que latejava a cada pronúncia. O contrário desta acusação, é claro, era o exemplo comovente que ela dava: candura, sacrifício, desinteresse, dedicação generosa. Como discutir nesses termos? Não podia entrar num jogo em que já começava perdendo. “Quer saber? Foda-se você e a sua bondade!” - Saiu enfurecido, batendo a porta.
                                             
                                                              * * *

            Mais tarde, enquanto andava pelo aterro, olhou as palmeiras distribuídas simetricamente sobre o gramado verde. - “Um jardim planejado como este” – pensou, – “pode ser bonito. Mas perde a espontaneidade. Não tem a beleza imprevisível dos arranjos naturais. O mundo devia ser assim: espontâneo” - continuou pensando.

- “Nossa racionalidade atrapalha tudo. A vontade de organizar o mundo violenta a vida.” – conjecturava. “A razão humana é uma doença. Um vírus incapaz de perceber a sua patogenia – como, aliás, devem ser os vírus. A ânsia de compreensão transforma relacionamentos num jogo esquemático de estereótipos, numa comédia de erros onde os parceiros fazem uma coisa, pensam outra e dizem uma terceira. O cinismo é a única maneira de suportar algo assim. Cinismo e manipulação. Mas eu não sei jogar o jogo do cinismo, nem sou ardiloso o bastante para manipular. Nada disso me interessa” - concluiu, enquanto caminhava.

Um pouco mais adiante, atravessou a faixa de areia à beira-mar. Começou a andar pelo calçadão de pedras portuguesas. Estava transtornado. Não parava de refletir sobre a existência de uma entidade tão absurda como o casamento. - “Como puderam conceber um negócio tão inviável?”, pensou. “Um homem e uma mulher, numa competição diária, onde não deveria haver disputa. Uma prisão sem duração definida. Um chiqueiro de porcos, onde quem está dentro quer sair e quem está fora quer entrar. Um jogo de poder sem sentido, sem regras, sem vencedores. As mesquinharias da convivência. A espuma das emoções febris. A mecânica do desempenho sexual. O apogeu do tédio”.

- “Deve haver alguma solução” – pensava. Sentia-se culpado, a angústia crescia. Ele precisava se esforçar pra atingir o ideal que ela sonhava. Abrir mão do egoísmo. Enfrentar a intimidade. Entender suas emoções. Aproximar-se dela. Já tentara antes, muitas vezes. Sempre foi inútil. Mas era preciso corresponder. Há um ideal vindo de fora, um ideal que nasce dela. É preciso ser um homem de verdade. É preciso inventar um novo modo de ser. Alguém diferente surgirá do desastre. Era isto, estava decidido! Ela iria ficar contente. É preciso agradecer à mão que ergue o machado pra nos decapitar.

Enquanto organizava os pensamentos, notou que suas pernas vacilavam e alguma coisa começava a prender os seus pés no chão, impedindo-o de caminhar. Alguma coisa grudenta, um tipo de cola. Então ele viu que começara a derreter em cima das pedras portuguesas do calçadão. Levou um susto, mas não teve forças para reagir. Primeiro, foram os pés; a seguir, os tornozelos; depois, a parte inferior das pernas. Por fim, todo o seu corpo derretia, como uma vela acesa derramando cera. Seus ossos, seus músculos, seus tendões, suas vísceras desfaziam-se. Os líquidos misturavam-se numa geleia turva. Prisioneiro de metáforas, refém de uma história inconclusa, desaparecia no visgo de vagos conflitos morais. Os cabelos foram a última parte a desaparecer, num soluço azedo.

                                                  * * *

Manoel Olavo
                                             

28 de outubro de 2013

INVERNO


Inverno
Na dureza das palavras

Inverno
No breviário das sombras

Inverno
No equilíbrio das somas

Lendo
Os próprios pensamentos

Água
Gotejando da parede

De rocha
Ter silêncio e recolhimento

A morte
No mergulho tátil das trevas

Sem eu
Ser desfeito menos um

A morte
É finalmente estar sozinho

Noite
Fria de completa solidão

v

       i

              b

                    r

                            a

                                    n

                                            d

                                                    o


Manoel Olavo

OUTONO


Lembre agora amigo
A primeira você abandonou
A segunda o traiu
A terceira aquele tiroteio
A quarta francamente
A quinta um pacto de morte
E lá se foi você
Aos pedaços
Aos frangalhos
Aos milhares

De noite cintilavam
Pirilampos
E você estava só

Sob um signo luminoso
Você cruzou a estrada
Que já não temia mais
(flechas dardejando
sobre sua cabeça)
Trêmulo você se resignava
Empilhava camadas de sol
Na meia-luz de um
Outono antecipado

Havia sonho
Amigo
Mas era pouco

Pro senso comum
Isso um dia passa
Como o amor acaba


Manoel Olavo

27 de outubro de 2013

VERÃO


Durante o verão, que tudo aquecia,
Eu despertei e trouxe até mim
Uma fêmea gentil, nua e macia,
De cuja beleza antes desavim.

A quantas poderei amar? Em cada
Nova mulher, consagra-se o lirismo.
Em todas, sim, a verdadeira amada.
Em todas, sim, a perdição do abismo.

Em todas, sim, um amor infinito.
Transbordante de mim, me ultrapasso.
Sou feliz a cada sim, a cada grito
De prazer da mulher que satisfaço.

Com elas, sou infinito. Sou fogo
De amor, chicote de tesão talhando
Chaga. De tanto amar, invento o jogo
De conquistar pra não morrer amando.

Meu corpo é a dissipação do uso.
Esta fome de amor a todo instante
Será fatal? Não, eu louvo este abuso
Enquanto morro quente e triunfante.


Manoel Olavo

24 de agosto de 2013

A VIDA INTEIRA



A vida inteira
Refém da morte
Preso na trilha
Da mala sorte

Rasgar o manto
De rei menino
Guiar o barco
Do desatino

Tomar de assalto
A estrela falsa
Erguer o voo
Que a asa alça

Andar às cegas
No seu encalço
Rodar veredas
Com passo falso

Desastre largo
Sem par nem porto
Amar o amargo
No mar da boca

A vida inteira
Saudade louca
Viver na beira
Da vida pouca


Manoel Olavo

4 de julho de 2013

SABIA



Só sei que, de longe, eu te adivinhava
E me adivinhavas do mesmo jeito
(Podias me ver entre a luz e a sombra)

Assim eu sabia do gramado, da varanda, do pé-direito alto
Do telhado, da escada, da mesa de jantar, do edredom branco
Sabia das plantas, do cinzeiro, da estante de livros
Do que te pertencia, menina
Do teu recato

Sabia do jardim que planejavas
Do vaso de jasmim, das flores plantadas
Da lágrima sutil que insiste em cair
De teus olhos

Sabia de você, menina solitária
Sobre a pedra, sempre pensando
Lá onde a dor te enclausurava
E ninguém mais sabia

(Sabia também que  
Tens um jardim silencioso
Que não se pode conhecer)

Eu te sabia com tudo de mim
Com meu amor, minha falta
Eu te sabia como se visse
A primeira estrela em cima dos
                                   [pinhais
Aldebarã, na luz do meio-dia:
Somente tu e o teu segredo


 Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...