15 de junho de 2013

PAISAGENS


São paisagens diante

Dos meus olhos

Paisagens móveis

Enquanto luzes piscam


Paris Genebra

Meca Bogotá

Vida noturna

Num boulevard distante

E as pedras


Passam civilizações

Estátuas desossadas

O êxtase do sábio

Descobrindo a fórmula

O glossário dos mitos


O lento caminhar

Por ruas de sal e vício

O sacrifício das virgens

Pilhas de corpos

Dizimados pela peste


A morte

Sempre faminta

Seu rugido surdo

A tudo sobreposto


Meu corpo frágil e nu

Estuário de maldições

Rolando entre as bestas

Que destroem monumentos


Meu corpo frágil e nu

Junto do seu

Ao arrepio da lei

E do tempo


Manoel Olavo

12 de junho de 2013

QUANDO CHEGUEI


Quando cheguei a festa tinha acabado:
O coração do texto estava à mostra,
Todos os estilos concluídos.

Quando cheguei eles faziam
Outra coisa, panfleto identitário, formalismo russo, exegese construtivista,  por aí.

Quando cheguei, pra variar,
O melhor da festa já tinha acabado
- Tem sido assim, na minha geração.

Quando cheguei, não havia lágrimas,
Salvo as de minha infância
(Embora a infância, em si, não seja poesia).

Mas as primeiras lágrimas são únicas.
Depois é a tentativa de chorar de novo,
Ou de fazer poesia como da primeira vez.


Manoel Olavo

3 de junho de 2013

FIO DA ADAGA


A vida inteira
Cercado
Pela morte

Inocente
Eu via

Guerras
Reinos
Glórias

Na ilusão
De ganhar

Vi o
    Sangue
        No fio
            Da adaga


Manoel Olavo

31 de maio de 2013

CALOR



Como transformar lava em pedra? É preciso tempo para que o calor dissipe. É natural que seja assim. O processo pode durar centenas de anos. Assim acontece na natureza. Mas não tenho tempo para isso. Minha combustão é imediata. Cada ação me cerca com um tornado de fogo. Só resta a incandescência de emoções desencontradas. Aprendi que o calor tem efeito contagiante. Emoções em fogo alimentam-se uma das outras, atraem labaredas parecidas. Um incêndio de grandes proporções. Minhas opções são limitadas. Ficar calado. Fingir que ignoro. Ou queimar no jorro de emoções a milhares de graus. Sorrir, enquanto viro cinzas. Por instantes, eu abomino a vida e sinto a nostalgia de um estado mineral.

Manoel Olavo

26 de maio de 2013

HELENA



Sou guardião
Dos versos que cintilas.

Recolho-os nas mãos
E no meu pensamento.

Sou náufrago
Cruzando o caos.
Ulisses sem Ítaca.

E tu
Ao derramar cristais de sonho
És minha ilha prometida.

És a musa-aedo
Nereida em mar sombrio
Ninfa Epimélide.

Ao Rochedo do Sono
Eu peço que conceda
Promessa de amor
E a vida, apesar
Da dor e o tempo.

Só há, bem sei, Helena
E és a mais bonita...

Os olhos assombrados
Piscam se tu passas.

Quando tudo terminar
No fim da Teogonia
Ainda te guardarei
No rastro das galáxias extintas.


Manoel Olavo

21 de maio de 2013

LIBERDADE


A cada dia fica evidente
Que o afastamento foi uma medida necessária,
Capaz de trazer ordem à loucura que nos devorava,
Grudada em nossos pés, em nossos corações,
Em nossa voz,
Sem nos deixar viver em paz,
Nem a sós.
Mas só a distância permite tal frieza analítica.
Hoje as cores dos lençóis estão esvanecendo
E cada movimento que faço
Parece me livrar da sua angústia castradora.
Porém, ainda sinto falta da sua presença
Sussurrando os meus pensamentos de volta
E apontando, caso a caso, a minha incompetência
Diante do cotidiano.
É lento o exercício da volta à liberdade.
Talvez seja impossível.

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...