19 de maio de 2013

FÁBULA


Enquanto existir a falha
Que se transforme em fábula

Enquanto existir a trilha
Que se desenhe um mapa

Enquanto vier o emissário
Haja rumor nas coisas despertadas

Rumor das coisas, todas elas
Sussurrando entre fachadas

Chão da ilha cheio de ossadas
Som de palavra inconfessada

Um elo oculto une os elementos
Arruma-os em torno da armada

A memória em pé, a glória amputada
Desconhecida ilha, espuma, vaga

Navegar no curso que segue
O farol apagado na margem oposta

Gelado mar parte a galope
Na crina dos reflexos de prata

A mitologia dos sinais, o cetro
A sina, a nau que se destaca

Nas sendas do território
O mesmo mar liberta e mata

Transitam matéria e tempo
No cais lotado de palavras

Fala-me do mar, do rigor da fala
Evocada, dá-me um pouco de ar

Habita a palavra reduzida, densa
Face contra face, lata torcendo lata

A chama, o ar, o ritmo sem fala
O nome sórdido, o grito dentro d´água

A palavra advinda, contradita
Talhada à faca até ser nada

Além daqui é o risco que separa
Édipo da Esfinge, ou de Jocasta

Manoel Olavo

DIANTE DO DIA

Posso estender o prazo?
Posso apressar o passo?
Tento viver sossegado
Mas tudo fica congelado.
Daqui a pouco, outro sonho
Se desfaz num estilhaço.

Manoel Olavo

17 de maio de 2013

REGOZIJO DE ORFEU


Tão fácil ser desigual
Tão fácil ficar ao léu
Tão difícil ter na voz
O regozijo de Orfeu
Ao ressuscitar Eurídice
Das trevas do Aidoneu

A lira leva o jogral
Do abismo até o céu
Para que possa criar
No voo que percorreu
Algo novo e belo, um verso
Indiscutivelmente meu.

Manoel Olavo

ORFEU


Cansado de dormir e de acordar
Sonhando-te, meu jugo e aspereza
Palpar a superfície da ferida
Colada entre a garganta e o sentimento
Criaste para mim a incerteza
Nos seios de marfim da escultura
Ornada em mil recônditos negrumes
Num verso similar ao que não trouxe
Um novo céu, um mar de incêndio, a lua
Que verso há de cantar o que perdemos?
Não pude te tocar, amor, não pude
Não pude ser nem pássaro nem pluma
Não pude ser nem sândalo nem chuva
Por que sopras assim, ó brisa ambígua?
Acostumada estás a fortaleza
A refletir a sós entre os pinheiros
A combater mastins sobre as escarpas
A ler no corredor no fim do dia
Difusas folhas brancas que tracejam
Escritas formas vagas de desejo
E modos de não ser somente minha
Tu és embriaguez sobre meu dorso
Vinhedo na estação de sol e sombra
Cintila em mim a alma desdobrada
Um anjo há de pairar sobre a calçada
Saudade é despertar vendo-te morta
Se não fosse perder a protegida
Se não guardasse Orfeu a antiga forma
Perdíamos de vez a voz e a lira
Sonhar, mais que viver - eis o que somos

Manoel Olavo

10 de maio de 2013

PINTURA RUPESTRE




Meus olhos tateiam a figura
Pintada na parede de pedra,
A primeira imagem pintada,
Na luz bruxuleante de uma
Caverna oculta. O antílope,
O bisão, o cavalo, o contorno
Da mão, a Vênus de Willendorf.
Meu olhos exploram o começo
De tudo, a raiz do mistério,
Quando os homens fizeram
Falar um mundo que lhes
Intimidava com o seu silêncio. 


Manoel Olavo

3 de maio de 2013

SILÊNCIO


Não há mapa. No entanto, em tudo
Estava à procura de um lar,
A lembrança da primeira casa.

Apolo em seu carro
Queria a vertigem do ser, o céu de asa
Flamejante, o sol, a porta sem aldrava.

Sonhava união, mas nada veio.
Luz excessiva na manhã.
Voo cego. Cristal partido.

Ouça-me: se existe um lar
Ele não está nas coisas.
Impossível romper o véu
Que separa os seres.

Não é conceito
Nem condenação:
É apenas silêncio.

Manoel Olavo

17 de abril de 2013

FALTA


Ávido de tê-la
Eu te vejo a cada
Dia, a cada cena,
Incandescente
Centelha no céu
Caos criando estrela.

Meu amor acende
E se inflama no seu
Flanco. Aos trancos
E barrancos, conto
O tempo, crispado
De sóis e espanto.

É dócil o silêncio
Do amor destruído
Quando adia o lento
Caminho da morte.   
Amor: em seu nome
Vive a minha falta.


Manoel Olavo 

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...