Posso estender o prazo?
Posso apressar o passo?
Tento viver sossegado
Mas tudo fica congelado.
Daqui a pouco, outro sonho
Se desfaz num estilhaço.
Manoel Olavo
19 de maio de 2013
17 de maio de 2013
REGOZIJO DE ORFEU
Tão fácil ser desigual
Tão fácil ficar ao léu
Tão difícil ter na voz
O regozijo de Orfeu
Ao ressuscitar Eurídice
Das trevas do Aidoneu
A lira leva o jogral
Do abismo até o céu
Para que possa criar
No voo que percorreu
Algo novo e belo, um verso
Indiscutivelmente meu.
Manoel Olavo
ORFEU
Cansado de dormir e de acordar
Sonhando-te, meu jugo e aspereza
Palpar a superfície da ferida
Colada entre a garganta e o sentimento
Criaste para mim a incerteza
Nos seios de marfim da escultura
Ornada em mil recônditos negrumes
Num verso similar ao que não trouxe
Um novo céu, um mar de incêndio, a lua
Que verso há de cantar o que perdemos?
Não pude te tocar, amor, não pude
Não pude ser nem pássaro nem pluma
Não pude ser nem sândalo nem chuva
Por que sopras assim, ó brisa ambígua?
Acostumada estás a fortaleza
A refletir a sós entre os pinheiros
A combater mastins sobre as escarpas
A ler no corredor no fim do dia
Difusas folhas brancas que tracejam
Escritas formas vagas de desejo
E modos de não ser somente minha
Tu és embriaguez sobre meu dorso
Vinhedo na estação de sol e sombra
Cintila em mim a alma desdobrada
Um anjo há de pairar sobre a calçada
Saudade é despertar vendo-te morta
Se não fosse perder a protegida
Se não guardasse Orfeu a antiga forma
Perdíamos de vez a voz e a lira
Sonhar, mais que viver - eis o que somos
Manoel Olavo
10 de maio de 2013
PINTURA RUPESTRE
Meus olhos tateiam
a figura
Pintada na
parede de pedra,
A primeira imagem pintada,
Na luz
bruxuleante de uma
Caverna
oculta. O antílope,
O bisão, o cavalo,
o contorno
Da mão, a
Vênus de Willendorf.
Meu olhos exploram o começo
De tudo, a
raiz do mistério,
Quando os
homens fizeram
Falar um mundo
que lhes
Intimidava
com o seu silêncio.
Manoel Olavo
3 de maio de 2013
SILÊNCIO
Não há mapa. No entanto, em tudo
Estava à procura de um lar,
A lembrança da primeira casa.
Apolo em seu carro
Queria a vertigem do ser, o céu de asa
Flamejante, o sol, a porta sem aldrava.
Sonhava união, mas nada veio.
Luz excessiva na manhã.
Voo cego. Cristal partido.
Ouça-me: se existe um lar
Ele não está nas coisas.
Impossível romper o véu
Que separa os seres.
Não é conceito
Nem condenação:
É apenas silêncio.
Manoel Olavo
17 de abril de 2013
FALTA
Ávido de tê-la
Eu te vejo a cada
Dia, a cada cena,
Incandescente
Centelha no céu
Caos criando estrela.
Meu amor acende
E se inflama no seu
Flanco. Aos trancos
E barrancos, conto
O tempo, crispado
De sóis e espanto.
É dócil o silêncio
Do amor destruído
Quando adia o lento
Caminho da morte.
Amor: em seu nome
Vive a minha falta.
Manoel Olavo
29 de março de 2013
CADA MINUTO
Cada minuto passa
E eu fico mais antigo.
O corpo é um território
Que carrego comigo.
Cada minuto passa
E, indene, a carne fria
Assume a consistência
Do que nem pele tinha.
Cada minuto passa
E a vida cobre a alma
Com camadas. O ar é
Duro, cortado à faca.
Cada minuto passa e
Sou o que não nomeio.
Cada minuto vai
À frente do primeiro.
Cada minuto passa
Eu sinto mas não vejo.
Cada minuto segue
À frente do desejo.
Não há ciência sem
A descida ao inferno.
Não há eterno sem
O istmo do corpo.
Cada minuto passa e
É pele, ausência, istmo,
Corpo, desejo à faca,
Alma em busca de ritmo.
Manoel Olavo
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