2 de novembro de 2012

MONTANHA E MAR


Faz tempo
Eu vi o mar
Era da cor
Da sua poesia

Quis nela desaguar
Como a montanha
Encontra o mar
No abraço líquido
Das rochas

Como um verso
Riscado no ar
No dorso da
Melodia

Juntos, os dois,
Montanha e mar
Elementos desiguais
Enfim pacificados


Manoel Olavo

O AMOR EM MEIA-TINTA


Ele tentou
(a paixão quase o cegava)
Aproximar-se dela
E de seus gentis meneios
Ela que era linda
E tão delicadamente ouvia

Apaixonado estava
Cortês e imprudente
Ele agiu
Deixou-se levar
Por louca flama
E logo a conquistou

Fez-se conhecer
Sem nenhum rodeio
E lhe propôs viverem juntos
Na eternidade
E mais:
Jurou poupá-la
Da ambição maldade tédio
Torná-la infensa
Aos interesses banais
Que movem
Homens e vidas

Mas a paixão se foi
Perdeu-se
No apuro dos fatos:
(Aragem decomposta,
Enlevo ou fábula?)

Seguiu cansado e só
No rumo da corrente que não
                                  [conhecia
O amor em meia-tinta:
Engano sutil
De flores despetaladas
Cobrindo a calçada deserta
Que ficou para trás
E passa

Manoel Olavo

16 de outubro de 2012

HOUVE AMOR


Houve amor, ela não quis
Sou eu que admito a derrota
Amar é isso, a mais alta resignação
A um dia como este, segue-se a noite

Fale-me de amor
Refém do vazio
Retrato, antevéspera duma execução
Fujo de hipóteses ou parcelas de culpa
Eu a vejo nua, óbulo sedento
- A memória engana –
Virá um crepúsculo carmim cobrindo tudo
E a escuridão
É só o que sabemos

Vida, vida
Eu te quero inteira
Teu lugar é aqui, não nas alturas
Ouve o silêncio dos presságios
Buscando amor na cena de outra vida

Manoel Olavo

15 de outubro de 2012

POR ORA


Por ora

Eu silencio
     
           E passo

Amor?

É só pra vender anúncio


Manoel Olavo

14 de outubro de 2012

ENTRELAÇADOS




Milhões de cintilações noturnas levam embora o que ele ia lhe dizer. Ela entende, sacode os cabelos negros. De novo, ele se esquece. Paira no ar a doce sombra herdada, o repouso, a trégua entre os lençóis. Na memória do tempo, eles virão entrelaçados.

Manoel Olavo

13 de outubro de 2012

NEM TUDO


Nem tudo é aparente
Mas o que amo em ti
É justamente esta ferida viva
Teu silencioso apego
A alma que não foi
Apaziguada

Manoel Olavo

11 de outubro de 2012

NUM QUARTO PEQUENO



Num quarto pequeno, de poucos
Móveis, quatro paredes brancas,
Piso de madeira gasto, sozinho,
Num quarto em Santa Tereza,
Sem nenhuma esperança,
Num tempo quase sem passar,
Veio a ideia: agarra as imagens,
Poeta, até as esparsas. Salve-as.
Ponha-as no papel, na materialidade,
E ouve o som, o som que se anuncia
(Há uma voz ali, meio abafada).
Assim nasceu a clareira da palavra,
O ato de abissal transbordamento.

Manoel Olavo 

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...