26 de julho de 2012

NEL MEZZO DEL CAMIN


No meio do caminho da sua vida
Ele vinha só e as lágrimas caíam

Não era a solidão comum das árvores
Mas do aço rasgando a pele

Ladeado o rio, transposto o vale
Ele sonhou haver amor total

Amor, lampejo do absoluto
Centro do ser, úmida fonte

(Se quebrou, amor não era
Se partiu, amor não parte)

Amor feito lava de dentro da terra
Criando montes onde nada havia

Amor que chega e se prontifica
E não precisa explicar precárias faltas.


Manoel Olavo

17 de julho de 2012

A SERENIDADE É O DOM DAS PEDRAS





No chão
A vida abatida

Fingindo-me sereno
Pra escapar de mim

Alguém aí
No manto das palavras?

O que sobrou
Do salto do animal feroz
Da indecisão entre vida e morte?

Pedaços
A alma retorcida
E a serenidade:
Esse dom das pedras


Manoel Olavo

15 de julho de 2012

SEM VOCÊ


Sem você
Eu me vi só
O rosto
            [partido ao meio

Dor:
Como
Suportá-la?

Você
Que eu amei
Devolva a
Metade roubada
De mim

Preciso juntar
Minha alma ao corpo

Mais tarde
Inteiro e recriado
Hei de domar
O inferno das palavras
As pétalas pisadas
A sede de amar

Claro que
Pode ser sem você 


Manoel Olavo
        

14 de julho de 2012

IMITAÇÃO DE KLIMT



Nenhum poema imita o beijo dos apaixonados
                                      [no quadro de Klimt
Nenhuma foto de álbum antigo
Nenhuma lembrança
No lyrics
Nada

O caso aconteceu comigo:
A luz dourada jorrava sobre nós
E nossos corpos

Meu rosto em frente ao seu

- Você era uma imensa
lagarta falante grudada em
mim num casulo dourado -

O abraço quente 
A perna entrelaçada
Bocas querendo mais

No alto um espelho: encaixe simétrico
De sua pele mais clara do que a minha

Um ser andrógino
Coberto pelo lençol
Dourado e flores cintilantes

Estávamos os dois ali
Mas era um outro tempo

Manoel Olavo

10 de julho de 2012

ESPELHOS



Vi em teu olhar
O mesmo brilho.
Fagulha de amor,
Faísca, fato adiado.
Chamar-te, hoje,
Amor!, dá nome
Às coisas. Faz-te
Real como eu sabia,
Pois moravas em mim, 
Meu saber secreto, 
Desvão da minha alma.
Estavas sobre a cama solta,
Nas entranhas da dor,
No tempo que passei
Te esperando.
Eras o andar de sonho,
Sopro de luz nas palavras.
Estavas aqui, Amor.
Éramos um. Espelhos.

Manoel Olavo

30 de junho de 2012

PEGADAS




Se eu pudesse voltar à mesma estrada
Se eu pisasse em cada pegada deixada sobre
                                                        [a terra
Mesmo assim não saberia de mim

Não sou eu quem está ali
Isto se deu noutro tempo
Noutro corpo noutra ocasião

Racionalmente sei que estou nesse mapa
De intenções passageiras e passos dados
Mas só como cartografia

Eu me vejo nos vestígios de existir
O passo gravado me faz recordar
Porém me espanta

Assim rabisco cada folha em branco
Rasgo cada carta antes endereçada
Deduzo aos poucos o que me aconteceu
Quando eu não conseguia ver


Manoel Olavo

17 de junho de 2012

VEM COMIGO, IRMÃO DE SONHOS



Vem comigo, irmão de sonhos,
A serenidade não nos basta.
Juntos subiremos o penhasco
Decifraremos velhos mapas,
Colheremos frutos,
Amores, partituras
E das ruínas surgirá
Um assombroso espetáculo.
Não faremos pausa. Nosso
Caminho é a coletânea
De imagens sobre a pedra.
Em tudo está a união
Das tentativas, o esforço
Dos que nos precederam
E seguem conosco, embora
Transfigurados. Deles
Pouco conhecemos:
Nossa memória é fugaz,
Nossa linguagem
Esconde o que de fato
Se passou conosco.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Cruzemos a muralha.
Juntos iremos à última colina
No vale das roseiras ressecadas.
De lá veremos a espiral
Luzindo dunas de ágata,
Juntando sílabas cortadas,
Riscando o ar feito balas.
É um mistério que a vida continue
Após conhecermos seu fracasso.
Só a cartografia nos consola.
Faz com que possamos, de
Algum modo, continuar presentes.
A cada mapa, um vestígio da
Eternidade. Depois aparecem
Litígios, esperanças roubadas;
Grandes geleiras derretem-se em silêncio.
O horizonte ferve, a penumbra acaba
E sóis, incontáveis sóis de rubra pira
Queimam na cidade em polvorosa.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Fujamos e busquemos Almada,
A prímula, a hirta fresta,
A fresca sina, a espraiada mancha.
Busquemo-la viva ou em pedaços.
No mar louvemos Atena, seu dourado
Esplendor; partamos em busca
Daquela que sonhamos encontrar.
Talvez ela exista e esteja
Num lugar ignorado,
Límpida, à espera de nós,
Deitada entre lençóis de cânhamo
Jardins de prímulas, colunatas,
Pelúcias e raras pedrarias.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Atrás da verdadeira sinfonia.
Talvez ela exista e esteja
Aprisionada em algum
Lugar de nossas vidas
Entre o carmesim e a fúria.

Manoel Olavo


VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...