17 de abril de 2012

OLHAR DE LÂMINA

Não sei se isso existe:
Um olhar de lâmina.
Caso não exista
Invento pra você.

Não sei se houve tempo
De acender a luz
Dizer eu te amo
Como deve ser.

Tentei ir pra longe.
Junto a mim, meu fado
Ia, me trazendo
De volta a você.

É mais do que amor,
Que o vento do mar
Logo desarruma.
É matéria una,

Única utopia,
Nova captura
De corpos unidos
Na concepção.

Haja o que houver
Saberei agir
Para merecer
Seu olhar de lâmina.


Manoel Olavo

15 de abril de 2012

GAIVOTA



                                              UM FUNDO AZUL

                           UM TRAÇO EM CURVA

                                                    UM OUTRO TRAÇO

                                                            ESPECULAR


 NÓS DOIS UNIDOS

         OU UMA GAIVOTA

                               NO AR?


Manoel Olavo

12 de abril de 2012

UMA CANÇÃO DE AMOR




Eu sei que entre nós dois existe gente à beça.

Velhos casos de amor, encontros adiados.

Sonhos de salvação, medos, expectativas.

Desejos comuns se arrastando pelas valas.

E valores diferentes! Sim, nós dois os temos.

Somos produtos sociais de tempos de crise.

Filhos de gente não recomendável, seres fronteiriços. 

O ódio e a ilusão são o alimento farto em nossas vidas,

Na dor de existir e querer gozar em dobro.

Pois haverá choro e ranger de dentes.

Nossa língua falará sem dizer nada,

Sem se mostrar de fato.

Um arqueiro cairá morto sobre a casa.

Os deuses se cobrirão de ouro, com luvas de pelica.

Nós dois seremos despedaçados.

Há uma avenida de corações partidos entre nós

E muita gente feliz vivendo junta.

Há bem mais do que isso, mas a verborragia romântica

Às vezes cansa. E não é lícito comparar paixões,

Odores, climas, mucosas.

Não é lícito forjar mentalidades.

Tantas noites eu saí por aí, 

Se você soubesse, e mendiguei afagos.

Tantas noites eu fui doido, feroz, autoindulgente.

Agora, não, eu canto de madrugada.

E o meu lamento soa no terreiro

Enquanto não brilham as luzes da Broadway.


Manoel Olavo

10 de abril de 2012

ANDARILHO


Um erro ancestral
Prende os meus pés à terra

Andarilho
À cata do que não vê

Adiante
O sol poente
O tempo

E o peso das palavras
Com que tento me salvar


Manoel Olavo

7 de abril de 2012

PERDI A HORA





Perdi a hora
Não dá pé
Me deu medo

A cidade
Tomba

O quarto
Roda

A semana
Passa

Tudo está em mim
Como tela
Mas estou ausente

O tempo
De esperar
Passou


Manoel Olavo

1 de abril de 2012

CALMARIA

Sem ti eu trovejei
Por noites de cristal
Fiz bobagem à beça
Tomei veneno
Cortei os pulsos
Dei trabalho aos amigos
Perdi até as calças
Quis viver em claustros
Eliminar instintos
- O coração plantado sob a terra -

Bem feito, coração!
Quem mandou?

Agora, esse oceano Pacífico
Essa calmaria
Esse tom de mar
E nostalgia

Onde? Em seu olhar, é claro...

Em seu olhar:
Elemental como uma fada
Como um artefato, um alaúde
Que fica além além
Da breve bruma
Que tal brisa leve


Manoel Olavo

16 de março de 2012

TEU OLHAR

Como ter-te? Se prender-te,
Impedir teu voo livre,
É temer-te e não amar-te?
És como o vento: tu partes.

Na verdade, quase danças,
Solta no ar, bailarina;
Vais por aqui, por ali,
Entre o mar e o espelho d´água.

Não prender teu riso claro,
Nem roubar teu sonho leve.
Deixar-te ir, simplesmente:
Tua alma nunca se cansa.

Nua em pelo, és irreal
Como uma ninfa, uma ave.
Borboleta que, no ar,
Sobrevoa, pousa e parte.

Adeus, adeus, borboleta,
Solta entre o sol e o incêndio.
Leva-te o vento ao mais alto
Céu de morte e nascimento.

Teu olhar de verde água
Faíscas de azul e cinza.
Teu olhar, meio de lado,
Longe do meu para sempre.

 
Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...