6 de janeiro de 2012
CACHOEIRA
Sob um céu
Espesso e rude
Desfiz os olhos
E me lembrei
Da infância
Fiz mais:
Lembrei da
Cachoeira
Fonte do alto
Batendo o
Corpo duro
Das pedras
Azul e luz
Fino vapor
De água
Cobrindo
O sol
A coluna líquida como
Um mastro de cristal
Minha alma
Fluindo
Por séculos
Sob as águas
Cachoeira:
Eu quis tê-la
Mas só pude lembrá-la
Meu Deus: será que as memórias morrem?
Manoel Olavo
4 de janeiro de 2012
MAR
Mar
Numa palavra
A armada se arrisca
Por cima do papel
Cruzando a fronteira
Um barco
Corta o vai-e-vem
Das velas latinas
O desenho
Da esquadra
Cresce no
Horizonte
Sabe você de onde vem o mar?
De onde partiu o navegante?
Sabe por que batem as ondas
Contra o cais das naus envelhecidas?
O manto de vapor
Encobre águas poderosas
Efeito da carne dividida
Entre a dimensão do mar
E a vontade de queimar numa pira ígnea
Chamas que vão para o alto
Além do ponto onde está a sentinela
Silenciar, calar a própria voz
Conter num lugar comum
O sopro da fala
Mas ela é súbita
É limite sonoro
Cala a todos que tentam
Desvendá-la, sem dizer
Por qual desvão escapa
Nem só de mar
Nem só de pira
Vive o homem
Ninguém
Fica comigo
Em busca de
Som e fúria
Na hora agá
Eu me desfaço
E morro, chama
Ígnea, pira na
Rota dos astros
Mas havia alguém
Havia alguém lá
Que me chamava
Homem é esse
Frágil cordão de fala
Manoel Olavo
1 de janeiro de 2012
30 de dezembro de 2011
BAÍA
Por um segundo
Tudo parece em seu lugar
Nas águas da baía de Guanabara
Por um segundo
Tudo parece reluzente e calmo
Notas brandindo na boca do silêncio
Barcos homens
O curso indiferente
Das águas me contagia
Por um segundo
A dor parece mais
Leve do que o ar
Manoel Olavo
13 de dezembro de 2011
AS COISAS
As coisas que eu vou dizer
Irão voltar, não importa
Como um antigo querer
De passagem, bate à porta
As coisas ditas por mim
São como espelhos: quebráveis
Esboços antes do fim
Começos intermináveis
As coisas que eu vou dizer
Noves fora o seu lamento
Ajudam-me a percorrer
A metáfora do tempo
As coisas ditas por mim
São altas ilhas remotas
De mares que contravim
Num barco de velas rotas
As coisas que eu vou dizer
Nascem com força tamanha
Que fazem alvorecer
Na violência do drama
As coisas ditas por mim
Sumário de língua morta
Silenciaram enfim
- Palavras rondando a porta
Silenciaram enfim
- Palavras rondando a porta
Manoel Olavo
NO AVESSO
I
No avesso
A voz do
Fosso grita
Sob o
Calcário
Da estrada
O talho
Da lâmina
Sangra
Seu fio
De morte
Branca
Limo
No rastro
Da pedra
Enredo
Do fim
Da revoada
II
No avesso
O talho
Da lâmina
Sangra
Seu fio
De morte
Branca
A voz do
Fosso grita
Limo
No rastro
Da estrada
Enredo
Sob o
Calcário
Na pedra
O fim
Da revoada
III
No avesso
Vê-se o
Detalhe
Manoel Olavo
11 de dezembro de 2011
FORMA
Ela me constrange
Não é fácil vê-la
Entre cores claras
Qualidade rara
Da luz repartida
Marca vertical
Na chuva de orvalho
Sua textura, breve
Água, se acomoda
Uma a uma, em gotas
Sobre a superfície
Não a enlaçarei
Sem que ela deseje
Nem a amarei
Antes que me leve
Manoel Olavo
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