23 de junho de 2011

CADA MINUTO PASSA

Cada minuto passa
E eu fico mais antigo.
O corpo é um território
Que carrego comigo.

Cada minuto passa
E, indene, a carne fria
Assume a consistência
Do que nem pele tinha.

Cada minuto passa
E a vida cobre a alma
Com camadas. O ar é
Duro, cortado à faca.

Cada minuto passa
E sou o que não nomeio.
Cada minuto vai
À frente do primeiro.

Cada minuto passa
E sinto mas não vejo.
Cada minuto segue
À frente do desejo.

Não há ciência sem
A descida ao inferno.
Nem há eterno sem
O istmo do corpo.

Cada minuto passa e
É pele, ausência, istmo,
Corpo, desejo à faca,
Alma em busca de ritmo.

Manoel Olavo

O QUE DE MELHOR


O que de melhor podes me dar
É este sol sobre o oceano
A cidade em maio, recolhida 
A luz da tarde se alçando rosa

É esse teu silêncio
O fim das imprecisões
O equilíbrio dos sentidos
A vida de volta ao seu
Pouso e prumo

O que melhor fazes
É suportar meus sonhos
Decifrá-los, torná-los ateus,
Decompostos:
Eco que sai de mim
E se parte na
Parede em cacos

O que de melhor me dás
É a volta esvaziada ao
Mesmo; o fim da inocência
O mar, o vento, a pálida
Luz de um renovado espanto

Manoel Olavo

22 de junho de 2011

DEPOIS DE TI

Pousa a tua mão
No meu rosto
Porque te amo
E sei voar contigo.

A fonte, amor,
És tu. O leito,
Eu bebo em
Meio à travessia.

Toma-me:
Beijo teu corpo
Coberto de
Palavras.

Nus, os signos
Amarrados em
Teu ventre.

Antes de ti
Eu era partido
Ao meio.

Depois de ti
Sou um mar
De saliva e versos.


Manoel Olavo

FRESTAS


Eu sou o que brota nas pedras do muro
Apesar de ti e de teus desejos.
Eu sou o que cala o dia antes da hora.
Sou o que solapa o mar e corrói a carne
E ruge e transforma o ser num cão sem dono.
Eu me chamo ausência, o tempo é meu escravo.

Sou rei de extintos palácios, o guia
Da multidão aflita. O rosto humano
Me parece banal e, indiferente,
Eu sigo o rumo a serviço do não.
Fogo e cinzas são o meu mistério.

Mas há o alvorecer: o eterno ciclo.
E a vida vem com o seu feitio d´água
(Ei-la que surge, afinal, renascida)
Penetrando o espaço aberto entre as rochas
Trazendo luz e cor aonde eram frestas.


Manoel Olavo

21 de junho de 2011

NÃO SÓ NO CÉU



Calado, o homem
Conta moedas
Para poder jantar.

A dona de casa
Imagina uma curra
Enquanto lava meias.

A criança com medo
Chora, esconde-se
Embaixo da mesa.

O velho com câncer
Espera pacientemente
A dose de morfina.

Tudo é ilusão.
No Ártico, esquimós
Sonham com areia.

Deveria haver
Um outro sol
Dentro das coisas.

Manoel Olavo

25 de maio de 2011

SABIA

Só sei que
De longe
Eu te adivinhava

Sabia de ti
Menina solitária sobre a pedra
Sempre pensando

Podia te ver
Onde a dor te enclausurava
E ninguém mais sabia

Sabia do pomar, da varanda
Das flores no teu recato

Sabia de um jardim silencioso
Que não se pode conhecer

Mesmo assim, sabia
E te seguia à espreita
Com o que existe em mim
Com meu amor, minha falta

Vidente, eu te sabia
Quando enxergava
A primeira estrela em cima do pinhais
Aldebarã, na luz do meio-dia

- Somente tu e o teu segredo

Manoel Olavo

15 de maio de 2011

EU TE ESPERAVA

Eu te esperei na noite fria
Quanto tudo era oculto
E o mundo começava
- Amor, eu te esperava.

Nas águas do fundo
Da vida que nasce
Nos ventres e pomos
- Amor, eu te esperava.

Num dossel de luz
Nos pedaços
Das primeiras palavras
- Amor, eu te esperava.

Nas revoadas no céu
Depois do breu e da
Tormenta dissipada
- Amor, eu te esperava.

Nas explosões de lava
Nos corais azuis, nas algas
No teto da antiga sesmaria
- Amor, eu te esperava.

No estuário comum
Fonte do mesmo rio
Alma da mesma água
- Amor, eu te esperava.

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...