23 de novembro de 2010

ESTAVAS AQUI

Vi em teu olhar
O mesmo brilho.
Faísca, fato adiado.
Fagulha do amor
Suspenso no céu
À espera de nós.
Chamar-te, agora,
Amor!, enfim dá nome
Às coisas. Faz-te real,
Não mais fugaz nem
Adiada. Pois eu te sabia:
Moravas em mim, saber
Secreto, recôndito desvão
Na alma. Estavas sobre
A cama solta, nas entranhas
Da dor, no tempo que
Passava te esperando.
Eras andar de sonho,
Presença conhecida,
Sopro de luz e palavras.
Estavas aqui, Amor.
Éramos um. Espelhos.

Manoel Olavo

ILHA



Tivéssemos
Chegado
À ilha
Que se
Afasta

Veríamos
A face
Da palavra
Na folha
De papel

Lugar onde os
Mitos estão
De pé
Num chão
Das letras

Manoel Olavo

13 de novembro de 2010

NEM QUE ME MANDASSEM



 Nem que me mandassem pra longe dali, pra depois da curva dessa rua, pra depois do rabo da Quinta Avenida, aonde o asfalto termina, e é só lixo e sangue e tosse e gente rodeada de lama, nem que me mandassem pra depois do limite do mundo, pro fim da linha, pro outro lado da fronteira das eras e, no entanto, é ali do lado;
Nem que eu fosse até ali, até o alto do morro espetado de antenas, de casebres, na penumbra da viela mal-iluminada, e desse as costas à rua que, bem ou mal, eu já conheço, e  faço questão que esteja comigo, pois meu coração só vai até os confins do bairro, só vai até onde está o reflexo, o eco, o eito, passou dali é tudo maldição, é senda, é outro território, passou dali o trem desanda sobre os trilhos, se enche de gente que não foi convidada;
Nem que me mandassem pra depois da estação aonde eu desço, nem que me mandassem pra depois da piscina, do banquete de restos, pro lado de lá dos quintos dos infernos, eu juro que não ia, ah não ia , eu fugia, pois, passou dali, é tudo gente má, chinfrim, cheirada, possuída, gente matando por cigarro, gente tirando o rim das criancinhas, roubando bebês no shopping, bolinando filhos, gente vil, x-9;
Nem que eu me embrenhasse na floresta, voltasse pro meio do mato, quando éramos bons, colhíamos frutos e raízes, voávamos como aves e vivíamos embriagados de bálsamo, malgrado algum canibalismo e o gosto do moquém dos vencidos, mas antes tivéssemos continuado assim, contentes com tudo, autênticos, invioláveis, unidos num tempo anterior à deflagração, anterior ao fim da rua, antes de bater toco por aí, sem mapa nem território.

Manoel Olavo

GUARDIÃO

Sou guardião
Dos versos que cintilas.
Recolho-os nas mãos
E no pensamento.

Sou náufrago
Cruzando o caos.
Ulisses sem Ítaca.

E tu, amada
Ao derramar cristais de sonho
És a ilha prometida.

És musa-aedo
Nereida em mar sombrio
Ninfa Epimélide.

Ao Rochedo do Sono
Peço que conceda
Voragem de amor
E vida, embora
A dor e o tempo.

Só há, bem sei, Helena
- És a mais bonita -
E olhos assombrados
Piscam se tu passas.

Quando tudo terminar
Ao fim da Teogonia
Ainda te guardo e velo
No rastro de galáxias extintas.

Manoel Olavo

6 de novembro de 2010

FOME

Fome: fome de ver a forma bronzeada
Fruí-la redonda, virginal ou seminua
Na maciez dos altos e baixos exibidos.
Nem fartura nem aridez: eis teu apogeu.

Fome: fome de ver a forma eviscerada
Rasgar o manto que recobre as aparências
Pois o olhar, na avidez das visões extintas,
Quer devorar o cerne-luz da matéria exausta.

Fome: sílfide, vestal ou deusa, és a vinha.
A baga nua guarda o sumo, ateia o fogo.
Teu volume-cor dissipa-se na retina
Desfeito em véus de luz e de prazer suposto.

Fome: a que ousa chegar sem aquiescência.
Dado bruto, febril, de consumo imediato.
Dos fascínios coletivos, o mais premente.
Antiasceta por excelência – ou maldição?

Manoel Olavo

3 de novembro de 2010

AMO-TE PASTORA

Amo-te pastora
E neste enigma
Eu te desejo minha

Amo-te colossal
E tudo quanto há
Vem ao teu encontro
 
Pastora:
A face oculta
O lado avesso

Olhar que me espalha
Entre os espelhos

Sabia-te mais do que sonhara
Sabia-te mais do que pedira
Medida voraz de mil incêndios

Amo-te assim um amor maduro
Sem erros desnudo
E querendo-te demais te levo
Por dias de voar ao rés do sonho

Manoel Olavo

28 de outubro de 2010

A SERENIDADE É O DOM DAS PEDRAS



No chão
A vida abatida

Fingindo-me sereno
Pra escapar de mim

Alguém aí
No manto das palavras?

O que sobrou
Do salto do animal feroz
Da indecisão entre vida e morte?

Pedaços
A alma retorcida
E a serenidade:
Esse dom das pedras

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...