24 de abril de 2010

TEU OLHAR



Como ter-te? Se prender-te
Impedir teu vôo livre
É ferir-te e não amar-te?
És como vento: tu partes.

Na verdade, acho que danças.
Solta no ar, bailarina
Vais por aqui, por ali
Entre o mar e o espelho d´água.

Não prender teu riso claro
Nem roubar teu sonho leve.
Deixar-te ir simplesmente.
Teu rosto está sempre adiante.

Chegas intensa e irreal
Como uma ninfa, uma ave.
Borboleta no ar, que
Sobrevoa, pousa e parte.

Nua em pelo, tu és linda
Como uma gazela dourada.
A um só tempo, cavaleira
E montaria. Tu és livre.

Teu olhar: um verde mar
Faiscando azuis e cinzas.
Teu olhar meio de lado.
Teu olhar, eternamente.

Manoel Olavo

23 de abril de 2010

POESIA



Espalha no papel
A angústia originária.
Constrói um mar de frases
Um arroio, uma tela
Onde a letra cintila
Em fogo brando até
O pensamento achar.
Poesia deve vir
Como libertação:
Verbo denso, maneira
De sonhar, de parar
O tempo e o deus da morte.
Poesia que escrevi
Imaginariamente
Sem culto ou irrisão.
Há mais na vastidão
Do que podes mostrar.

Manoel Olavo

20 de abril de 2010

UTI POSSIDETIS


Nós dois
Seremos mar
Além das gôndolas

Nadamos por vergéis
Baías claras e marés-cheias

Risco no céu
Mar que rodopia
Dois corcéis n´água

Um toque a
Sua pele reluz

Olhar que destila
Incrédulas sereias

Emoção de náufrago
Diante do oceano

O amor à solta

Nós dois
Cobertos de mar
Engolfando espumas

O penhasco
Derruba corais
No fundo transparente

Nós dois
Seremos mar
Além das gôndolas

Manoel Olavo

ASSIM É SE LHE PARECE

De uma peça de L. Pirandello

Não, as coisas não são
Como parecem ser
Não vale a palavra impressa
Nem a imagem em movimento
Não vale a exibição pública
Nem o ato de protesto
Até o corpo, a mais íntima
Matéria, torna-se falso
O que vem logo se perde
O que fica cedo parte
O que se tem não denota
Tudo é farsa à nossa volta
É preciso manter
Cada um na sua concha
Deve-se estar vazio
Atrás de um sentido
O gesto de amor
O nicho de paz
Nada disso conta
Nada disso importa
Nada é como aparenta
Assim é se lhe parece

Manoel Olavo

ANATOMIA

Eu era um
Você o outro
Do contrário amor
Que não nos quis

Dois beijos loucos
O gosto grená
Da sua greta
Foi só

Há casos assim
Meu pior
Pelo avesso

Duas almas más
Os destroços
Das nossas vidas

Você selenita
Sem nome nem paz
Somente imaginada

Eu marciano
Sem hora pra dormir
Nem maturidade

Juntos fizemos
A anatomia
Da nossa danação

Manoel Olavo

17 de abril de 2010

SAUDADE

Saudade? De quê?
De alguém, de um dia?
Da emoção, palavra?
Da plenitude
Nunca obtida?

Saudade? De quê?
E o que fazer contigo?
Menino nu
De olhar aflito
No espelho em
Que me parto?

O mar é um
E nele flutuamos

Você a sós
Múltiplo finito
Denso vestido de luz
Bem-vindo à sua pele

Saiba que existe
Um mar lá fora
A água lambe
A areia os seixos
As rocas

O atol das aves
O último mistério

Saudade? De quê?
De mim? De ti?
De ser?

Do que virá
e havia?

Manoel Olavo

GAIVOTAS SOBRE O MAR



Os passos vão e vem como gaivotas sobre o mar
A vida passa devagar enquanto a memória vaga.

A mais pura das emoções: amar-te – que foi feito dela?
Que fizemos nós com a ternura que agora é desencanto?

Por onde fomos quando havia abundante luz e o dia era claro?
Não se trata de chorar, contar os erros, é a natureza finita das
                                                                                   [coisas.

As emoções no momento certo, a vida que dispensa imitações
O ritmo dos fatos, corpos e sonhos como gaivotas sobre o mar.

A ferida aberta, a dor de estar aqui e de te amar um dia
Estará em nós como um jardim de cinzas: o baile não pára.

Sequioso de espaço e tempo, eu parto em busca da aurora
De um novo amor, que seja a sombra de uma árvore num deserto
                                                                   [seco e impressentido

Manoel Olavo

VENTO ELÍSIO

Lento e minucioso meu sopro caminha Por seu corpo nu pele branca à mostra. Eu, Elísio, vento soprando na fresta Inspeciono cada ponto oculto...