19 de junho de 2017

VEM COMIGO IRMÃO DE SONHOS



Vem comigo, irmão de sonhos,
A serenidade não nos serve.
Juntos, subiremos no penhasco
Decifraremos velhos mapas,
Sentiremos fome; frio e febre.
Seguiremos
Amores; partituras
E de nossas ruínas nascerá
Um assombroso espetáculo.
Não faremos pausa. Nosso
Caminho será a coletânea
De imagens sobre a pedra.
Em tudo estará a união
De tentativas fracassadas,
O esforço dos que nos precederam
E seguem conosco, mesmo
Transfigurados. Deles
Pouco conhecemos:
Nossa memória é fugaz,
Nossa linguagem
Esconde o que de fato
Aconteceu conosco.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Cruzemos a murada;
Juntos, iremos até a última colina
No vale das roseiras ressecadas.
De lá veremos a espiral
Tocando notas de ágata,
Juntando sílabas cortadas,
Zunindo no ar feito balas.
É um mistério que a vida continue
Após conhecermos seu fracasso.
Só a cartografia nos consola.
Só a melodia nos faz continuar.
Somente o que criamos
Faz com que possamos, de algum
Jeito, continuar existindo.
Em cada mapa, um vestígio de
Eternidade. Depois aparecem litígios,
Litanias, esperanças roubadas;
As grandes geleiras derretem-se em silêncio.
No final, o cristal se espatifa contra a pedra
O horizonte congela, a mão de aço joga
A carta sobre a mesa, a penumbra passa
E sóis, incontáveis sóis da rubra pira
Brilham na cidade tomada pela cantoria.
Chama-me de novo, irmão de sonhos:
Fujamos e busquemos Almada,
A prímula, a pequenina fresta,
A fresca sina, a espraiada mancha.
Busquemo-la viva ou no seu túmulo.
No mar louvemos Atenas,
Cantemos seu esplendor
E partamos à procura daquela
Que sonhamos encontrar.
Talvez ela exista, talvez esteja
Em algum lugar ignorado,
Límpida; nua; à espera de nós
Deitada entre lençóis de cânhamo
Jardins de prímulas e colunatas
E pelúcias e pedrarias raras.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Atrás da verdadeira sinfonia.
- Talvez ela exista e
Esteja aprisionada em
Algum lugar de nossas vidas
Entre o amor e a fúria.


Manoel Olavo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

VEM COMIGO IRMÃO DE SONHOS

Vem comigo, irmão de sonhos, A serenidade não nos serve. Juntos, subiremos no penhasco Decifraremos velhos mapas, Sentiremos fo...