1 de junho de 2011

VEM COMIGO, IRMÃO DE SONHOS



Vem comigo, irmão de sonhos,
A serenidade não nos serve.
Juntos, subiremos o penhasco
Decifraremos velhos mapas,
Colheremos febres, pistas
Amores, partituras
E das ruínas nascerá
Um assombroso espetáculo.
Não faremos pausa. Nosso
Caminho será a coletânea
De imagens sobre a pedra.
Em tudo estará a união
Das tentativas encetadas,
O esforço dos que precederam
E seguem conosco, embora
Transfigurados. Deles
Pouco conhecemos:
Nossa memória é fugaz,
O nosso linguajar
Esconde o que de fato
Se passou conosco.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Cruzemos a murada;
Juntos, iremos à última colina
No vale das roseiras ressecadas.
De lá veremos a espiral
Luzindo dunas de ágata,
Juntando sílabas cortadas,
Zunindo no ar feito balas.
É um mistério que a vida continue
Após conhecermos seu fracasso.
Apenas a cartografia nos consola.
Faz com que possamos, de algum
Modo, continuar presentes.
Em cada mapa, um vestígio de
Eternidade. Depois aparecem litígios,
Litanias, esperanças roubadas;
Grandes geleiras derretem-se em silêncio;
No fim, a gema se espatifa contra a pedra
O horizonte congela, a mão de aço põe
A carta sobre a mesa, a penumbra acaba
E sóis, incontáveis sóis de rubra pira
Brilham na cidade em polvorosa.
Chama-me de novo, irmão de sonhos:
Fujamos e busquemos Almada,
A prímula, a hirta fresta,
A fresca sina, a espraiada mancha.
Busquemo-la viva ou em seu túmulo.
No mar louvemos Atena, seu esplendor
E partamos à procura daquela
Que queremos encontrar.
Talvez ela exista, esteja
Num lugar ignorado,
Límpida, à espera de nós
Deitada entre lençóis de cânhamo
E jardins de prímulas e colunatas
E pelúcias e raras pedrarias.
Vem comigo, irmão de sonhos,
Atrás da verdadeira sinfonia.
- Talvez ela exista e
Esteja aprisionada em
Algum lugar de nossas vidas
Entre o carmim e a fúria.

Manoel Olavo

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